
A tradição dos pássaros juninos faz parte da memória cultural do Pará. Entre encenações, personagens, músicas e figurinos, essa manifestação popular reúne referências da Amazônia e elementos do teatro, transmitidos de geração em geração. Em Belém, o trabalho de Laurene Ataíde tem sido dedicado a preservar essa herança, recuperar grupos que deixaram de se apresentar e estimular a criação de novas agremiações. À frente do Pontão de Cultura Ninho do Colibri, ela transformou uma missão familiar em um movimento de salvaguarda que alcança diferentes regiões do Estado.
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A história começou com a mãe de Laurene, apaixonada pela brincadeira do pássaro junino. Em 1971, ela fundou o Beija-Flor, em Icoaraci, quando a localidade já conhecia grupos de bichos, como o Leão Dourado e a Onça, mas ainda não tinha uma agremiação de pássaro. Inspirada nas lembranças do interior, desejava criar uma manifestação que preservasse aquela tradição. Antes de morrer, deixou à filha um pedido: que a brincadeira não desaparecesse com ela.
Laurene assumiu o compromisso e passou a trabalhar pelo resgate, pela criação e pela revitalização de grupos em território paraense. Em Outeiro, fundou a Pipira da Água Boa, em 2005, além do Bem-te-vi do Fama, Curió, Bigodinho da Brasília e Urubu, criado em 2010. Atualmente, a Pipira da Água Boa e o Urubu permanecem em atividade, depois de processos de retomada e fortalecimento. Ao longo dessa trajetória, os grupos também conquistaram espaço em importantes palcos culturais, como o Teatro Margarida Schivasappa, o Teatro Gasômetro e o Theatro da Paz.
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Uma rede que alcança o Pará
O trabalho iniciado como ponto de cultura ganhou dimensão estadual e, em 2025, a entidade conquistou o reconhecimento como Pontão de Cultura. A mudança ampliou a atuação do Ninho do Colibri, que passou a fortalecer uma rede de grupos e iniciativas de salvaguarda para além de sua sede.
A circulação também se tornou uma marca dessa trajetória. O trabalho alcançou quatro cidades do Maranhão, quatro do Ceará e 25 municípios paraenses, levando a manifestação a novos públicos e promovendo o intercâmbio entre diferentes comunidades. A articulação reúne grupos vinculados à política Cultura Viva, do Ministério da Cultura, e tem no Festival de Pássaros e Bichos uma de suas principais atividades.

O festival começou em 2016, no Teatro Gasômetro, com a participação de 18 agremiações e uma homenagem à mãe de Laurene. No ano seguinte, a segunda edição reuniu 20 grupos no Teatro Margarida Schivasappa. Depois de uma pausa, o evento voltou em 2024, no Theatro da Paz, que também recebeu a quarta e a quinta edições, em 2025. A sexta edição está em planejamento para 2027, com homenagem prevista ao mestre Albertinho Bastos.
Histórias recuperadas em comunidades paraenses
Entre os resultados mais expressivos do trabalho estão os resgates de grupos que permaneceram décadas sem apresentações. Em Portel, uma agremiação que estava adormecida havia 24 anos foi retomada. Sua dramaturgia trazia uma história de amor entre um caçador e a personagem indígena Jaci, revelando a presença de elementos amazônicos na construção das narrativas.


Em Abaetetuba, na localidade de Rio da Prata, a recuperação de outra manifestação exigiu uma mobilização comunitária. O acesso à região de ilhas era feito por meio de pequenas embarcações, e apenas três moradores idosos guardavam a memória de um pássaro que não se apresentava havia 52 anos. Durante quatro meses de oficinas, 68 participantes da comunidade escolar se envolveram no processo. Três anos depois, o grupo Garça Briosa conquistou o primeiro lugar no Festival de Bichos de Abaetetuba.
Outra história marcante envolve a mestra Gilda, guardiã do Pássaro Tentem, de Mosqueiro. Ela preservava textos e composições na memória e defendia a retomada da Borboleta. Um projeto aprovado em 2018 foi executado no ano seguinte, permitindo que o grupo voltasse a se apresentar em praça pública, em Carananduba, após 72 anos de ausência. Depois da morte da mestra, durante a pandemia, a Borboleta abriu a terceira edição do festival no Theatro da Paz, enquanto o Tentem encerrou a programação oficial.
Do teatro lírico à identidade amazônica
A presença dos pássaros juninos no Theatro da Paz tem um significado especial para os guardiões da manifestação. Na memória histórica apresentada por Laurene, as origens dessa expressão popular estão relacionadas ao período do apogeu da borracha, quando trabalhadores e pessoas escravizadas ou alforriadas acompanhavam famílias da elite às apresentações de ópera. A partir do contato com aquelas encenações, elementos da estrutura dramática teriam sido recriados em comunidades do interior.

Nessa transformação, personagens da tradição europeia, como reis, rainhas, príncipes e fadas, passaram a conviver com figuras do universo amazônico, entre elas caboclos, matutos, caçadores e personagens indígenas. Cada localidade desenvolveu características próprias, incorporando suas referências, histórias e formas de expressão.
Para manter essa rede ativa, os recursos obtidos por meio de editais de fomento e patrocínios são direcionados à revitalização dos grupos. O apoio inclui a compra de materiais para a confecção de indumentárias, cachês para os brincantes, alimentação, transporte e hospedagem das comitivas que vêm de outros municípios.
Foto 6 – Legenda: Salão multiuso do Pontão Ninho do Colibri
Mais do que colocar apresentações no palco, o trabalho do Ninho do Colibri busca garantir condições para que os grupos continuem existindo em suas comunidades. A cada pássaro recuperado, uma parte da memória coletiva volta a ganhar voz, movimento e reconhecimento. Assim, o legado deixado à Laurene segue atravessando gerações e fortalecendo uma das expressões mais singulares da cultura popular paraense.
Fotos: Flavio Contente/Pará+
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