
Em meio ao movimento intenso do comércio, às ruas movimentadas e à rotina acelerada do centro de Belém, a Igreja de Nossa Senhora de Sant’Ana da Campina se destaca como um dos marcos históricos e arquitetônicos da capital paraense. Com suas torres imponentes e uma composição que atravessou séculos, o templo guarda parte importante da memória urbana da cidade e representa a expansão de Belém para além de seus primeiros limites de ocupação.
Neste artigo

Localizada no bairro da Campina, a igreja ocupa um lugar de destaque na história religiosa e urbanística da capital. Reconhecida como a segunda paróquia criada em Belém, sua presença acompanha o desenvolvimento de uma região que ganhou importância à medida que a cidade crescia e novas áreas passaram a integrar a vida econômica, social e religiosa da população.
A construção também chama atenção pela dimensão. Suas torres alcançam aproximadamente 39 metros de altura, formando uma silhueta que se diferencia no conjunto arquitetônico do centro histórico. Mesmo cercado por estabelecimentos comerciais e pelo fluxo cotidiano de moradores e visitantes, o edifício mantém características que remetem ao período colonial e à presença da arte sacra na formação da cidade.
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A assinatura de Antônio José Landi
A concepção arquitetônica do templo está ligada ao trabalho de Antônio José Landi, arquiteto e cartógrafo italiano que teve papel importante na transformação da paisagem urbana de Belém no século XVIII. Sua atuação contribuiu para a construção de edifícios religiosos e civis que marcaram a arquitetura da cidade, deixando referências que ainda podem ser observadas em seu patrimônio histórico.
Na Igreja de Sant’Ana, Landi desenvolveu uma composição que reúne elementos do barroco tardio e características do neoclassicismo italiano. O resultado é uma estrutura marcada pelo equilíbrio das formas, pela organização dos volumes e pela imponência da fachada. A inspiração em referências arquitetônicas italianas, especialmente nas igrejas venezianas, ajuda a explicar a singularidade do projeto no contexto amazônico.

A trajetória da construção foi longa e atravessou diferentes períodos. As primeiras referências à edificação remontam a 1727, mas os altos custos e as dificuldades de financiamento prolongaram a execução da obra. A conclusão ocorreu somente em 1782, depois de décadas de etapas e adiamentos.
Essa duração ajuda a compreender a dimensão do empreendimento em uma Belém ainda em processo de expansão. A construção de um templo com essas proporções exigia recursos, planejamento e trabalho especializado. Sua conclusão representou, portanto, não apenas a entrega de um espaço religioso, mas também a consolidação de uma referência arquitetônica para a cidade.
Arte sacra e riqueza de detalhes no interior
Se a fachada chama atenção pela altura das torres e pela harmonia de suas formas, o interior revela outra dimensão do patrimônio preservado pela igreja. Com cerca de 37 metros de comprimento e mais de 19 metros de largura, o espaço abriga elementos artísticos que ajudam a contar a história da produção religiosa e cultural do período colonial.


Entre os destaques estão os altares laterais esculpidos em mármore, cuja presença reforça a riqueza ornamental do conjunto. As peças integram a composição artística do templo e demonstram a importância atribuída à decoração dos espaços de culto. A arquitetura e os elementos internos foram concebidos para formar um ambiente em que proporção, ornamentação e arte sacra se complementam.
Outro destaque são duas telas monumentais, com aproximadamente seis metros de comprimento cada, datadas de 1778 e atribuídas ao pintor Pedro Alexandrino. As obras ampliam o valor artístico do acervo e representam parte importante da memória visual preservada no interior da igreja. Suas origens exatas permanecem envoltas em questões históricas, o que acrescenta interesse à trajetória dessas pinturas.
Patrimônio protegido e memória de Belém
A importância histórica e artística da Igreja de Sant’Ana da Campina foi reconhecida nacionalmente. Em janeiro de 1962, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) realizou o tombamento do templo, incluindo seu acervo integrado. A proteção reconhece o valor do conjunto arquitetônico e dos elementos artísticos que fazem parte de sua identidade.
Décadas depois, a igreja passou por um processo de restauração concluído em 2012. A intervenção contribuiu para recuperar e preservar características do monumento, permitindo que sua arquitetura e seus elementos históricos continuassem integrando a paisagem de Belém.

Mais do que um espaço religioso, a Igreja de Nossa Senhora de Sant’Ana da Campina é um testemunho da formação urbana e cultural da capital paraense. Sua história reúne a expansão da cidade, a influência de Landi, a produção artística do período colonial e os esforços de preservação do patrimônio.
Em uma região onde o comércio e a circulação de pessoas dão o ritmo aos dias, o templo permanece como uma referência de memória. Suas torres, seus altares e suas pinturas lembram que a história de Belém também está registrada nas construções que resistiram ao tempo e continuam compondo a identidade da cidade.
Fotos: Flavio Contente/Pará+
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