
Em meio aos rios, igarapés e à vegetação amazônica paraense, o Chalé Sítio de Maré localizado na ilha de Caratateua, conhecida popularmente de Outeiro, transformou uma história de pertencimento familiar em uma experiência de hospedagem rural e contato com a natureza. Construído no lugar onde o esposo da anfitriã nasceu e onde sua mãe viveu, o espaço representa a escolha de permanecer na floresta, preservar as raízes e compartilhar com visitantes um modo de vida ligado à pesca, à agricultura familiar e ao extrativismo.
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A residência, construída com madeira beneficiada e reaproveitada, começou a ser ocupada pelo casal há aproximadamente três anos. Inicialmente, o sítio era o lar e o espaço de trabalho da família, que retira seu sustento da colheita do açaí, da pesca artesanal e dos produtos da floresta. Com a chegada de amigos e visitantes, surgiu a possibilidade de abrir as portas para outras pessoas conhecerem aquele ambiente. A experiência acabou revelando um novo propósito: receber turistas e mostrar a importância de conservar o território que garante a sobrevivência da comunidade.
A proposta vai além de oferecer um lugar para descansar. Os anfitriões conduzem os visitantes por rios, igarapés e trilhas náuticas, apresentando a paisagem e os costumes de quem vive da floresta. A intenção é aproximar o público da realidade amazônica e despertar a compreensão de que a conservação ambiental interessa a todos, inclusive a quem vive nos centros urbanos.
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Pesca artesanal e sabores da região
Uma das experiências mais procuradas no sítio é a pescaria artesanal. No período da tarde, os anfitriões costumam sair de tarrafa pelo Igarapé jararaca e pelas margens do Rio Maguari. A atividade permite acompanhar de perto uma prática tradicional de subsistência e conhecer parte da diversidade encontrada nas águas da região.

Entre os pescados estão peixes e camarões, incluindo o camarão regional, o camarão cascudo e o pitu. Depois da pescaria, os alimentos seguem diretamente para a cozinha do chalé, onde são preparados em receitas como caldeiradas e peixe frito. O acompanhamento é o açaí batido na hora, colhido na própria área de floresta.
A gastronomia também apresenta ingredientes menos conhecidos por quem vive fora das comunidades amazônicas. Um exemplo é a mamorana, fruto encontrado na várzea e preparado por Rose, anfitriã do espaço, nas versões cozida e assada. Segundo ela, o sabor lembra o de amendoim torrado, oferecendo aos visitantes uma oportunidade de experimentar alimentos presentes no cotidiano local.
Hospedagem com identidade amazônica
O Chalé Sítio de Maré oferece cabanas em estilo chalé, com capacidade para acomodar um casal e uma criança pequena. A hospedagem é integrada às vivências na natureza, com passeios de canoa, visitas aos igarapés e rios e acompanhamento do processo de colheita do açaí nativo.
Durante a permanência, os visitantes também podem conhecer frutos e sementes da várzea e observar atividades desenvolvidas na propriedade. A proposta é proporcionar uma experiência próxima da rotina dos moradores, valorizando os conhecimentos tradicionais e o contato com o ambiente natural.

Outro destaque é uma jaqueira centenária de jaca-manteiga, cuja história está diretamente ligada à sobrevivência da família. A árvore ajudou a sustentar a mãe do anfitrião, ele próprio e seus irmãos após a morte do pai. Anos depois, a comercialização dos frutos às margens da rodovia formou uma clientela que passou a visitar o sítio para comprar diretamente no quintal.
Dessa relação nasceu o Jaca Fest, festival gastronômico dedicado a receitas preparadas com a fruta. Sob os cuidados de Rose, a jaca ganha diferentes versões, como coxinha, empadão, macarrojaca, lasanha, cremes, sucos e doces. A safra costuma se estender pelo segundo semestre e pode chegar a janeiro e fevereiro, mantendo a árvore como parte importante da identidade e da economia familiar.
Abelhas nativas e planos para o futuro
A rotina da propriedade também inclui a criação de galinhas, utilizadas na produção de ovos e no preparo da tradicional galinha caipira. Outra atividade é o manejo da uruçu-amarela, abelha nativa sem ferrão. O trabalho começou com uma única colmeia e atualmente reúne dez caixas estruturadas com ninho e sobreninho.


O mel produzido é descrito pelos anfitriões como claro e suave. A característica é associada à florada das árvores frutíferas presentes na propriedade, entre elas taperebazeiros, mangueiras e a própria jaqueira. O manejo representa mais uma forma de aproveitar os recursos naturais sem romper a relação de cuidado com a floresta.
Com a procura crescente, impulsionada principalmente pelas recomendações de quem já visitou o espaço, o casal planeja construir novas cabanas voltadas para a margem do igarapé. O sítio já recebeu turistas de diferentes estados brasileiros, como Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, Goiás, Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo, além de visitantes de Brasília.

A trajetória do Chalé Sítio de Maré mostra como a hospedagem rural pode se integrar à agricultura familiar, à gastronomia e à valorização dos saberes amazônicos. Para os anfitriões, abrir a propriedade significa compartilhar um patrimônio construído pela própria história da família. É também uma maneira de mostrar que a floresta não é apenas paisagem: é morada, alimento, trabalho, memória e futuro.
Fotos: Flavio Contente/Pará+
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