
Em Belém, uma equipe de 11 profissionais combina protocolos, observação e vínculo para cuidar de 80 espécies.
Neste artigo
Antes de o movimento começar em Belém, Nazareno Dias já está diante do berçário do Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi. Às 5h, ele confere se os oito filhotes passaram bem a noite e prepara seringas com papinhas e néctar para alimentar um beija-flor, dois tamanduás-mirins, um ratinho e quatro preguiças. A cena resume uma rotina que se repete todos os dias para os tratadores de animais do Museu Goeldi, responsáveis pelo cuidado direto de cerca de 4 mil animais de aproximadamente 80 espécies.
O trabalho envolve alimentação, limpeza, observação clínica, segurança e estímulos para a saúde física e mental dos animais. Também exige reconhecer mudanças pequenas, como uma alteração nas fezes, uma troca de pele incompleta ou um comportamento fora do padrão. No calendário internacional, a atividade é lembrada em 4 de outubro, mesma data do Dia Mundial dos Animais.
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O cuidado começa pelo comportamento
Nazareno está no Museu Goeldi desde 2017 e conhece os sinais da Luakã, uma onça-pintada que vive no parque. O recinto é dividido em áreas que podem ser isoladas. Essa configuração permite que a equipe faça a higienização sem compartilhar o mesmo espaço com o animal, uma regra básica para preservar a segurança de todos.
A atenção muda conforme o ambiente. Em dias de poda, por exemplo, Luakã pode ficar inquieta por causa do barulho. Nazareno a conduz para a parte mais reservada do recinto. Em outros momentos, o tratador usa um galho de palmeira pela grade para estimular a brincadeira. A atividade faz parte do enriquecimento ambiental, conjunto de estratégias que introduz desafios e estímulos na rotina dos animais.
“Com a onça, não se pode vacilar”, resume Nazareno.
Segundo o Museu Paraense Emílio Goeldi, o Parque Zoobotânico abriga cerca de 4 mil animais de aproximadamente 80 espécies em Belém, incluindo animais mantidos em recintos, fauna livre e espécies visitantes.

A experiência também é decisiva no contato com outras espécies. Eduardo Santos trabalha há mais de 20 anos como tratador e explica que os macacos-aranha podem rejeitar pessoas com cheiro diferente, até mesmo por causa de um perfume. As antas, por sua vez, não são animais passivos como sugere uma percepção popular. Quando se sentem incomodadas, podem correr e dar cabeçadas.
Do aquário às áreas de quarentena
No Aquário Jacques Huber, o aquário público mais antigo do Brasil, Eduardo acompanha as cobras pela aparência das fezes e pela troca de pele. Quando a pele sai inteira, o processo indica boas condições. Se sai em pedaços, o sinal é comunicado à veterinária para investigação.
Rodrigo Gemaque, que está há dez meses no parque, concentra parte da rotina nos peixes. Em uma inspeção, percebeu que um peixe oscar estava com a barriga inchada e o separou dos cerca de 90 exemplares que ficam expostos. A avaliação apontou a presença de um parasita.
Além de observar cada animal, Rodrigo monitora filtros, esponjas, vidros e condições da água. A qualidade do ambiente precisa ser mantida para evitar o acúmulo de amônia e preservar os peixes. Ele também percebe que os animais associam a aproximação do tratador à chegada da comida.
O parque reúne ainda espécies que não pertencem ao plantel, como aves e lagartos visitantes, além da chamada fauna livre, formada por animais como as cotias. A variedade amplia o desafio de quem precisa conhecer comportamentos diferentes em um mesmo espaço urbano.

Uma cozinha com toneladas de alimentos
O cuidado não termina nos recintos. Na cozinha, Elizete Nogueira e Benedito Barradas preparam diariamente refeições específicas para cada espécie. A produção mensal inclui 750 quilos de proteínas, 3,5 toneladas de frutas e tubérculos e meia tonelada de ração.
Elizete está há 15 anos na cozinha do parque e trabalha com protocolos para impedir a contaminação cruzada. A bancada de proteínas não é usada pela mesma pessoa responsável pelas frutas no mesmo dia. As refeições são ajustadas conforme o peso, as necessidades nutricionais e a aceitação de cada animal.
“Muita gente pensa que a alimentação dos animais é feita de qualquer jeito, que é o resto das feiras ou que vem de doações”, afirma Elizete. “Cada animal recebe refeições específicas, levando em consideração o peso e a necessidade de nutrientes.”
Uma das preparações é a papa dos tamanduás. A receita pode levar frango, banana, maçã, ração e suplemento vitamínico. Outra combinação inclui acelga, frango, ração e frutas. A dieta desmonta a ideia de que tamanduás vivem apenas de formigas e cupins.
Barradas chegou ao Museu Goeldi em 1994 e passou mais de 30 anos atuando como tratador. Depois de desenvolver catarata, passou a trabalhar na nutrição, mantendo distância dos recintos para evitar infecções nos olhos. Para ele, o vínculo continua sendo parte do ofício.
“Sem carinho, não adianta nada”, afirma Barradas.
Filhotes, espécies ameaçadas e despedidas
Franci Silva trabalha há 16 anos no Parque Zoobotânico e atua principalmente no berçário e na quarentena, onde ficam animais em preparação para a soltura em seus habitats naturais. Ao longo desse período, cuidou de filhotes de lontra, jacaré, lagarto, preguiça, jaguatirica e ariranha.

A observação feita pelos tratadores também ajuda a aperfeiçoar as receitas e os procedimentos veterinários. O objetivo é fazer com que os filhotes desenvolvam autonomia para se alimentar e possam retornar ao ambiente natural quando estiverem prontos.
“Para mim, são como filhos. Às vezes, acordo de madrugada, pensando no que posso fazer no outro dia para melhorar a qualidade de vida dos filhotes”, conta Franci.
O Parque Zoobotânico mantém animais ameaçados de extinção, entre eles a arara-azul, a onça-pintada e o tamanduá-bandeira. Também vivem no local espécies classificadas como vulneráveis, como anta, tracajá, jacaré-açu e harpia.
Jhon Castro é um dos poucos tratadores autorizados a entrar no recinto da arara-azul. Ele chegou ao museu há 16 anos para trabalhar nos serviços gerais e há três anos atua com as aves. A aproximação é construída gradualmente, com voz, rotina e respeito aos limites do animal.
O conhecimento acumulado também envolve acompanhar o fim da vida. Magno Ribeiro, com 23 anos de Museu Goeldi e 13 deles na tratação, lembra de animais como o peixe-boi Mayra, a onça Guma, a ariranha Erê e o jacaré Alcindo. Em cada caso, a equipe acompanhou mudanças de saúde e tentou manter o conforto até o último momento.
Um parque histórico no centro de Belém
Em funcionamento há 131 anos, o Parque Zoobotânico é o espaço mais popular do Museu Goeldi, instituição científica que completa 160 anos em 6 de outubro de 2026. A equipe de tratadores, formada por nove profissionais e dois folguistas, trabalha sob orientação da bióloga Thatiana Figueiredo e dos veterinários Messias Costa e Mônica Coelho.
Para quem visita o parque em Belém, o trabalho aparece nos recintos limpos, nos animais alimentados e nas interações que parecem espontâneas. Por trás de cada uma delas existe uma sequência de decisões técnicas, desde a escolha da dieta até o isolamento de uma onça durante uma poda ou a separação de um peixe com sinais de doença.
A data dedicada aos tratadores, celebrada em 4 de outubro de 2026, chama atenção para uma profissão que combina conhecimento científico e convivência diária. No Museu Goeldi, os próximos passos da equipe continuam ligados ao acompanhamento individual dos animais, à manutenção dos recintos e à preparação daqueles que poderão voltar à natureza.
Com informações do Museu Paraense Emílio Goeldi.
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