
O Brasil registrou 24.382 focos de calor em setembro de 2026, 13,6% menos que os 28.214 de setembro de 2025, segundo o Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A queda nacional esconde um movimento oposto na Amazônia: no bioma, os focos subiram 74%, de 7.211 para 12.562, enquanto o Cerrado recuou 44%.
Neste artigo
Os números valem para o satélite de referência do Inpe, o AQUA_M-T, que usa o mesmo método de detecção e passa em horários próximos ao longo dos anos, o que permite comparar um ano com o outro. Setembro de 2026 é o menor da série desse satélite, que começa em 2003. O recorde recente é de setembro de 2024, com 83.154 focos.
O que o Inpe registrou em setembro
O Pará lidera o ranking de estados, com 5.224 focos, seguido por Amazonas (3.726), Bahia (2.747), Maranhão (2.481) e Mato Grosso (1.964). Em 2025, a lista era encabeçada por Maranhão (4.595), Bahia (3.337) e Pará (2.967).
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Na comparação com o mês anterior, o país subiu 20,6%: agosto de 2026 teve 20.222 focos. A Amazônia concentrou 51,5% de todos os focos do país no mês. Em setembro de 2025, a fatia do bioma era de 25,6%. O Cerrado, que liderava em 2025 com 14.543 focos, caiu para 8.104.
| Recorte (satélite AQUA_M-T) | Set/2026 | Set/2025 | Variação |
|---|---|---|---|
| Brasil | 24.382 | 28.214 | -13,6% |
| Amazônia | 12.562 | 7.211 | +74,2% |
| Cerrado | 8.104 | 14.543 | -44,3% |
| Caatinga | 2.503 | 3.363 | -25,6% |
| Pantanal | 102 | 189 | -46,0% |
| Pará | 5.224 | 2.967 | +76,1% |
| Amazonas | 3.726 | 942 | +295,5% |
| Acre | 877 | 840 | +4,4% |
| Amapá | 235 | 73 | +221,9% |
Por que o país caiu e a Amazônia subiu
A conta nacional é dominada pelo Cerrado e pelo Nordeste. Segundo os dados do Inpe, o Maranhão passou de 4.595 para 2.481 focos (queda de 46%), Goiás de 1.625 para 431 e a Bahia de 3.337 para 2.747. Esses recuos pesaram mais no total do que os aumentos do Norte.
Já no Norte, o movimento foi contrário. O Pará avançou 76% e o Amazonas quase quadruplicou, de 942 para 3.726 focos. Rondônia subiu de 388 para 515 e Roraima de 108 para 216.
Os dados do Inpe mostram onde há fogo, não por que ele aparece. Sobre as causas, a diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), Ane Alencar, afirmou em entrevista publicada em 26 de agosto de 2026: “El Niño não coloca fogo na vegetação; no Brasil, a ignição é humana”. Segundo ela, em períodos de seca o fogo tende a se espalhar mais rápido, ficar ativo por mais tempo e atingir áreas maiores.
Acre e Amapá: dois sinais diferentes
No Acre, o salto de 80% divulgado nos balanços estaduais compara setembro com agosto: foram 877 focos em setembro contra 487 em agosto, segundo o Inpe. Na comparação com setembro de 2025, a alta é de 4,4% (840 focos).
Feijó (165 focos) e Tarauacá (153) concentraram mais de um terço do total acreano. Em setembro de 2025, Tarauacá tinha 152 e Feijó, 121. O Acre segue longe dos picos da série do Inpe: 6.693 focos em setembro de 2022 e 3.855 em setembro de 2024.
No Amapá, o aumento é real mesmo em termos anuais. Foram 235 focos em setembro de 2026, 3,2 vezes os 73 de setembro de 2025. Tartarugalzinho passou de 14 para 63 focos e Calçoene registrou 48 no mês. O número ainda é pequeno em valores absolutos: o estado tem menos de 1% dos focos do país, mas já é o maior setembro amapaense desde 2023, quando foram 434.
Como ler o número sem exagero
Um foco de calor indica fogo detectado em um pixel da imagem de satélite. Segundo o Inpe, a relação entre foco e queimada não é direta: uma única queimada extensa pode gerar vários focos, e vários fogos pequenos podem aparecer como um só. O número serve para comparar períodos e regiões, mas não mede área queimada nem desmatamento.
Há outra limitação. O satélite vê o fogo apenas no instante em que passa sobre a região, e, de acordo com o Inpe, as nuvens impedem a detecção. Em um mês mais chuvoso ou nublado, parte do fogo pode ficar invisível. Por isso, a série do satélite de referência é a base de comparação entre anos.
Entenda
Foco de calor é uma detecção de fogo ativo por satélite, não uma medida de floresta ou área queimada. O Programa Queimadas do Inpe usa o AQUA_M-T como referência para comparar anos. Todos os números desta reportagem vêm desse satélite. Outros satélites contam mais focos, mas não servem para comparar com a série histórica.
O que acompanhar em outubro
Na série do Inpe, setembro costuma ser o auge do ano. Entre 2003 e 2025, o mês teve em média 67.012 focos no país, contra 38.254 em outubro, e outubro superou setembro em apenas 2 dos 23 anos. Em 2025, porém, os dois meses ficaram praticamente iguais: 28.214 em setembro e 28.678 em outubro.
O clima é o fator a observar. Em 10 de setembro de 2026, o Centro de Previsão Climática da agência norte-americana NOAA manteve o alerta de El Niño e informou que o fenômeno se fortalece, com chance superior a 90% de um evento muito forte no outono e no inverno do Hemisfério Norte de 2026 e 2027. Cabe acompanhar se esse cenário se reflete em mais fogo nas semanas seguintes.
O Inpe atualiza os dados de queimadas a cada dez minutos, o que permite acompanhar outubro quase em tempo real. A comparação entre Amazônia e Cerrado, e entre Acre, Amapá e Amazonas, mostrará se setembro foi um pico passageiro ou o início de uma tendência.
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