Voluntários levam 20 toneladas de estrutura médica a Iauaretê, onde a EDS começou há 22 anos

Voluntários levam 20 toneladas de estrutura médica a Iauaretê, onde a EDS começou há 22 anos
Foto: acervo

Retorno ao Alto Rio Negro reúne cerca de 60 profissionais e inaugura projeto de quatro anos para ampliar o cuidado indígena.

Neste artigo
  1. O voluntariado que faz o atendimento chegar
  2. De 100 quilos a 20 toneladas em duas décadas
  3. Quatro frentes para a semana de atendimento
  4. Um projeto para fortalecer o que já existe
  5. O retorno ao ponto de partida
  6. Serviço da 59ª Expedição

É preciso atravessar trechos de rio, mover cargas entre balsas, caminhões e embarcações e montar uma estrutura hospitalar completa para que cerca de 60 voluntários e profissionais de saúde atendam comunidades indígenas em Iauaretê, no Alto Rio Negro. Entre 31 de outubro e 7 de novembro, a 59ª Expedição Operando na Amazônia, dos Expedicionários da Saúde (EDS), levará consultas, exames, cirurgias e ações de prevenção ao município de São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas.

A mobilização representa mais do que uma semana de atendimentos. Ela inaugura o projeto Cuidar para Preservar, iniciativa de quatro anos apoiada pelo Fundo Amazônia, gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Também marca o retorno da organização ao território em que realizou sua primeira expedição, em abril de 2004.

O voluntariado que faz o atendimento chegar

Médicos, enfermeiros, outros profissionais de saúde e integrantes da equipe de logística participarão da operação. O trabalho voluntário não se limita ao atendimento dentro das salas. Antes da chegada das equipes, é necessário planejar o transporte de insumos, organizar a montagem do hospital móvel e articular a agenda com as comunidades e os serviços públicos que já atuam na região.

O esforço revela uma característica própria da assistência em áreas remotas da Amazônia: a consulta é apenas a etapa visível de uma operação muito maior. Para chegar a Iauaretê, a equipe enfrenta três trechos de hidrovia e duas travessias terrestres. A carga passa por diferentes meios de transporte até alcançar a confluência dos rios Uaupés e Papuri, na região conhecida como Cabeça do Cachorro, próxima à fronteira entre Brasil e Colômbia.

Segundo os Expedicionários da Saúde, a 59ª expedição ocorrerá em Iauaretê, no Amazonas, de 31 de outubro a 7 de novembro, com atendimento em oftalmologia, cirurgia geral, saúde da mulher e pediatria.

De 100 quilos a 20 toneladas em duas décadas

A dimensão da logística mudou radicalmente desde a primeira passagem da EDS pelo local. Em 2004, a organização transportou aproximadamente 100 quilos de carga. Agora, a operação levará cerca de 20 toneladas de equipamentos, medicamentos, materiais e insumos necessários para instalar a estrutura de atendimento.

Também mudou o número de pessoas mobilizadas. A primeira expedição contou com quatro médicos e realizou cirurgias com o auxílio da iluminação de lanternas presas à testa dos profissionais. Atualmente, a EDS reúne cerca de 80 profissionais em suas expedições e dispõe de um Complexo Hospitalar Móvel próprio.

A tecnologia social foi desenvolvida para permitir procedimentos de maior complexidade em localidades distantes dos grandes centros. O complexo inclui salas independentes, ar-condicionado, focos cirúrgicos, equipamentos médicos e uma Central de Material e Esterilização isolada. A estrutura é transportada e montada no território para oferecer condições semelhantes às de unidades hospitalares convencionais.

Quatro frentes para a semana de atendimento

Em oftalmologia, estão previstas cirurgias de catarata e pterígio. Na cirurgia geral, os profissionais darão atenção especial aos casos de hérnia, identificados em grande número na região. A frente de saúde da mulher terá entre as prioridades a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer do colo do útero.

A programação também inclui pediatria, avaliações clínicas, exames, ações preventivas, diagnóstico e acompanhamento. A definição dos atendimentos considera as necessidades identificadas junto às comunidades, em articulação com as estruturas locais de saúde.

O formato evita que a ação seja reduzida à entrega pontual de procedimentos. Ao combinar triagem, cirurgia, acompanhamento e prevenção, o voluntariado busca responder a demandas imediatas sem perder de vista a continuidade do cuidado após a saída da equipe.

Um projeto para fortalecer o que já existe

O Cuidar para Preservar foi planejado a partir da experiência acumulada pela EDS no Alto Rio Negro. Durante quatro anos, a iniciativa deverá reunir novas expedições médicas e cirúrgicas, assistência odontológica, reforço da infraestrutura dos polos-base de saúde, teleatendimento e capacitação de profissionais locais.

O projeto também prevê atendimento a pessoas amputadas, com implantação de próteses por meio do programa Floresta em Movimento. A proposta amplia o alcance da atuação voluntária ao incluir reabilitação, formação e suporte às equipes que permanecem no território.

Participam da articulação o Distrito Sanitário Especial Indígena do Alto Rio Negro, a Secretaria Especial de Saúde Indígena, o Conselho Distrital de Saúde Indígena, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas, a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro, a Secretaria de Saúde de São Gabriel da Cachoeira, as comunidades indígenas locais e a 2ª Brigada de Selva de São Gabriel.

O retorno ao ponto de partida

O local escolhido para iniciar o novo ciclo tem peso na trajetória da instituição. Desde a primeira expedição em Iauaretê, a EDS realizou 58 expedições, mais de 11 mil cirurgias, 80 mil atendimentos e 170 mil exames. O retorno transforma a memória daquela primeira operação em uma base para uma agenda mais contínua.

Para as comunidades do Alto Rio Negro, a distância dos grandes centros significa que o acesso a especialistas, exames e cirurgias depende de deslocamentos complexos. A presença de uma equipe voluntária com estrutura própria reduz parte dessa barreira durante a expedição, enquanto o projeto de longo prazo pretende fortalecer a rede local e ampliar a capacidade de acompanhamento.

A experiência também ajuda a dimensionar os desafios enfrentados em outras áreas da Amazônia Legal, onde rios, estradas incompletas e grandes distâncias influenciam o acesso à saúde. No Amazonas, no Pará, no Acre, em Rondônia, em Roraima, no Amapá, no Tocantins e no Maranhão, iniciativas de atendimento remoto precisam considerar as características de cada território, sem substituir a responsabilidade permanente das políticas públicas.

A 59ª Expedição será, assim, uma etapa de atendimento e um teste operacional para o projeto de quatro anos. Depois da semana em Iauaretê, a EDS deverá dar sequência às ações previstas no Cuidar para Preservar, em articulação com as instituições de saúde e as organizações indígenas do Alto Rio Negro.

Serviço da 59ª Expedição

  • O quê: 59ª Expedição Operando na Amazônia, em Iauaretê
  • Quando: de 31 de outubro a 7 de novembro
  • Onde: Iauaretê, no Alto Rio Negro, Amazonas
  • Projeto: Cuidar para Preservar
  • Atendimentos: oftalmologia, cirurgia geral, saúde da mulher, pediatria, exames e ações de prevenção

Com informações dos Expedicionários da Saúde.

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