
Quando outubro chega a Belém, as ruas da capital paraense ganham uma das imagens mais características do Círio de Nazaré. Entre a multidão de romeiros, as promessas, as flores e os símbolos religiosos, aparecem pequenas embarcações, pássaros, animais, figuras humanas e objetos coloridos feitos de miriti. Leves, delicadas e carregadas de significado, essas peças representam uma tradição profundamente ligada a Abaetetuba e à cultura amazônica.
Neste artigo
Mais do que brinquedos, os objetos de miriti reúnem saberes artesanais, memória familiar, religiosidade e criatividade. A tradição também movimenta a economia de dezenas de famílias que encontram no artesanato uma importante fonte de renda.
Abaetetuba e a tradição do miriti
Abaetetuba, no Baixo Tocantins, é reconhecida como um dos principais centros de produção desse artesanato. A atividade possui uma tradição de longa duração no município e é transmitida entre gerações, principalmente dentro das próprias famílias de artesãos.
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A matéria-prima vem da palmeira conhecida na região como miritizeiro, cientificamente chamada de Mauritia flexuosa. Em outras partes do Brasil, a mesma espécie é conhecida principalmente como buriti.
O material utilizado nos brinquedos é retirado do pecíolo das folhas, estrutura leve e macia que pode ser cortada, lixada e esculpida. Essa característica permite que os artesãos criem peças com formas variadas e detalhes que representam elementos presentes no cotidiano amazônico.
O trabalho começa muito antes do período do Círio. A preparação da matéria-prima, a secagem, o corte, a montagem, o acabamento e a pintura exigem tempo e conhecimento adquirido ao longo dos anos.
Entre barcos, animais e personagens
O repertório dos brinquedos de miriti revela uma relação direta com o ambiente amazônico. Barcos, canoas, pássaros, peixes, cobras, animais, figuras humanas e objetos relacionados à vida cotidiana aparecem entre as criações.
Também existem peças diretamente associadas ao universo do Círio, como pequenas representações da berlinda, barcos de promesseiros e personagens relacionados à festividade.
As cores fortes são outra característica marcante. Depois de preparados, os objetos recebem pintura que transforma a madeira clara em pequenas representações de um imaginário amazônico cheio de movimento e diversidade.
A criatividade, porém, não está limitada aos modelos tradicionais. Os artesãos também renovam formatos, temas e usos, permitindo que o miriti dialogue com diferentes gerações e continue presente em outros períodos do ano.
A relação com o Círio
A presença do brinquedo de miriti no Círio possui importância histórica. De acordo com informações relacionadas ao registro do Círio como patrimônio cultural, os brinquedos fazem parte das tradições da celebração desde o início do século XX.
Durante as procissões, é comum encontrar promesseiros carregando brinquedos como forma de agradecimento por graças alcançadas. As peças também são compradas por crianças, moradores e visitantes, transformando o artesanato em uma lembrança material da experiência vivida durante a festividade.
A relação entre miriti e Círio ajudou a ampliar o reconhecimento dessa produção artesanal para além de Abaetetuba. Durante o período da festa, os brinquedos passam a ocupar espaços de venda e exposição em Belém e tornam-se parte da paisagem cultural da cidade.
Patrimônio, memória e economia criativa
O valor cultural do brinquedo de miriti está justamente na combinação entre material, técnica, memória e transmissão de conhecimento. O reconhecimento do Círio como patrimônio cultural imaterial brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional reforçou a importância das práticas, objetos e manifestações associadas à celebração.
No Pará, o brinquedo de miriti também recebeu reconhecimento como patrimônio cultural estadual.
A tradição representa ainda uma importante dimensão econômica. Associações de artesãos e iniciativas culturais contribuem para preservar técnicas, ampliar mercados e estimular a continuidade do ofício entre os mais jovens.
Em Abaetetuba, a produção deixou de ser apenas uma atividade ligada ao período do Círio e passou a integrar uma cadeia cultural que inclui feiras, festivais, exposições e iniciativas de economia criativa.
Uma tradição que continua em movimento
O brinquedo de miriti atravessa gerações porque consegue manter suas características tradicionais sem deixar de incorporar novas ideias. Nas mãos dos artesãos, a matéria-prima da floresta transforma-se em objeto de memória, expressão artística e identidade.
Quando chega às ruas de Belém durante o Círio, o miriti estabelece uma conexão entre Abaetetuba, os artesãos, as comunidades amazônicas e milhões de pessoas que participam da festividade.
Cada peça carrega mais do que cor e movimento. Carrega o conhecimento de quem aprendeu a trabalhar o material, a memória de uma família e a representação de uma Amazônia construída por seus próprios habitantes. É dessa combinação entre tradição, criatividade, fé e trabalho que nasce uma das expressões culturais mais reconhecíveis do Círio de Nazaré.
Fotos: Flavio Contente/ Pará+
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