Dezessete anos de campo no Pará sustentam estudo publicado na Science

Dezessete anos de campo no Pará sustentam estudo publicado na Science

O trabalho que concluiu ser mais eficiente proteger a floresta em pé do que restaurar saiu de uma rede que reúne 33 instituições e começou a medir Paragominas e Santarém em 2009. Quatro dos 19 autores trabalham em Belém.

Mais de 400 pontos de mata medidos em terra, 99 igarapés amostrados e entrevistas em mais de 600 casas de agricultores. É desse acúmulo, começado em 2009 nas regiões de Paragominas e Santarém, no Pará, que saiu o estudo publicado em 17 de setembro na revista Science.

O artigo comparou o que aconteceu de fato nessas paisagens com cenários alternativos e concluiu que evitar o desmatamento e evitar a degradação da floresta entregam mais biodiversidade e mais carbono por recurso investido do que restaurar área agrícola. A referência é Science, volume 393, páginas 1.221 a 1.225.

São 19 assinaturas. O autor principal é Leonardo de Sousa Miranda, e o autor sênior é Jos Barlow, ambos da Universidade de Lancaster, no Reino Unido. Quatro dos coautores trabalham em Belém: Joice Ferreira, da Embrapa Amazônia Oriental, e Ima Célia Vieira e Nárgila Moura, do Museu Paraense Emílio Goeldi, além de Sâmia Nunes, do Instituto Tecnológico Vale. Completam a lista brasileira Luiz Aragão, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Pedro Brancalion e Silvio Ferraz, da Esalq, da Universidade de São Paulo, e Paulo Molin, da Universidade Federal de São Carlos.

A estrutura que sustentou esse trabalho tem nome: Rede Amazônia Sustentável. Ela nasceu da integração de três grandes projetos de pesquisa coordenados pela Embrapa, pela Universidade de Lancaster, pela Universidade de Cambridge e pelo Museu Emílio Goeldi, este último por meio do seu Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Biodiversidade e Uso da Terra na Amazônia. A iniciativa envolveu 33 instituições.

Árvore no Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém. Duas das autoras do estudo são pesquisadoras da instituição.
Árvore no Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém. Duas das autoras do estudo são pesquisadoras da instituição.

O desenho de campo é o que dá peso ao resultado. Para o artigo da Science, a equipe cobriu mais de três milhões de hectares entre 2010 e 2020, cruzando imagens de satélite de alta resolução com dados de 381 transectos distribuídos em 38 microbacias e 499 propriedades rurais, mais modelos que mapearam 160 espécies de aves e 426 espécies de árvores. Nada disso se improvisa em uma temporada de campo.

O alicerce vem de antes. A primeira grande síntese da rede, publicada em 2013, descreve um levantamento montado em 36 microbacias, 18 em cada região, com cerca de 5 mil hectares cada uma. Paragominas entrou com 1,9 milhão de hectares, e a área de Santarém e Belterra, com cerca de 1 milhão. O componente socioeconômico ouviu 171 propriedades em Paragominas e 317 em Santarém e Belterra. Os dados ecológicos e sociais foram coletados de forma sincronizada entre abril de 2010 e agosto de 2011.

A coordenação da rede hoje está com Joice Ferreira, Jos Barlow, Alexander Lees, Cecilia Leal e Erika Berenguer. O time central é formado por pós-doutorandos e estudantes de graduação e pós-graduação, e o monitoramento de longo prazo segue pelo PELD-RAS, programa que ampliou o trabalho para outras regiões do leste da Amazônia. O financiamento vem de fontes como o CNPq, o programa PELD, a agência britânica UK Research and Innovation e o Global Centre on Biodiversity for Climate.

O escopo também se ampliou. A rede organiza hoje a produção em cinco temas: biodiversidade, restauração, rios e igarapés, fogo e sociedade. São frentes que dialogam entre si, e é dessa conversa que saem trabalhos como o publicado agora, que precisou juntar contagem de aves, inventário de árvores, estoque de carbono, histórico de fogo e dados de propriedade rural no mesmo cálculo.

A própria rede descreve as paisagens onde trabalha como representativas de uma Amazônia em transformação, sujeita a secas severas, a incêndios florestais, a mudanças no uso da terra e à forte atividade de movimentos sociais. É nesse terreno, e não em condição de laboratório, que os dados foram levantados.

Essa continuidade tem uma consequência prática. Comparar o que aconteceu com o que teria acontecido se outra decisão tivesse sido tomada exige medir os mesmos lugares por muitos anos. Sem série longa, não há como estimar o que foi perdido nem quanto custaria evitar a perda.

Fim de tarde na Floresta Nacional do Tapajós. O monitoramento de longo prazo mantém a presença da rede nessas paisagens desde 2009.
Fim de tarde na Floresta Nacional do Tapajós. O monitoramento de longo prazo mantém a presença da rede nessas paisagens desde 2009.

A rede define a si mesma como ciência colaborativa e engajada, construída no diálogo com quem vive na região, de moradores e agricultores a gestores e tomadores de decisão, e lista entre seus resultados a formação de estudantes na própria Amazônia. O artigo na Science é o produto mais visível desse arranjo, mas é o arranjo que torna o artigo possível.

Para a leitora e o leitor do Pará, a conclusão tem endereço. As duas paisagens medidas ficam no estado, boa parte dos dados foi levantada por equipes locais e a recomendação que chega ao debate internacional sobre restauração florestal foi construída sobre transectos abertos em mata paraense.

Fotos: Arquivo, Gui Falcão e Mateus Mendonça Ramos Simões

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