Água da chuva estocada pode esconder bactérias e metais

Água da chuva estocada pode esconder bactérias e metais

Pesquisadores australianos analisaram 100 reservatórios domésticos e encontraram sinais de micróbios ligados à diarreia e metais acima do limite para consumo. O cuidado com telhado, calha e caixa faz diferença, lá e aqui no Pará.

Em 13% das 100 caixas de água da chuva analisadas em casas de Adelaide, no sul da Austrália, pesquisadores encontraram material genético da bactéria Campylobacter jejuni, uma das principais causas de diarreia no mundo. A Salmonella apareceu em 10% dos reservatórios, a Shigella em 3% e a Pseudomonas aeruginosa, responsável por infecções oportunistas, em 12%.

Na Austrália, as caixas de água da chuva são populares como forma de economizar água e aliviar a demanda sobre os sistemas urbanos. O novo estudo mostra que essa água pede mais atenção do que costuma receber.

O dado preocupa porque 67% das famílias entrevistadas disseram beber e cozinhar com essa água. As bactérias foram detectadas inclusive em caixas usadas para consumo.

O levantamento foi feito entre maio de 2024 e janeiro de 2026 por pesquisadores da Universidade de Adelaide e da Universidade Flinders, com a participação da agência nacional de ciência australiana, a CSIRO (Organização de Pesquisa Científica e Industrial da Commonwealth), e da Universidade de Nova Gales do Sul (UNSW). Os resultados foram publicados em setembro no Journal of Environmental Management, em artigo de acesso aberto. É a primeira avaliação abrangente da qualidade da água da chuva armazenada no estado da Austrália Meridional.

Além dos testes microbiológicos, a equipe avaliou metais e nutrientes e aplicou questionários sobre o uso da água e as características de cada sistema, como o material da caixa e a manutenção. Das famílias participantes, 97 responderam à pesquisa. Além do consumo, 76% das famílias usavam a água da chuva para regar o jardim.

“A água da chuva pode parecer limpa, mas, quando cai no telhado e escorre pelas calhas até a caixa, ela pode carregar bactérias, metais e outros contaminantes pelo caminho”, afirmou a pesquisadora Mira Cooper, da Universidade de Adelaide, que liderou o estudo.

O problema, portanto, não está na chuva, e sim no trajeto. Fezes de animais, folhas e terra acumuladas no telhado e na calha descem com a água e se depositam no fundo do reservatório.

Folhas presas na superfície de um barril de água da chuva. O material orgânico que desce do telhado e da calha favorece a contaminação do reservatório.
Folhas presas na superfície de um barril de água da chuva. O material orgânico que desce do telhado e da calha favorece a contaminação do reservatório.

A equipe também mediu metais. Em uma pequena parcela das caixas, entre 1% e 4% conforme o elemento, cádmio, chumbo, arsênio e manganês passaram dos valores de referência para a saúde fixados nas diretrizes australianas de água potável. Os reservatórios de metal tiveram mais chance de apresentar níveis elevados que os de plástico, e os sistemas com manutenção precária registraram concentrações mais altas.

Caixa de metal ondulado ligada à calha de um prédio em Melbourne, na Austrália. No estudo, os reservatórios metálicos apresentaram mais metais na água que os de plástico.
Caixa de metal ondulado ligada à calha de um prédio em Melbourne, na Austrália. No estudo, os reservatórios metálicos apresentaram mais metais na água que os de plástico.

Como 62% das casas tinham placas solares no telhado, os autores verificaram se a estrutura interferia na qualidade da água. Não encontraram relação clara entre os painéis e a presença de bactérias nocivas.

Os próprios pesquisadores apontam um limite do trabalho. As análises identificaram o DNA das bactérias, o que não confirma que elas estivessem vivas e capazes de causar infecção. Novos estudos devem medir esse risco real.

“A manutenção regular dos sistemas de água da chuva é importante, porque folhas, terra, fezes de animais e outros materiais podem se acumular e afetar a qualidade da água”, disse o professor Craig Williams, da Faculdade de Saúde da Universidade de Adelaide, coautor do estudo.

A questão interessa diretamente ao Pará. Em comunidades ribeirinhas e nas ilhas do Marajó, onde a rede de abastecimento não chega e a água do rio nem sempre é segura para beber, a captação da chuva no telhado é uma das saídas adotadas por programas de saneamento rural.

Em Portel, no Marajó, o projeto Sanear Marajó, conduzido pelo Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) com recursos do Fundo Amazônia, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Fundação Banco do Brasil, começou a instalar em 2024 módulos que combinam banheiro, fossa biodigestora, captação de água da chuva e pia com filtragem em várias etapas. A primeira fase atendeu 14 famílias da comunidade Santo Ezequiel Moreno, e a meta anunciada para aquele ano era chegar a 200.

O estudo australiano mostra por que a filtragem e o tratamento importam mesmo quando a água parece cristalina. Para a água destinada a beber, o Ministério da Saúde orienta adicionar duas gotas de hipoclorito de sódio a 2,5% para cada litro e esperar 30 minutos antes do consumo. A água tratada assim deve ser usada em até 24 horas. Outra opção é filtrar ou coar e ferver por cinco minutos depois do início da fervura.

Na conclusão do artigo, os autores alertam que o uso crescente da água da chuva para beber, somado às mudanças nos telhados e ao aumento de populações vulneráveis, pode estar criando riscos à saúde pública ainda pouco reconhecidos. Limpar calhas, cuidar da caixa e tratar a água antes de beber continuam sendo a melhor defesa.

Fotos: Pengo, Kritzolina, Cesar Augusto Chirosa Horie

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