
Na Ilha de Cotijuba, em Belém, estudantes do Ensino Médio encontraram na fotografia uma maneira de observar o território onde vivem e discutir problemas que fazem parte da realidade de muitas comunidades. A falta de saneamento básico, o acúmulo de resíduos e os efeitos das mudanças climáticas foram alguns dos temas abordados em um projeto de Educação Ambiental desenvolvido por alunos da Escola Estadual Professora Marta da Conceição. A iniciativa aproximou o conteúdo estudado em sala de aula das experiências cotidianas dos jovens e resultou em uma exposição fotográfica organizada pelos próprios participantes.
Com o título “O que os olhos veem e o que os olhos escondem: racismo ambiental e justiça climática pelo olhar dos jovens de Cotijuba”, o trabalho envolveu turmas do 2º e 3º anos do Ensino Médio. A proposta foi estimular os estudantes a refletir sobre a relação entre meio ambiente e desigualdade social, observando como os problemas ambientais podem afetar de maneira diferente os grupos que vivem em um mesmo território.

Conduzido pela professora de Educação Ambiental Silmara Costa Moura, o projeto começou com rodas de conversa sobre racismo ambiental e justiça climática. Os encontros ajudaram os alunos a compreender que os impactos da degradação ambiental e das mudanças climáticas não são distribuídos igualmente. Comunidades em situação de vulnerabilidade podem enfrentar dificuldades maiores diante desses problemas, especialmente quando não dispõem de condições adequadas de infraestrutura e proteção.
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A partir das discussões, surgiu a ideia de investigar a própria ilha. Em vez de tratar os conceitos apenas de forma teórica, os estudantes foram convidados a observar os espaços que fazem parte de sua rotina e registrar, por meio de imagens, aspectos que costumam passar despercebidos. O exercício também propôs uma reflexão sobre as diferenças entre a paisagem que se apresenta aos olhos e os desafios que podem estar escondidos por trás dela.
A fotografia como instrumento de reflexão
A atividade de campo levou as turmas a quatro pontos de Cotijuba: Praia do Amor, Praia do Farol, Praia Vai Quem Quer e Praia Funda. Durante os percursos, os alunos fotografaram paisagens e elementos ambientais que despertaram sua atenção, relacionando os registros aos assuntos discutidos nas aulas.
A experiência transformou os espaços da ilha em ambientes de aprendizagem. Ao percorrer as praias, os jovens puderam observar o território de maneira mais atenta, exercitando a capacidade de identificar situações, interpretar o que encontravam e construir uma leitura própria sobre a realidade ambiental da comunidade.

Além das fotografias, os estudantes recolheram materiais encontrados nas praias para confeccionar as molduras da exposição. A escolha integrou a proposta artística à reflexão ambiental: objetos que poderiam permanecer descartados no ambiente passaram a fazer parte da apresentação das imagens. Assim, os suportes também contribuíram para a mensagem do projeto, chamando a atenção para a presença de resíduos nos espaços naturais.
Na escola, os alunos participaram da produção das molduras e da organização da mostra. A exposição não ficou restrita à apresentação das fotografias. Os estudantes também escolheram e distribuíram as imagens, montaram o espaço e explicaram à comunidade escolar o significado de cada registro, sua relação com os temas estudados e a utilização dos materiais recolhidos durante as visitas.
A participação em todas as etapas deu aos jovens a oportunidade de assumir o papel de pesquisadores e comunicadores de suas próprias percepções. O resultado foi uma produção coletiva que reuniu observação, expressão artística e debate sobre questões ambientais presentes no cotidiano da ilha.
Jovens compartilham outro olhar sobre Cotijuba
Para Emily Santos, estudante da 3ª série do Ensino Médio, o projeto modificou sua maneira de enxergar o lugar onde mora. Ela conta que as conversas realizadas nas aulas ajudaram a perceber que os problemas ambientais também estão relacionados às desigualdades sociais e que essa realidade pode ser observada na própria comunidade.

A experiência, segundo a estudante, ampliou sua compreensão sobre o racismo ambiental e a justiça climática. Ao participar das atividades, ela passou a relacionar os conceitos apresentados em sala de aula com situações do território, reconhecendo que a discussão sobre meio ambiente envolve também as condições de vida das pessoas.
A exposição permitiu que essa percepção fosse compartilhada com outros integrantes da comunidade escolar. Ao explicar as fotografias e os materiais utilizados nas molduras, os alunos apresentaram suas interpretações e estimularam o diálogo sobre a preservação ambiental e os desafios enfrentados por Cotijuba.
Mais do que uma atividade de produção de imagens, o projeto mostrou como a Educação Ambiental pode aproximar o conhecimento escolar da realidade dos estudantes. A pesquisa de campo, a fotografia e a organização da exposição contribuíram para desenvolver habilidades de observação, análise crítica, investigação e comunicação.
Ao colocar os jovens no centro da produção e apresentação do trabalho, a iniciativa também valorizou o conhecimento de quem vive na ilha e conhece de perto seus espaços. O olhar dos estudantes passou a integrar a discussão sobre o território, mostrando que compreender os problemas ambientais exige observar não apenas a paisagem, mas também as condições sociais que influenciam a vida das comunidades.
Em Cotijuba, a exposição transformou fotografias e materiais recolhidos nas praias em instrumentos de diálogo. A proposta reforçou a importância de envolver as novas gerações nas discussões sobre racismo ambiental, justiça climática e cuidado com o lugar onde vivem.
Fotos: Divulgação
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