
A bioeconomia da Amazônia tem papel importante na geração de renda, na preservação da floresta e na organização das atividades produtivas de comunidades tradicionais e rurais. Para compreender melhor essa realidade e transformar pesquisas em políticas públicas, pesquisadores, estudantes e representantes de instituições participaram do IV Seminário de Contas Regionais e Bioeconomia da Amazônia, realizado entre os dias 4 e 6 de novembro, na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), em Santarém.
Neste artigo
O encontro reuniu estudos sobre cadeias produtivas da sociobiodiversidade, mudanças climáticas, indicadores econômicos e políticas públicas. A programação foi organizada em quatro trilhas de debate, que apresentaram resultados de pesquisas sobre a participação da bioeconomia na economia paraense e os desafios enfrentados por quem depende dos recursos naturais para garantir o sustento.

Um dos principais objetivos foi ampliar o conhecimento sobre atividades que, apesar de sua importância econômica, social e cultural, nem sempre aparecem de forma adequada nas estatísticas tradicionais. A proposta é produzir informações capazes de orientar decisões públicas, valorizar a produção local e fortalecer modelos de desenvolvimento que conciliem geração de renda e conservação ambiental.
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Bioeconomia ganha dimensão nos indicadores econômicos
Entre os resultados apresentados, um estudo sobre a Economia da Sociobiodiversidade do Pará (EcoSocioBio-PA) identificou crescimento médio de 2,4% ao ano na indústria desse segmento entre 1995 e 2023. O desempenho ficou acima da expansão de 2,2% registrada pelo conjunto da indústria analisada. No mesmo período, a participação industrial no Produto Interno Bruto Alfa (PIBα) passou de 28%, em 2004, para 34%, em 2023.
Outro indicador apontou retenção local de renda em torno de 1,4, resultado que representa uma retenção 40% maior em comparação com os setores extralocais. A pesquisa também identificou redução da produtividade monetária média do trabalho, que passou de R$ 100 mil para R$ 60 mil por trabalhador ao ano em 2023. Na indústria da sociobiodiversidade, o indicador chegou a R$ 332 mil.
Os dados ajudam a dimensionar a participação dessas atividades na economia regional e mostram a importância de compreender não apenas o volume produzido, mas também como a renda circula e permanece nos territórios.
Mudanças climáticas ameaçam a renda das famílias

A relação entre clima e produção foi outro eixo importante do seminário. Uma pesquisa baseada em 337 famílias, grupos focais e atividades de campo em comunidades rurais investigou como as mudanças climáticas afetam a base produtiva e social da bioeconomia paraense.
Os resultados indicaram que produtos da bioeconomia contribuem para a renda de 111 famílias, aproximadamente 33% do universo analisado. Entre essas famílias, 72% consideraram as mudanças climáticas uma ameaça. O aumento da temperatura e as perdas de renda apareceram entre os problemas relatados.
Na cadeia do açaí, foram analisadas 192 famílias produtoras. Desse total, 94 utilizavam cultivo ou sistemas mistos, enquanto 89 trabalhavam exclusivamente com extrativismo. Entre as famílias do primeiro grupo, 73 relataram impactos de eventos climáticos, 63 enfrentaram secas prolongadas e 73 registraram perdas de renda.
Em Cametá, 35 famílias tinham o açaí como principal fonte de sustento. Dessas, 80% relataram perdas de renda e 77,1% afirmaram estar pouco ou nada preparadas para enfrentar as mudanças climáticas. Em Marabá, oito famílias destacaram a importância da castanha-do-pará para a renda. Metade delas sofreu perdas financeiras nos cinco anos anteriores em decorrência de eventos climáticos.
Os resultados reforçam a necessidade de políticas de adaptação que considerem as condições de cada território e apoiem as comunidades que dependem diretamente dos ciclos naturais.
Castanha e cumaru revelam desafios das cadeias produtivas
As pesquisas sobre a governança das cadeias da sociobiodiversidade também apresentaram dados sobre a castanha-do-pará e o cumaru no Baixo Amazonas. Em 2024, a produção de castanha identificada pelo levantamento chegou a 9.172,8 toneladas, volume cerca de 30% superior ao registrado pela Pesquisa da Extração Vegetal e da Silvicultura. No caso do cumaru, foram contabilizadas 267,04 toneladas de amêndoa seca, aproximadamente 80% acima do levantamento oficial utilizado na comparação.
O estudo mostrou ainda que 76,84% da castanha foi processada na própria região, mas 78,27% do produto beneficiado teve como destino o mercado externo. A análise também identificou diferentes formas de financiamento e comercialização, incluindo acordos nos quais o crédito concedido aos coletores é vinculado à entrega da produção.
Em 2026, o preço médio da castanha ficou em R$ 325,74 por saca de 60 quilos, com variações ao longo do período de coleta. Já o cumaru apresentou aumento de 73,42% entre junho e setembro.
Pesquisas podem orientar políticas públicas

Outra frente de trabalho apresentou a Matriz de Insumo-Produto da Bioeconomia, construída a partir de dados de 2021. O levantamento classificou 20 produtos ou grupos como integrantes da bioeconomia, entre eles açaí, mandioca, cacau, cupuaçu, mel, pesca e aquicultura.
Na análise do setor agropecuário paraense, a bioeconomia registrou valor bruto da produção de R$ 14.893 milhões, com valor adicionado de R$ 9.730 milhões. O segmento respondeu por 44,7% do valor bruto da produção e 40% do valor adicionado do setor.
O seminário foi promovido pela Rede Pará de Contas Regionais e Bioeconomia, formada pela Fapespa, Ufopa, Universidade Federal do Pará e Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará. Para a diretora da Fapespa, Atyliana Dias, o encontro permite compartilhar conhecimentos e compreender melhor a importância da sociobiodiversidade para a economia estadual.
Ao reunir indicadores econômicos, pesquisas de campo e experiências das comunidades, o evento reforçou que o desenvolvimento da bioeconomia depende de informações consistentes e de políticas públicas conectadas à realidade dos territórios. Entre os próximos passos estão novas atividades de pesquisa, devolutivas às comunidades participantes e a previsão de conferências climáticas municipais, aproximando conhecimento científico, população e governos locais.
Fotos: Divulgação
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