Círio de Nazaré: a fé que move 2,6 milhões de pessoas pelas ruas de Belém

Círio de Nazaré: a fé que move 2,6 milhões de pessoas pelas ruas de Belém
Edição 293 da Revista Pará+, especial Círio 2026.

Belém entra neste fim de semana no ponto mais alto do seu calendário. O Auto do Círio abre a sexta-feira na Cidade Velha, a Trasladação toma a cidade no sábado à noite e, no domingo, a Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Nazaré percorre de novo os 3,6 quilômetros que separam a Catedral Metropolitana da Praça Santuário. Na última Grande Procissão, foram cerca de 2,6 milhões de pessoas nesse trajeto, segundo a estimativa oficial divulgada pela organização, em uma das maiores manifestações católicas do mundo.

Neste artigo
  1. Quatro horas e meia para percorrer 3,6 quilômetros
  2. Uma cruz de 60 quilos e outras promessas no meio da multidão
  3. O sábado antes: a Basílica às 5h30, o Pavulagem e 1,9 milhão na Trasladação
  4. Os bancos que viram arquibancada
  5. O Memorial de Nazaré guarda os mantos e os ex-votos
  6. A Sé e a Basílica contam dois Beléns diferentes
  7. De Castanhal a Belém a pé: 36 anos de Caminhada de Fé
  8. O Auto do Círio leva a Cidade Velha para a rua
  9. O brinquedo de miriti que sai de Abaetetuba
  10. Eu + Você = Jesus: a igreja evangélica que serve café aos romeiros
  11. Por que os ipês de Belém podem florescer fora de hora
  12. Onde ler a edição completa
Edição 293 · Especial Círio 2026
Capa da edição 293 da Revista Pará+, especial Círio de Nazaré
Revista Pará+, edição 293
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A edição 293 da Pará+ é um especial de Círio. Ela reconstrói a romaria hora a hora, entra no Memorial de Nazaré, sobe nas torres da Sé e da Basílica, acompanha a pé a caminhada que sai de Castanhal, visita as bancadas de miriti de Abaetetuba e termina olhando para as árvores que florescem na cidade fora de hora. O que costura tudo é a mesma pergunta: o que o Círio faz com Belém, e o que Belém faz com o Círio.

Quatro horas e meia para percorrer 3,6 quilômetros

A berlinda com a Imagem Peregrina chegou à Praça Santuário às 11h56. Havia deixado a frente da Catedral Metropolitana às 7h26. Foram quatro horas e meia para vencer 3,6 quilômetros, cercada por cerca de 2,6 milhões de pessoas vindas de várias partes do Pará e do Brasil.

A manhã começou às 6h10, com a missa celebrada em frente à Catedral, na Cidade Velha, pelo arcebispo emérito de Belém, Dom Alberto Taveira Corrêa. Ele agradeceu ao arcebispo metropolitano, Dom Júlio Endi Akamine, pela oportunidade de presidir a celebração e destacou na homilia o papel de Maria como mãe e guia espiritual dos devotos. “Todos nós sintamo-nos convidados a viver esta grande festa, o tempo novo que acontece quando Jesus Cristo está no meio de nós. Sejam todos bem-vindos”, disse.

A berlinda saiu com uma composição centrada nas flores brancas, escolhidas para simbolizar pureza, fé e paz. Orquídeas phalaenopsis, lírios dobrados, hortênsias, rosas, cravos e anastasias foram combinados para envolver a pequena imagem. A decoração é um dos pontos mais aguardados da festa. “A gente se dedicou pra isso. A berlinda está maravilhosa, com um manto cada vez mais exuberante”, afirmou Antônio Sousa, diretor do Círio.

Pouco depois das 8h10, nas imediações do Complexo do Ver-o-Peso, aconteceu o atrelamento da corda à berlinda. Confeccionada com malva, fibra cultivada na Amazônia, a corda da Grande Procissão mediu 400 metros, a mesma extensão da usada na Trasladação, na véspera. Milhares de promesseiros se comprimiram nela para agradecer graças alcançadas. Após cerca de duas horas de caminhada, a corda foi cortada nas estações 4 e 5, como confirmou a Diretoria da Festa de Nazaré, e os romeiros se dividiram para levar um pedaço para casa.

Uma cruz de 60 quilos e outras promessas no meio da multidão

O enfermeiro e capelão Henri Brandão, de 51 anos, é voluntário do Círio há quase três décadas. Caminhou carregando uma cruz de 60 quilos para pagar promessa pela recuperação do pai e da mãe, ambos desenganados por médicos. “Meu pai passou por uma cirurgia cardíaca muito grave, estava desenganado. No segundo dia, já estava conversando”, relatou. A mãe, segundo ele, se recuperou da retirada de um tumor no cérebro. “Nossa Senhora interveio. Eu só posso agradecer.”

Na corda, o educador Carlos Henrique, que trabalha na ilha de Cotijuba, explicou o que o levou até ali. “Eu vim agradecer a Nossa Senhora por ter olhado por mim e por estar me acompanhando todo esse tempo, dentro da minha profissão, na educação, e isso me deixa muito emocionado.” Durante a subida da avenida Presidente Vargas, um promesseiro resgatou uma cachorrinha abandonada no meio da multidão. “Vou levar para casa. Se não conseguir uma adoção, ela vai ser minha”, disse.

Na multidão, o bancário Ênio Pereira levava uma imagem da santa na cabeça, como faz todos os anos. “Tudo que eu peço, ela intercede. Inclusive, saúde. A graça maior que nós recebemos foi a cura do câncer da minha esposa há 12 anos”, contou. O casal Jonatan e Fernanda Silva veio de Moju para agradecer a conquista da casa própria. Era a primeira vez dos dois juntos na romaria. “Gratidão, é só o que eu sinto”, disse Fernanda, de 24 anos. Para Jonatan, de 23, que estreava na Trasladação ao lado da esposa, a experiência resistia às palavras. “Andar no Círio é algo inexplicável, nem palavras para falar.”

O sábado antes: a Basílica às 5h30, o Pavulagem e 1,9 milhão na Trasladação

A festa nas ruas começa bem antes do domingo. No sábado, desde a madrugada, fiéis aguardavam a abertura da Basílica Santuário de Nazaré, às 5h30, para acompanhar a descida da Imagem Original do Glória, o altar superior onde ela permanece durante o ano. Às 12h30, Dom Júlio e Dom Alberto conduziram o rito, marcado por silêncio e reverência.

É essa a imagem que, segundo a tradição, foi encontrada por Plácido José de Souza no século 18, às margens do igarapé Murucutu, onde hoje fica o bairro de Nazaré. Mais perto dos fiéis, ela fica exposta em um nicho de vidro ao lado do altar até o Recírio, que encerra as procissões oficiais.

No fim da manhã do mesmo sábado, depois da chegada da Imagem Peregrina à Escadinha do Porto, ao fim do Círio Fluvial, o Arrastão do Pavulagem tomou o bairro da Campina. Segundo a organização, mais de 25 mil pessoas acompanharam o cortejo, que saiu por volta do meio-dia do Boulevard Castilhos França e terminou na Praça Dom Pedro II. No Arrastão do Círio, o tradicional Boi Pavulagem dá lugar à Barca Rainha das Águas, referência à procissão fluvial e à carpintaria naval amazônica, e o Batalhão da Estrela inclui no repertório ritmos como a mazurca e o retumbão. “Ver passar Nossa Senhora de Nazaré e fazer uma homenagem para ela é uma coisa transcendental”, disse Júnior Soares, um dos fundadores do Arraial do Pavulagem.

À tarde, às 16h30, Dom Júlio presidiu a missa em frente ao Colégio Gentil Bittencourt, que abriu a Trasladação, a romaria que faz o caminho inverso ao da Grande Procissão. Cerca de 1,9 milhão de pessoas acompanharam a berlinda pelas avenidas Nazaré, Presidente Vargas e Portugal, pelo Boulevard Castilhos França e pela rua Padre Champagnat, em um cortejo lento, iluminado por velas e interrompido por orações e bênçãos. Logo no início, a corda ameaçou arrebentar e precisou ser reforçada, o que parou a romaria por alguns instantes. A berlinda chegou à praça Dom Frei Caetano Brandão, diante da Catedral, por volta das 22h55.

Na Praça da República, a passagem da Imagem Peregrina pela Presidente Vargas abriu oficialmente a Festa da Chiquita, celebração da diversidade que há décadas integra o calendário paralelo do Círio e que reuniu a atriz paraense Dira Paes e a cantora Daniela Mercury. O coordenador Elói Iglesias, à frente da festa desde 1990, rejeita o rótulo de profana. “A gente não quer acabar com a religiosidade de ninguém. É uma festa pagã que agrega todos, sendo do bem”, afirmou.

Os bancos que viram arquibancada

Na própria Presidente Vargas, os bancos com sede na avenida mantiveram a tradição de homenagear a padroeira. Basa, Banpará e Banco do Brasil decoraram e iluminaram as fachadas com painéis e altares, e a chuva de papel picado voltou a cobrir a berlinda, cena que há décadas faz parte da identidade visual do Círio.

Em frente ao Banco da Amazônia, por volta das 10h, um telão de LED exibia mensagens à Virgem de Nazaré. O presidente da instituição, Luiz Lessa, lembrou que a preparação começa semanas antes, com gincanas de arrecadação de donativos e um jantar que há 18 anos arrecada doações para a Casa de Plácido, além de uma arquibancada para mil pessoas montada no dia da procissão. “O Círio, além de uma festa religiosa que transcende a religião católica, é um patrimônio cultural”, afirmou.

O Memorial de Nazaré guarda os mantos e os ex-votos

No complexo da Basílica Santuário, próximo ao estacionamento, o Memorial de Nazaré reúne objetos, documentos, imagens e peças que contam como a devoção virou uma das maiores manifestações religiosas e culturais do Pará. O espaço funciona como um percurso pela história do Círio, do encontro da imagem pelo caboclo Plácido à formação da tradição religiosa.

Entre os elementos que mais chamam atenção estão os ex-votos, objetos entregues por devotos como forma de agradecimento por graças alcançadas. Peças de cera representando partes do corpo, pequenas casas, barcos e outros objetos se misturam à memória coletiva da festa. Cada peça representa uma promessa, um agradecimento ou uma experiência de fé.

Outro destaque do acervo são os mantos usados pela Imagem Peregrina em diferentes edições da festividade. A cada ano, o manto ganha significado próprio por meio de símbolos, cores, bordados e referências escolhidas para representar o tema da festa. No memorial, essas peças deixam de estar associadas apenas a uma edição específica e passam a integrar uma linha histórica da devoção. O acervo inclui ainda uma réplica da imagem achada pelo caboclo Plácido e uma réplica da berlinda doada pela prefeitura de Ananindeua.

O espaço conta com salas temáticas, recursos audiovisuais, cenários e experiências imersivas que ajudam quem nunca participou do Círio a entender a dimensão das ruas tomadas por devotos. A visita passou a integrar os roteiros de turismo religioso na capital. O ingresso tem valor inteiro, com meia-entrada para estudantes e professores, além de gratuidade para idosos e pessoas com espectro autista.

A Sé e a Basílica contam dois Beléns diferentes

Belém também pode ser lida por suas igrejas. A história da Catedral Metropolitana, conhecida como Igreja da Sé, está ligada aos primeiros anos da ocupação portuguesa na região. Após a fundação de Belém, em 1616, foi construída uma capela dedicada a Nossa Senhora da Graça nas proximidades do Forte do Presépio. Com o crescimento da cidade, o templo passou por diferentes etapas de construção e transferência. A atual Catedral começou a ser erguida no século 18, e a pedra fundamental foi lançada em 1748.

A obra teve participação importante do arquiteto italiano Antônio José Landi, que chegou ao Pará em 1753 e se tornou um dos principais nomes da arquitetura do período colonial amazônico. A fachada e o interior misturam características do barroco e do neoclassicismo. Entre as peças de arte sacra, a Sé guarda um órgão fabricado pela tradicional casa francesa Aristide Cavaillé-Coll, instalado no século 19.

A Basílica Santuário tem outra origem. Ela nasce da devoção a Nossa Senhora de Nazaré e da tradição sobre o encontro da imagem por Plácido José de Souza, no fim do século 18. A atual Basílica começou a ser construída no início do século 20, com pedra fundamental lançada em 1909, e contou com a participação dos Padres Barnabitas, que assumiram a administração da paróquia e tiveram papel importante na expansão da devoção. O templo recebeu forte influência da arquitetura europeia, com inspiração em modelos de basílicas italianas, e reúne mármores, mosaicos, vitrais e pinturas. Em 1923, recebeu do Papa Pio XI o título de Basílica Menor.

O Círio foi reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional como Patrimônio Cultural do Brasil em 2004. Em 2013, a manifestação também recebeu da Unesco o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

De Castanhal a Belém a pé: 36 anos de Caminhada de Fé

Todo ano, as estradas que cortam o interior do Pará rumo à capital viram palco de outra romaria. O livro Caminhadas de Fé: Caminhando com Maria, de José Maria Melo da Silva e Carumairá Corrêa Gabriel, lançado durante o I Congresso de Educação Física da Unama, documenta mais de três décadas da caminhada que liga Castanhal a Belém pela BR-316.

A origem é pessoal. Em 1984, a recuperação da mobilidade de um primo motivou o farmacêutico José Maria Melo da Silva a selar um voto religioso. O compromisso foi honrado em 1989, quando ele iniciou a primeira caminhada a pé pela rodovia. Para atingir o objetivo, procurou o amigo Gil Corrêa, que também ia a pé e morava em Castanhal, e acabou hospedado na casa dele. Da união desses propósitos nasceu o grupo Caminhada de Fé, no início com cinco pioneiros.

Os primeiros passos foram marcados por carências materiais severas e isolamento comunicacional. Sem telefonia móvel, o grupo dependia de familiares que percorriam a estrada de dia e de noite para prestar socorro sob sol escaldante e chuvas torrenciais. Com o tempo, a iniciativa que mobilizava de sete a doze participantes rompeu fronteiras familiares, estruturou redes de acolhimento e atingiu a marca de cem promesseiros ativos, integrando de modo definitivo o calendário devocional do estado.

O livro cruza essa experiência com a ciência do movimento humano. A Organização Mundial da Saúde define o bem-estar como o equilíbrio harmônico entre os fatores biológicos, psicológicos e sociais, e a análise dos autores propõe a espiritualidade como um quarto pilar da integridade humana, o elemento que viabiliza a superação das dores musculares e do cansaço extremo. A exigência física exige planejamento prévio rigoroso, mas é no limiar da exaustão que a mente se revela protagonista. Passados 36 anos, o grupo mantém projetos que distribuem brinquedos, cestas básicas, material escolar, calçados e roupas, além de lanches e brincadeiras com os palhaços do grupo Cênicos e Cínicos.

O Auto do Círio leva a Cidade Velha para a rua

Na sexta-feira que antecede o grande domingo, o Auto do Círio ocupa as ruas da Cidade Velha com teatro, dança, música, performance e cultura popular. Diferente de uma apresentação em teatro convencional, o público acompanha o cortejo enquanto os artistas percorrem diferentes pontos do centro histórico. Praças como a do Carmo e vias tradicionais fazem parte do percurso, e cada parada pode trazer dança, teatro, performances corporais, alegorias e outras linguagens.

Figurinos, alegorias, músicas e performances incorporam referências à floresta, aos rios, aos povos tradicionais e às expressões populares do Pará. Bonecos, elementos cenográficos de grandes dimensões e grupos de percussão transformam as ruas em um ambiente de forte impacto visual e sonoro. As apresentações costumam abordar questões relacionadas à diversidade, ao meio ambiente, aos direitos sociais e às diferentes experiências das populações amazônicas.

A edição de 2026 acontece em 9 de outubro, com concentração a partir das 18h na Praça do Carmo, na Cidade Velha. O tema é “Maria, Salvai e Guardai Nosso Patrimônio Sagrado e Nossa Fé”, e o cortejo traz uma homenagem a Zélia Amador de Deus, uma das idealizadoras do Auto e referência na luta antirracista.

O brinquedo de miriti que sai de Abaetetuba

Quando outubro chega a Belém, uma tradição chama atenção pelas formas leves e pelas cores vibrantes. São os brinquedos de miriti, peças artesanais que representam animais, embarcações, personagens e elementos do cotidiano amazônico. A tradição está fortemente ligada a Abaetetuba, no Baixo Tocantins, onde famílias de artesãos desenvolveram técnicas próprias passadas de geração em geração.

O miriti vem da palmeira Mauritia flexuosa, conhecida em outras regiões como buriti, comum em áreas de várzea e ambientes alagados da Amazônia. A parte usada pelos artesãos tem textura leve e maleável, o que facilita o corte, a modelagem e a montagem das peças. Depois da modelagem, vêm o acabamento e a pintura, responsáveis pelas cores marcantes associadas ao artesanato.

Registros históricos apontam que os brinquedos fazem parte das tradições da festividade desde 1905. Durante o Círio, os artesãos de Abaetetuba levam sua produção para Belém, e a feira de brinquedos de miriti é uma das presenças mais visíveis do período. Para o artesão Gugu, a maior parte da renda anual depende das vendas durante o Círio. Dona Pacheco, uma das mais antigas artesãs em atividade, representa o conhecimento que atravessa gerações. É comum que promesseiros conduzam pequenas peças durante a procissão como forma de agradecimento por uma graça alcançada: nesses casos, o objeto deixa de ser apenas brinquedo e passa a representar uma promessa.

Eu + Você = Jesus: a igreja evangélica que serve café aos romeiros

Uma congregação da Assembleia de Deus localizada na Avenida Nazaré, em Belém, abre as portas para os participantes do Círio, independentemente da tradição religiosa de cada pessoa. Idealizado pelo pastor Zildomar Campelo, o projeto Eu + Você = Jesus nasceu em 2012 com a proposta de acolher romeiros que passam pelo local durante a maior manifestação religiosa do Pará.

A programação começa ainda na noite de sábado, depois da Trasladação, quando voluntários preparam o espaço, separam alimentos e montam a estrutura de apoio. Durante a manhã da Grande Procissão, a igreja vira ponto de acolhimento para quem passa pela Avenida Nazaré, um dos trechos mais movimentados do percurso. Os romeiros encontram água, café, mingau, frutas, bolos, sanduíches, sucos e outros alimentos distribuídos gratuitamente, além de atendimento de primeiros socorros em parceria com instituições de apoio.

O projeto conta hoje com mais de 200 voluntários, que colaboram na organização, no preparo dos alimentos e na distribuição de água. Um dos pontos que mais chamam atenção é o fato de uma igreja evangélica abrir suas portas para atender participantes de uma celebração católica. A proposta não é reproduzir a devoção mariana, mas colocar em prática o princípio cristão do cuidado com o próximo. A iniciativa ganhou desdobramentos ao longo dos anos, entre eles o Eu + Você = Jesus Kids, criado para ações durante o Círio das Crianças.

Por que os ipês de Belém podem florescer fora de hora

Rosa, roxo e amarelo tomam ruas e praças de Belém neste período do ano. Além do efeito na paisagem urbana, as árvores cumprem papel ecológico importante: oferecem alimento e abrigo a uma fauna diversa e atraem polinizadores. Em geral, a floração acontece entre julho e setembro, mas o calendário não é rígido, e as condições do clima podem adiantar o processo em dias, semanas ou até meses.

Para o biólogo Emil José Hernández Ruz, professor do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Conservação da UFPA, no campus de Altamira, a floração dos gêneros Handroanthus e Tabebuia está fortemente associada à fenologia, que ele define como “a análise dos fenômenos do desenvolvimento do ser vivo e sua relação com fatores ambientais e climáticos externos”. O processo envolve a ativação de mais de 80 genes, que coordenam a divisão celular, a diferenciação de tecidos e a produção de hormônios, pigmentos e aromas.

“Pesquisas demonstram que o calendário de início, frequência e força da floração é afetado por alterações na temperatura, precipitação e índice de aridez ambiental. A temperatura é o fator direcionador do início da floração”, afirma Hernández. A nutrição mineral também pesa: o excesso de nitrogênio estimula ramos e folhas e retarda a floração, enquanto a escassez estressa a planta e pode antecipá-la.

O principal problema de uma floração antecipada é o descompasso fenológico. Se as flores se abrem mais cedo e polinizadores como abelhas, vespas, borboletas, aves e morcegos não ajustam a atividade ao novo calendário, diminuem as chances de visitação, de transporte de pólen e de produção de frutos e sementes. Se o adiantamento se repete, sementes e plantas recém-germinadas passam a enfrentar chuva e umidade diferentes das habituais.

O pesquisador pede cautela científica. “Encontrar um ipê florescendo algumas semanas ou meses antes do esperado não permite, sozinho, atribuir o fenômeno às mudanças climáticas”, diz. Na avaliação dele, os ipês merecem investigação aprofundada como bioindicadores do futuro dos ciclos de vida das plantas. “Eu diria que o ipê funciona como um termômetro biológico, mas um termômetro diferente do meteorológico”, conclui.

Quem quiser ver a floração em Belém tem alguns pontos certos: o canteiro em frente ao Bosque Rodrigues Alves e o canteiro em frente ao Instituto Federal do Pará, os dois na avenida Almirante Barroso; o Setor Básico da UFPA, da frente do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas até o Instituto de Ciências Exatas e Naturais; a Praça da República; o Forte do Presépio; e o Parque do Utinga.

Onde ler a edição completa

A Revista Pará+ é publicada pela Editora Cirios, em Belém, e pode ser lida na íntegra de graça. A edição 293, especial de Círio, está disponível no leitor digital do portal e em PDF para download, sem cadastro. Todas as edições anteriores ficam reunidas na banca digital.

Perguntas Frequentes

Quando é o Círio de Nazaré 2026 em Belém?
A Grande Procissão acontece no domingo, 11 de outubro de 2026. O Auto do Círio abre a programação na sexta-feira, 9 de outubro, a partir das 18h na Praça do Carmo, e a Trasladação sai no sábado, 10 de outubro, à tarde.

Quantas pessoas participam do Círio de Nazaré?
Na última Grande Procissão, a estimativa oficial divulgada pela organização foi de cerca de 2,6 milhões de pessoas. A Trasladação, na véspera, reuniu cerca de 1,9 milhão.

Qual o tamanho da corda do Círio?
A corda da Grande Procissão mediu 400 metros, a mesma extensão da usada na Trasladação. Ela é confeccionada com malva, fibra cultivada na Amazônia, e é cortada em pedaços ao fim do percurso, nas estações 4 e 5.

O Círio de Nazaré é patrimônio reconhecido?
Sim. O Círio foi registrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional como Patrimônio Cultural do Brasil em 2004 e recebeu da Unesco, em 2013, o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.

Como ler a edição 293 da Revista Pará+?
A edição está disponível de graça no leitor digital do portal e também em PDF para download, sem cadastro. Todas as edições ficam reunidas na banca digital em paramais.com.br/revistas.

Sábado do Círio tem romarias desde as 5h30 e Trasladação à noite Ler →

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