Belém monta plano contra o Super El Niño com meta de um milhão de árvores

Belém monta plano contra o Super El Niño com meta de um milhão de árvores
Edição 292 da Revista Pará+, setembro de 2026.

Trinta e cinco órgãos municipais, estaduais e federais sentaram na mesma sala em Belém para montar um plano contra o calor que vem pela frente. A meta mais ambiciosa é plantar um milhão de árvores. O motivo tem nome e data: a agência norte-americana NOAA confirmou em junho o retorno do El Niño, e o portal Climatempo aponta 63% de probabilidade de o fenômeno atingir a categoria muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Se confirmar, entra no grupo dos mais intensos já medidos, ao lado dos de 1982-83, 1997-98 e 2015-16.

Neste artigo
  1. Belém reúne 35 órgãos e mira um milhão de árvores
  2. O parque que devolveu o canteiro da Rômulo Maiorana aos moradores
  3. A dourada nasce nos Andes e percorre 11 mil quilômetros até o Ver-o-Peso
  4. Agropec 2026 fecha nove dias depois de uma crise em maio
  5. Rural Delas e a nova geração chamada a puxar o agro do Pará
  6. Dezenas de espécies possivelmente novas no topo da Amazônia
  7. Ondas de calor no mar também cobram da saúde de quem vive na costa
  8. Não existe dieta perfeita, mas comer bem desacelera o relógio do corpo
  9. Onde ler a edição completa
Edição 292 · Setembro 2026
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A edição 292 da Pará+ vai do canteiro central de uma avenida de Belém ao topo de uma montanha isolada no norte do Amazonas, passando por uma feira agropecuária em Paragominas e por um peixe que atravessa cinco países antes de chegar ao Ver-o-Peso. O que costura tudo é uma pergunta prática: o que muda, daqui para a frente, na vida de quem vive no Pará.

Belém reúne 35 órgãos e mira um milhão de árvores

O Plano Municipal de Enfrentamento ao Super El Niño 2026-2027 nasce junto com um Protocolo de Alerta e Enfrentamento ao Calor Extremo. A ideia é preparar a capital para chuvas abaixo da média, temperaturas mais altas e maior risco de queimadas nos próximos meses.

O plano se organiza em três eixos: mitigação e adaptação, resiliência urbana e infraestrutura, e comunicação e governança. Entre as medidas previstas estão ampliação da arborização urbana, microflorestas, corredores verdes, jardins de chuva, monitoramento meteorológico permanente e ações preventivas contra incêndios em áreas periurbanas.

A aposta mais ambiciosa é o plantio de um milhão de árvores ao longo da atual gestão, para ampliar a cobertura vegetal e reduzir as ilhas de calor, aqueles pontos da cidade onde o concreto e a falta de sombra elevam a temperatura. De acordo com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, mais de 10 mil mudas foram plantadas em 2025 e o número já passa de 17 mil neste ano.

O Protocolo do Calor é o segundo pilar. Ele deve estabelecer níveis de alerta e medidas graduais conforme a intensidade dos eventos climáticos, com pontos de hidratação, ampliação de áreas de sombra, reforço dos serviços de saúde e atendimento prioritário aos grupos mais expostos. A lista inclui crianças, idosos, gestantes, pessoas com doenças crônicas, trabalhadores expostos ao sol, moradores de áreas com pouca arborização, comunidades ribeirinhas, pessoas em situação de rua e animais domésticos.

“Estamos reunindo todas as instituições responsáveis para construir um planejamento integrado, com responsabilidades bem definidas e ações coordenadas”, afirmou o secretário municipal de Segurança, Ordem Pública e Mobilidade, Luciano Oliveira. Segundo os centros de monitoramento, a maior influência do El Niño deve se concentrar entre outubro de 2026 e março de 2027, período que coincide com o auge do verão amazônico.

O parque que devolveu o canteiro da Rômulo Maiorana aos moradores

Em 5 de setembro, a Prefeitura de Belém entregou os primeiros 500 metros do Parque 25, o parque linear construído sobre o canteiro central da avenida Rômulo Maiorana. O trecho vai da travessa Lomas Valentinas à travessa Mauriti e cobre três quarteirões. Nele foram instalados cinco quiosques, uma quadra poliesportiva, espaço de convivência, bicicletário e uma área para slackline, além de um chafariz na rotatória.

Poucos dias depois da inauguração, o trecho já aparecia incorporado à rotina do bairro, com gente caminhando, correndo e passeando com animais de estimação. A mudança mais visível para quem mora ali não é o mobiliário, e sim o piso. Francisco Moura, de 76 anos, cadeirante, mora na avenida há 40 anos e diz que nunca havia usado o canteiro central para caminhar antes da obra. “Em todos esses anos, eu nunca passeei por aqui. Não tinha lugar para caminhar, era cheio de lama e grama mal cortada”, contou.

O movimento também chegou ao caixa. Amâncio Filho, de 56 anos, é dono da Tapiocaria da 25, que funciona no local há 15 anos. Antes da reforma, segundo ele, o ponto era “formado de lata coberto com um toldo” e não tinha banheiro. Com a obra, ganhou estrutura nova e banheiro acessível. Ele afirma que a renda aumentou acima de 25% nesses poucos dias depois da inauguração.

Na frente ambiental, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente plantou 115 mudas ao longo da extensão do Parque 25: 40 mudas de ipê-rosa, 30 de ipê-amarelo, 40 oitis e cinco ipezinhos-de-jardim. A segunda etapa, prevista para 30 de novembro, vai da travessa Mauriti à avenida Antônio Baena, cerca de um quilômetro. Concluído, o parque terá aproximadamente 1,5 quilômetro.

A dourada nasce nos Andes e percorre 11 mil quilômetros até o Ver-o-Peso

A quarta edição do relatório Peixes Esquecidos da Amazônia, divulgada em 8 de setembro pela The Nature Conservancy com pesquisadores de instituições dos países amazônicos, mapeia mais de 2,7 mil espécies de peixes de água doce na bacia. É cerca de 15% de todas as espécies de água doce conhecidas no planeta, e dois terços delas não ocorrem em nenhum outro lugar do mundo.

A viagem da dourada é o exemplo que fica. Nascida nas cabeceiras próximas aos Andes, ela pode percorrer mais de 11 mil quilômetros até o estuário do Amazonas e voltar às nascentes para desovar. É a mais longa migração já registrada entre peixes que vivem exclusivamente em água doce, e ela atravessa fronteiras de vários países antes de terminar nas redes que abastecem mercados como o Ver-o-Peso, em Belém.

O relatório mostra que esses peixes fazem mais do que alimentar. Cerca de 30% da bacia amazônica é formada por rios, lagos e planícies alagáveis, e é nesse pulso anual de inundação que boa parte das espécies encontra abrigo, comida e local de reprodução. Tambaquis, pacus e matrinxãs entram na mata alagada durante a cheia para comer frutos e acabam dispersando sementes por grandes distâncias. Quando essas populações diminuem, a vegetação perde dispersores, e botos, ariranhas e aves perdem alimento.

Em algumas comunidades ribeirinhas remotas, o consumo de pescado ultrapassa 600 gramas por pessoa por dia. O peixe está entre as fontes de proteína animal mais acessíveis para famílias de baixa renda. Pelo menos 200 espécies são capturadas comercialmente, e cerca de 30 delas concentram aproximadamente 90% do volume desembarcado.

Os alertas também são concretos. A Lista Vermelha da IUCN registra 144 espécies ameaçadas na região, e outras 334 aparecem como Dados Insuficientes, o que significa que ninguém sabe em que situação elas estão. Até 2020, 7,4 milhões de hectares de áreas úmidas já haviam sido desmatados na bacia. O garimpo responde por 83% das emissões de mercúrio de origem humana na América do Sul, e o consumo de pescado é apontado como a principal via de exposição humana ao metal na Amazônia.

Há uma janela aberta, e é esse o argumento central do estudo. “Para os povos indígenas, os peixes não são simplesmente um recurso. Eles fazem parte da nossa identidade, dos nossos sistemas alimentares, das nossas histórias e da nossa relação com os rios vivos”, afirma Fany Kuiru Castro, coordenadora-geral da COICA. O relatório identificou pelo menos 155 iniciativas de manejo comunitário no Brasil, no Peru, na Bolívia e na Colômbia, que abrangem quase 13 milhões de hectares e envolvem mais de 1,2 mil comunidades e 21 mil pescadores.

Agropec 2026 fecha nove dias depois de uma crise em maio

A 59ª Feira Agropecuária de Paragominas encerrou sua programação em 16 de agosto. A realização foi confirmada depois de um período de incertezas que mobilizou o setor produtivo do município, e a edição acabou fechando nove dias de programação, de 8 a 16 de agosto, no Parque de Exposições Amílcar Tocantins.

Segundo o Sindicato dos Produtores Rurais de Paragominas, a feira reúne mais de 200 empresas, órgãos públicos, entidades, artesãos e escolas. A localização às margens da Rodovia Belém-Brasília é apontada como um dos fatores que favorecem a presença de visitantes de outras regiões.

O balanço do Sebrae no Pará, divulgado em 18 de agosto, contabilizou mais de 800 atendimentos durante a feira, entre capacitações, ações de empreendedorismo feminino e conteúdos técnicos. Dez empreendedores comercializaram produtos em um espaço colaborativo desenvolvido em parceria com o Senar e o Sindicato. A programação de 2026 incorporou piscicultura, mecanização, conectividade, gestão e transformação digital, e o espaço I AGRO recebeu em 14 de agosto uma palestra sobre a Reforma Tributária e seus impactos no setor.

Rural Delas e a nova geração chamada a puxar o agro do Pará

Dentro da Agropec, o 5º Encontro Rural Delas reuniu em 14 de agosto mulheres ligadas ao agronegócio para discutir liderança, inovação, sustentabilidade, gestão e participação feminina. Mais de 200 mulheres participaram das ações ligadas ao encontro. A iniciativa é conduzida por Maxiely Scaramussa Bergamin, presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Paragominas, e teve a participação do professor e escritor José Luiz Tejon e da pesquisadora Caroline Corrêa, da Embrapa Maranhão.

Um dado apresentado no encontro ajuda a medir o peso do campo na região: em São Domingos do Capim, de uma população de 30.399 pessoas, 69,6% moram na área rural, e o setor agropecuário responde por 47,6% das atividades.

A edição traz ainda o Conexão Agro Jovem Pará, realizado em 12 de agosto na sede da FAEPA, em Belém, das 8h às 18h. Na abertura, o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Pará, Carlos Xavier, fez um diagnóstico direto. “Nós estamos em um estado que tem tudo para ser o primeiro em desenvolvimento, e nós somos o último. Lógico que precisamos contar com a juventude no sentido dessa transformação, que passa necessariamente pela produção”, afirmou, diante de um auditório de jovens produtores, estudantes, técnicos e lideranças sindicais. O encontro foi promovido pela Comissão dos Jovens do Agro do Pará, dirigida por Quésia Sá Pavão e Kézia Gonçalves.

Dezenas de espécies possivelmente novas no topo da Amazônia

Durante 19 dias encerrados em 12 de setembro, 16 pesquisadores subiram duas montanhas isoladas no norte do Amazonas e voltaram com nove espécies de lagartos, cinco de cobras e 18 de anfíbios. Desse conjunto, cinco lagartos, uma cobra e cerca de dez anfíbios são provavelmente novos para a ciência. Entre os lagartos há ainda a possibilidade de um gênero inédito.

O trabalho faz parte do projeto A biodiversidade desconhecida das montanhas da Amazônia, financiado pela FAPESP e realizado com apoio do Exército Brasileiro, responsável pela logística. As duas primeiras etapas, no Pico da Neblina em 2017 e na Serra do Imeri em 2022, já haviam revelado duas famílias novas de sapos e lagartos.

Desta vez o destino foi a Serra do Aracá, a 1.260 metros de altitude e a 220 quilômetros de Barcelos, dentro do Parque Estadual Serra do Aracá, criado em 1990 e com 1,8 milhão de hectares. São montanhas de topo plano, chamadas tepuis, que se erguem sobre a planície amazônica como ilhas de pedra. O isolamento pela altitude faz delas laboratórios naturais de evolução.

Chegar ao topo exigiu três tentativas. O arenito pedregoso dificultava abrir picadas até a mata nebular, e a solução veio de um drone operado pelo fotógrafo André Dib, que mapeou o relevo e identificou uma rota. O inventário reuniu cerca de 80 espécies de pequenos mamíferos, cerca de 200 aves de aproximadamente 80 espécies, mais de 300 amostras de invertebrados e 400 números de plantas, que geraram cerca de 2 mil exsicatas.

Ondas de calor no mar também cobram da saúde de quem vive na costa

Pesquisadores da Universidade de Adelaide e da Universidade de Hong Kong estão pedindo que as ondas de calor marinhas sejam reconhecidas como um problema de saúde pública, e não apenas ambiental. O argumento, publicado na Nature Sustainability, é que os impactos sobre as pessoas vêm sendo negligenciados apesar das evidências.

A lista de efeitos passa pela intensificação de tempestades, pela contaminação de frutos do mar por algas nocivas, pela redução dos estoques pesqueiros e pelo abalo na renda e na identidade cultural de comunidades que vivem do mar. “As ondas de calor marinhas não são reconhecidas apenas como um problema ambiental; elas são cada vez mais percebidas também como um problema de saúde humana”, disse a autora principal, Laura Falkenberg. Para quem vive no litoral paraense, a conexão é direta: o que acontece na água chega ao prato e à renda.

Não existe dieta perfeita, mas comer bem desacelera o relógio do corpo

Um estudo publicado em 29 de agosto na Nature Communications acompanhou 6.470 moradores de Bonn, na Alemanha, e avaliou a alimentação de cada um por dez critérios diferentes. Apenas 18 pessoas ficaram entre os 25% mais bem colocados em todos eles.

O número parece uma curiosidade estatística, mas é o centro do achado: dez padrões diferentes de alimentação saudável estão ligados a um envelhecimento biológico mais lento, medido diretamente no DNA. Ou seja, não há uma única receita. “Uma mesma pessoa pode tirar nota alta em um índice de dieta e baixa em outro”, explica a pesquisadora Juliana Tavares, primeira autora do trabalho. A conclusão abre espaço para que cada região, inclusive a Amazônia, monte o seu próprio prato saudável com o que tem à mão.

Onde ler a edição completa

A Revista Pará+ é publicada pela Editora Cirios, em Belém, e pode ser lida na íntegra de graça. A edição 292 está disponível no leitor digital do portal e em PDF para download, sem cadastro. Todas as edições anteriores ficam na banca digital.

Perguntas Frequentes

Como ler a edição 292 da Revista Pará+?
A edição está disponível de graça no leitor digital do portal e também em PDF para download, sem cadastro. Todas as edições ficam reunidas na banca digital em paramais.com.br/revistas.

O que é o Plano Municipal de Enfrentamento ao Super El Niño?
É um plano da Prefeitura de Belém construído com 35 órgãos municipais, estaduais e federais para preparar a cidade para chuvas abaixo da média, temperaturas mais altas e maior risco de queimadas entre 2026 e 2027. Inclui a meta de plantar um milhão de árvores e um Protocolo de Alerta e Enfrentamento ao Calor Extremo.

Quando fica pronto o Parque 25, na avenida Rômulo Maiorana?
O primeiro trecho, de 500 metros, foi entregue em 5 de setembro. A segunda etapa está prevista para 30 de novembro e levará o parque a cerca de 1,5 quilômetro.

Quantas espécies de peixes existem na bacia amazônica?
O relatório Peixes Esquecidos da Amazônia, da The Nature Conservancy, contabiliza mais de 2,7 mil espécies de peixes de água doce na bacia, cerca de 15% de todas as espécies de água doce conhecidas no mundo. Dois terços delas não ocorrem em nenhum outro lugar.

A Revista Pará+ é gratuita?
Sim. A revista pode ser lida no navegador e baixada em PDF pelo portal, sem custo e sem cadastro.

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