Vírus mata girinos, reduz em 83% reprodução de pererecas e expõe ameaça oculta na Mata Atlântica

Vírus mata girinos, reduz em 83% reprodução de pererecas e expõe ameaça oculta na Mata Atlântica
Foto: agencia.fapesp.br

Estudo identificou o primeiro caso comprovado de morte em massa por ranavirose em anfíbios nativos da América do Sul.

Neste artigo
  1. Vírus provocou três surtos na mesma lagoa
  2. Queda foi medida por monitoramento de 27 anos
  3. Períodos secos podem favorecer novos surtos
  4. Ameaça pode atingir outras espécies
  5. Monitoramento continuará em Santa Catarina
  6. Perguntas frequentes

Centenas de girinos morreram em uma lagoa de Santa Catarina e, após os surtos, a reprodução da perereca-macaco caiu 83%. Pesquisadores comprovaram que a causa foi a ranavirose, doença provocada por um vírus que também infecta répteis e peixes.

O caso ocorreu entre 2024 e 2026 na Reserva Particular do Patrimônio Natural Santuário Rã-Bugio, em Guaramirim, na Mata Atlântica. O estudo apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) foi publicado em 20 de agosto de 2026 na revista Biodiversity and Conservation.

Vírus provocou três surtos na mesma lagoa

O primeiro episódio de mortandade foi registrado em janeiro de 2024. Outros dois ocorreram entre novembro de 2024 e janeiro de 2025 e entre novembro de 2025 e março de 2026.

Ao todo, foram encontrados 324 girinos mortos. Desse total, 315 eram pererecas-macaco, espécie endêmica da Mata Atlântica, e nove pertenciam à espécie Boana bischoffi, conhecida como perereca-de-pijama.

Os testes detectaram ranavírus em 279 pererecas-macaco, o equivalente a 88,6% dos animais analisados. Entre as pererecas-de-pijama, oito dos nove exemplares mortos também testaram positivo. A quantidade de animais dessa segunda espécie, porém, não foi suficiente para caracterizar uma mortandade em massa.

Entenda o caso

A ranavirose é uma doença causada por vírus do grupo dos ranavírus. Em girinos, a infecção pode destruir tecidos de órgãos vitais, principalmente o fígado, e avançar rapidamente.

Os sinais observados incluem inchaço abdominal, vermelhidão intensa, úlceras e hemorragias. Em 13 girinos, análises microscópicas dos fígados identificaram lesões compatíveis com uma infecção severa.

Segundo a FAPESP, os surtos de ranavirose ocorreram entre 2024 e 2026 na RPPN Santuário Rã-Bugio, em Guaramirim, Santa Catarina, e coincidiram com uma queda de 83% na reprodução da perereca-macaco.

Queda foi medida por monitoramento de 27 anos

A dimensão do impacto só pôde ser calculada porque a lagoa é monitorada continuamente desde 1999. Durante o período reprodutivo, que vai de junho a fevereiro, pesquisadores contam diariamente as massas de ovos depositadas na vegetação ao redor da água.

As fêmeas da perereca-macaco dobram folhas para proteger os ovos do ressecamento. Quando eclodem, os girinos caem diretamente na lagoa e iniciam a fase aquática do ciclo de vida.

Entre agosto de 2025 e fevereiro de 2026, depois dos episódios de mortandade, o número de massas de ovos ficou muito abaixo do registrado nos mesmos meses entre 1999 e 2004. A comparação levou os pesquisadores a estimar um declínio de 83% na reprodução da espécie.

A carga viral encontrada nos girinos de perereca-macaco foi considerada alta, com quase 10 bilhões de cópias do vírus por microlitro de amostra. Nos animais da espécie Boana bischoffi, a concentração chegou a aproximadamente 2 bilhões de cópias por microlitro.

Períodos secos podem favorecer novos surtos

Os pesquisadores também compararam os registros de morte com dados climáticos das duas semanas anteriores e do período dos surtos. Nenhuma variável ambiental isolada explicou o declínio populacional tanto quanto a presença do ranavírus.

Vírus mata girinos, reduz em 83% reprodução de pererecas e expõe ameaça oculta na Mata Atlântica
Foto: agencia.fapesp.br

Mesmo assim, as análises apontaram aumento abrupto do risco quando a umidade relativa do ar caiu de 90% para 65% nas duas semanas anteriores à mortandade.

“Provavelmente, o vírus está presente no ambiente o tempo todo, sem causar doença, mas a baixa umidade pode fazer com que ele aumente a própria replicação e cause um surto”, sugere Aline Fonseca, autora do estudo e pesquisadora de doutorado da Universidade Federal do Paraná.

Segundo a pesquisadora, a baixa umidade também pode comprometer o sistema imunológico dos anfíbios. Com menos água na lagoa, os girinos ficam concentrados em uma área menor, o que facilita a transmissão entre os indivíduos.

Ameaça pode atingir outras espécies

O ranavírus é frequentemente encontrado em rãs-touro, espécie também chamada de rã-americana e criada comercialmente em diferentes regiões. Esses animais podem carregar o patógeno sem apresentar sinais da doença, o que dificulta a identificação de áreas de risco.

Nas últimas décadas, aumentaram os relatos de mortes suspeitas de espécies nativas nas Américas do Sul e do Norte. O novo estudo, porém, apresenta a primeira comprovação robusta de que a ranavirose causou o colapso de uma população silvestre de anfíbios nativos na América do Sul.

A pesquisa foi realizada por integrantes da UFPR, da Universidade Estadual de Campinas e do Instituto Rã-Bugio para Conservação da Biodiversidade. O trabalho também recebeu recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e do Ministério da Ciência, Inovação e Universidades da Espanha.

Para Luís Felipe Toledo, professor do Instituto de Biologia da Unicamp e coordenador do projeto, a ameaça merece atenção semelhante à dedicada ao fungo quitrídio, outro patógeno associado à redução de populações de anfíbios.

“Esse vírus também pode ser uma grande ameaça para a conservação dos anfíbios. Precisamos aprofundar os estudos para entender o real perigo decorrente da presença do ranavírus”, afirma Toledo.

Monitoramento continuará em Santa Catarina

As pesquisas devem avançar para áreas próximas ao Santuário Rã-Bugio. A equipe pretende coletar amostras de animais na natureza para medir a presença do vírus e verificar se outros ambientes da Mata Atlântica enfrentam o mesmo problema.

Os cientistas também defendem a análise de anfíbios preservados em museus de zoologia. A estratégia pode indicar há quanto tempo o ranavírus circula no Brasil e ajudar a explicar por que passou a provocar mortes em massa apenas recentemente.

O artigo científico completo, intitulado “Population decline of a leaf frog coincident with recurrent ranavirosis outbreaks in the Atlantic Forest”, está disponível na revista Biodiversity and Conservation. O monitoramento da lagoa seguirá durante os próximos períodos reprodutivos, quando será possível verificar se a população se recupera ou se novos surtos ocorrerão.

Perguntas frequentes

O que é ranavirose?

É uma doença causada por ranavírus, grupo de vírus que pode infectar anfíbios, répteis e peixes. Em girinos, a infecção pode provocar lesões graves em órgãos como o fígado.

Qual espécie teve a reprodução reduzida?

A queda de 83% foi registrada na perereca-macaco, Phyllomedusa distincta, espécie endêmica da Mata Atlântica.

O vírus já foi encontrado no Pará?

O estudo não informa registros específicos no Pará. Os pesquisadores, entretanto, alertam que é necessário ampliar as coletas para descobrir a distribuição do ranavírus em outras áreas brasileiras.

Com informações de FAPESP.

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