Malabarista que treina e fotografa desde 2008 nos semáforos de Belém transforma a própria memória em tese de doutorado organizada como espetáculo

Malabarista que treina e fotografa desde 2008 nos semáforos de Belém transforma a própria memória em tese de doutorado organizada como espetáculo
Foto: acervo

Pesquisa da UFPA registra como artistas circenses de rua de Belém enfrentam preconceito, falta de formação e apagamento, e reafirmam uma identidade amazônida.

Neste artigo
  1. Uma tese pensada como apresentação
  2. Fotografias como retrato congelado
  3. Segunda-feira, dia de encontro
  4. O semáforo como palco e o peso do preconceito
  5. Poucos cursos, muitos autodidatas
  6. Chita, açaí e chiado paraense

Nos semáforos da Travessa Nove de Janeiro, em Belém, o malabarista Yure Martins faz da rua o palco e, nas salas da Universidade Federal do Pará (UFPA), faz dessa vivência objeto de pesquisa. Sua tese sobre as artes circenses de rua da capital paraense foi organizada como se fosse um espetáculo, com o objetivo de convocar o leitor como o artista convoca o público na calçada: pedindo atenção para uma arte que insiste em sobreviver à margem.

Uma tese pensada como apresentação

A ideia de estruturar o texto como espetáculo partiu da orientadora, a professora Bene Martins. Yure aproveitou a liberdade criativa que a área das Artes permite para fugir do formato tradicional de trabalho acadêmico.

Segundo a UFPA, a dissertação Memórias das artes circenses de rua em Belém foi defendida por Yure Lee Almeida Martins em 2024, no Programa de Pós-Graduação em Artes (PPGArtes/ICA), com orientação da professora Benedita Afonso Martins.

Fotografias como retrato congelado

A base da pesquisa é um hábito pessoal: desde 2008, Yure registra em fotos seus treinos e ensaios com malabares. Ele descreve a fotografia como “retrato congelado de uma realidade”. O trabalho também recorre a vídeos, cinema e documentários, alguns deles produzidos com sua participação.

O pesquisador destaca a complexidade de trabalhar com a própria memória, e não com a história, já que poucos pesquisadores se debruçam sobre as próprias lembranças. Por isso, buscou uma metodologia que fizesse dialogar métodos de discussão sobre memória, mesmo os contraditórios, com referências da História, da Antropologia e das Ciências Sociais.

O projeto original previa entrevistas com pessoas do convívio dele, para que a sua memória não fosse a única a guiar o relato. A pandemia impediu boa parte dos encontros presenciais, sobretudo com artistas de rua, que nem sempre têm acesso à internet.

A saída foi transcrever trechos de documentários feitos com colegas e usar entrevistas realizadas antes, algumas delas transcritas por outros pesquisadores em teses sobre arte de rua. Assim, a memória individual funciona como fio condutor que se entrelaça a muitas outras.

Segunda-feira, dia de encontro

Um ponto central é a importância dos encontros semanais de malabares e circo. Eles surgiram da necessidade de os artistas de rua se reunirem no dia de descanso, geralmente às segundas-feiras, depois de faturarem nos fins de semana.

Em Belém, os encontros aconteceram regularmente na Praça da República e na Praça de São Brás até 2017, e de forma itinerante até 2023. Para Yure, foram decisivos na formação e na resistência desses artistas.

Malabarista que treina e fotografa desde 2008 nos semáforos de Belém transforma a própria memória em tese de doutorado organizada como espetáculo
Foto: Rosyane Rodrigues

O semáforo como palco e o peso do preconceito

A tese também trata da memória da Escola Circo. Embora tenha forte presença em Belém, a instituição não formou a maioria dos artistas de rua que atuam na cidade. Ela atendia um grupo específico de crianças em situação de vulnerabilidade e de áreas carentes, e muitos artistas de hoje vêm de outros municípios ou regiões fora de seu alcance.

Segundo Yure, em algumas gestões municipais a escola foi criticada e associada à ideia de que crianças eram incentivadas a pedir dinheiro nos semáforos. Ele rebate essa leitura:

“Para o artista que está na rua, aquele é o palco dele. Então você oferece a sua arte e quem quiser paga, se quiser, e o quanto puder. É diferente de uma situação de formação. A gente discute muito com o preconceito da nossa prática, nesse sentido”, afirma Yure. “O circo, assim como o teatro, sempre foi marginalizado”.

O pesquisador lembra que a relação histórica dos circenses com os ciganos, povos perseguidos por séculos, contribuiu para esse olhar. Embora o circo no Brasil tenha raízes na rua, em anfiteatros e apresentações de praça, as apresentações ao ar livre passaram a ser vistas como inferiores, e o estigma persiste.

“Artista de rua” é uma autoidentificação de quem não nasceu no circo tradicional, mas pratica artes circenses em espaços públicos. A privatização do espaço público e a proibição da arte circense de rua em diversas prefeituras do país, especialmente de malabaristas com fogo ou espadas cenográficas, aprofundam a marginalização.

Poucos cursos, muitos autodidatas

A falta de institucionalidade pesa. Fora a Escola Nacional de Circo, no Rio de Janeiro, que virou curso técnico há poucos anos, há pouquíssimos cursos técnicos e de graduação na área. Muitos artistas aprendem sozinhos ou buscam formações próximas, como a Educação Física, caminho seguido por Yure.

Chita, açaí e chiado paraense

Na Amazônia, o circo de rua ganha traços próprios, muitas vezes não percebidos pelos próprios artistas. Bordões como “ito ito ito, açaí com peixe frito” mostram a identidade paraense presente nas apresentações.

Apesar da influência europeia e da tradição do circo moderno, que remonta aos séculos XVIII e XIX, os artistas de Belém incorporam roupas de chita, a alimentação e as formas locais de falar. Yure resume:

“Nós temos que dizer: ‘somos de Belém’. Aí eu falo do açaí, eu falo diferente, eu tenho um chiado diferente. Então a gente acaba tendo essa identidade e, muitas vezes, nós não somos totalmente conscientes dela”.

O trabalho documenta as camadas de memória, os desafios da marginalização e a força de uma arte que transforma cada intervenção em semáforos e ruas em afirmação cultural e social. A pesquisa, publicada na edição 177 do Beira do Rio, está disponível para quem quiser conhecer a trajetória do circo de rua da capital paraense e pode servir de base para novos estudos na área.

Com informações de Universidade Federal do Pará (UFPA).

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