Zélia Amador de Deus: obra da intelectual paraense recebe reconhecimento como patrimônio cultural do Pará

Zélia Amador de Deus: obra da intelectual paraense recebe reconhecimento como patrimônio cultural do Pará

A trajetória de Zélia Amador de Deus, professora, escritora, artista e referência na defesa da igualdade racial, recebeu um importante reconhecimento no Pará. Em 15 de setembro de 2026, a Assembleia Legislativa do Estado do Pará (Alepa) aprovou, por unanimidade, o projeto de lei que declara a obra literária da intelectual Patrimônio Cultural e Imaterial do Estado.

Neste artigo
  1. Uma trajetória construída na educação
  2. A importância de sua obra literária
  3. Compromisso com os direitos humanos
  4. A presença na cultura paraense
  5. Um legado para as próximas gerações

A homenagem ocorreu uma semana após o falecimento de Zélia, aos 76 anos, em Belém, e destaca a importância de sua produção acadêmica, cultural e artística para a história do Pará e do Brasil.

Apresentado originalmente em outubro de 2024, o projeto de lei é de autoria da deputada Lívia Duarte. A proposta foi aprovada em redação final e aguardava sanção ou veto, conforme o registro legislativo mencionado.

O reconhecimento valoriza uma trajetória dedicada à educação, à identidade afro-amazônica e à construção de uma sociedade com mais igualdade de oportunidades.

Uma trajetória construída na educação

Zélia Amador de Deus ingressou como professora da Universidade Federal do Pará (UFPA) em 1978. Ao longo de sua carreira, desenvolveu uma atuação que ultrapassou os limites da sala de aula e alcançou diferentes espaços da cultura e da participação social.

Graduada em Língua Portuguesa, com mestrado em Estudos Literários e doutorado em Ciências Sociais, dedicou sua produção intelectual a temas como identidade, educação, cultura e relações raciais.

Entre 1993 e 1997, tornou-se a primeira mulher negra a ocupar a Vice-Reitoria da UFPA, marcando a história da instituição.

Posteriormente, também recebeu o título de professora emérita da universidade, sendo reconhecida como a primeira docente negra a conquistar essa distinção.

Sua atuação acadêmica contribuiu para ampliar os debates sobre a presença negra na Amazônia e para questionar perspectivas que deixavam em segundo plano a participação dessa população na formação histórica e cultural da região.

A importância de sua obra literária

O projeto aprovado pela Alepa reconhece o conjunto de livros, artigos, capítulos e trabalhos acadêmicos produzidos por Zélia ao longo de sua vida.

Entre as obras destacadas estão A travessia: a saga do Movimento Negro brasileiro contemporâneo, As personas (máscaras) do racismo e O corpo como marca identitária na diáspora africana.

Também integra sua produção o livro Entre os rios e as florestas da Amazônia: perspectivas, memórias e narrativas de negros em movimento, organizado em parceria com Marilu Márcia Campelo e Raimundo Jorge Nascimento de Jesus.

Os trabalhos abordam questões relacionadas à memória, à identidade, ao racismo e à participação da população negra na sociedade brasileira.

O reconhecimento como patrimônio cultural e imaterial destaca a necessidade de preservar e divulgar conhecimentos que ajudam a compreender a diversidade histórica e social do Pará.

Compromisso com os direitos humanos

Além da carreira acadêmica, Zélia participou de iniciativas voltadas à defesa dos direitos humanos e ao combate à discriminação racial.

Ela esteve envolvida na formação da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos e, em 1980, ajudou a fundar o Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa).

A organização tornou-se um espaço de articulação do movimento negro no estado, promovendo debates e ações relacionadas à igualdade racial.

Em 2003, Zélia criou o Grupo de Estudos Afro-Amazônico (Geam), vinculado à UFPA. O grupo contribuiu para discussões sobre diversidade e inclusão social, incluindo políticas de cotas e iniciativas de aproximação entre a universidade e diferentes comunidades.

Sua trajetória estabeleceu uma relação entre produção acadêmica, participação social e valorização de grupos historicamente pouco representados nos espaços de decisão.

A presença na cultura paraense

A contribuição de Zélia Amador de Deus também alcançou o campo artístico. Ela participou da criação do Auto do Círio, manifestação cultural que reúne teatro, música, religiosidade e expressões populares nas ruas de Belém.

O espetáculo integra a programação cultural relacionada ao Círio de Nazaré e representa uma forma de expressão artística associada a uma das principais celebrações religiosas do Pará.

Sua participação demonstra como a cultura, a educação e a valorização das identidades regionais estiveram presentes em diferentes momentos de sua trajetória.

Um legado para as próximas gerações

O reconhecimento da obra de Zélia Amador de Deus representa uma oportunidade para ampliar o acesso à sua produção e estimular o interesse de novas gerações por sua história.

Seus livros e estudos podem contribuir para pesquisas acadêmicas, atividades escolares, debates culturais e ações de preservação da memória afro-amazônica.

Mais do que uma homenagem individual, a iniciativa chama atenção para a importância de valorizar intelectuais que ajudaram a construir o conhecimento sobre a Amazônia a partir de suas próprias experiências e perspectivas.

Preservar a memória de Zélia significa manter acessíveis reflexões sobre educação, cultura, identidade e direitos humanos. Temas que atravessaram sua produção e continuam fazendo parte dos debates da sociedade contemporânea.

Para o Pará, seu legado representa uma contribuição à valorização da diversidade e ao reconhecimento da participação negra na história e na cultura amazônica.

Fonte: Alepa
Foto: Mídia Ninja

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