
Trinta e cinco órgãos municipais, estaduais e federais sentaram na mesma sala em Belém para montar um plano contra o calor que vem pela frente. A meta mais ambiciosa é plantar um milhão de árvores. O motivo tem nome e data: a agência norte-americana NOAA confirmou em junho o retorno do El Niño, e o portal Climatempo aponta 63% de probabilidade de o fenômeno atingir a categoria muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Se confirmar, entra no grupo dos mais intensos já medidos, ao lado dos de 1982-83, 1997-98 e 2015-16.
Neste artigo
- Belém reúne 35 órgãos e mira um milhão de árvores
- O parque que devolveu o canteiro da Rômulo Maiorana aos moradores
- A dourada nasce nos Andes e percorre 11 mil quilômetros até o Ver-o-Peso
- Agropec 2026 fecha nove dias depois de uma crise em maio
- Rural Delas e a nova geração chamada a puxar o agro do Pará
- Dezenas de espécies possivelmente novas no topo da Amazônia
- Ondas de calor no mar também cobram da saúde de quem vive na costa
- Não existe dieta perfeita, mas comer bem desacelera o relógio do corpo
- Onde ler a edição completa

A edição 292 da Pará+ vai do canteiro central de uma avenida de Belém ao topo de uma montanha isolada no norte do Amazonas, passando por uma feira agropecuária em Paragominas e por um peixe que atravessa cinco países antes de chegar ao Ver-o-Peso. O que costura tudo é uma pergunta prática: o que muda, daqui para a frente, na vida de quem vive no Pará.
Belém reúne 35 órgãos e mira um milhão de árvores
O Plano Municipal de Enfrentamento ao Super El Niño 2026-2027 nasce junto com um Protocolo de Alerta e Enfrentamento ao Calor Extremo. A ideia é preparar a capital para chuvas abaixo da média, temperaturas mais altas e maior risco de queimadas nos próximos meses.
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O plano se organiza em três eixos: mitigação e adaptação, resiliência urbana e infraestrutura, e comunicação e governança. Entre as medidas previstas estão ampliação da arborização urbana, microflorestas, corredores verdes, jardins de chuva, monitoramento meteorológico permanente e ações preventivas contra incêndios em áreas periurbanas.
A aposta mais ambiciosa é o plantio de um milhão de árvores ao longo da atual gestão, para ampliar a cobertura vegetal e reduzir as ilhas de calor, aqueles pontos da cidade onde o concreto e a falta de sombra elevam a temperatura. De acordo com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, mais de 10 mil mudas foram plantadas em 2025 e o número já passa de 17 mil neste ano.
O Protocolo do Calor é o segundo pilar. Ele deve estabelecer níveis de alerta e medidas graduais conforme a intensidade dos eventos climáticos, com pontos de hidratação, ampliação de áreas de sombra, reforço dos serviços de saúde e atendimento prioritário aos grupos mais expostos. A lista inclui crianças, idosos, gestantes, pessoas com doenças crônicas, trabalhadores expostos ao sol, moradores de áreas com pouca arborização, comunidades ribeirinhas, pessoas em situação de rua e animais domésticos.
“Estamos reunindo todas as instituições responsáveis para construir um planejamento integrado, com responsabilidades bem definidas e ações coordenadas”, afirmou o secretário municipal de Segurança, Ordem Pública e Mobilidade, Luciano Oliveira. Segundo os centros de monitoramento, a maior influência do El Niño deve se concentrar entre outubro de 2026 e março de 2027, período que coincide com o auge do verão amazônico.
O parque que devolveu o canteiro da Rômulo Maiorana aos moradores
Em 5 de setembro, a Prefeitura de Belém entregou os primeiros 500 metros do Parque 25, o parque linear construído sobre o canteiro central da avenida Rômulo Maiorana. O trecho vai da travessa Lomas Valentinas à travessa Mauriti e cobre três quarteirões. Nele foram instalados cinco quiosques, uma quadra poliesportiva, espaço de convivência, bicicletário e uma área para slackline, além de um chafariz na rotatória.
Poucos dias depois da inauguração, o trecho já aparecia incorporado à rotina do bairro, com gente caminhando, correndo e passeando com animais de estimação. A mudança mais visível para quem mora ali não é o mobiliário, e sim o piso. Francisco Moura, de 76 anos, cadeirante, mora na avenida há 40 anos e diz que nunca havia usado o canteiro central para caminhar antes da obra. “Em todos esses anos, eu nunca passeei por aqui. Não tinha lugar para caminhar, era cheio de lama e grama mal cortada”, contou.
O movimento também chegou ao caixa. Amâncio Filho, de 56 anos, é dono da Tapiocaria da 25, que funciona no local há 15 anos. Antes da reforma, segundo ele, o ponto era “formado de lata coberto com um toldo” e não tinha banheiro. Com a obra, ganhou estrutura nova e banheiro acessível. Ele afirma que a renda aumentou acima de 25% nesses poucos dias depois da inauguração.
Na frente ambiental, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente plantou 115 mudas ao longo da extensão do Parque 25: 40 mudas de ipê-rosa, 30 de ipê-amarelo, 40 oitis e cinco ipezinhos-de-jardim. A segunda etapa, prevista para 30 de novembro, vai da travessa Mauriti à avenida Antônio Baena, cerca de um quilômetro. Concluído, o parque terá aproximadamente 1,5 quilômetro.
A dourada nasce nos Andes e percorre 11 mil quilômetros até o Ver-o-Peso
A quarta edição do relatório Peixes Esquecidos da Amazônia, divulgada em 8 de setembro pela The Nature Conservancy com pesquisadores de instituições dos países amazônicos, mapeia mais de 2,7 mil espécies de peixes de água doce na bacia. É cerca de 15% de todas as espécies de água doce conhecidas no planeta, e dois terços delas não ocorrem em nenhum outro lugar do mundo.
A viagem da dourada é o exemplo que fica. Nascida nas cabeceiras próximas aos Andes, ela pode percorrer mais de 11 mil quilômetros até o estuário do Amazonas e voltar às nascentes para desovar. É a mais longa migração já registrada entre peixes que vivem exclusivamente em água doce, e ela atravessa fronteiras de vários países antes de terminar nas redes que abastecem mercados como o Ver-o-Peso, em Belém.
O relatório mostra que esses peixes fazem mais do que alimentar. Cerca de 30% da bacia amazônica é formada por rios, lagos e planícies alagáveis, e é nesse pulso anual de inundação que boa parte das espécies encontra abrigo, comida e local de reprodução. Tambaquis, pacus e matrinxãs entram na mata alagada durante a cheia para comer frutos e acabam dispersando sementes por grandes distâncias. Quando essas populações diminuem, a vegetação perde dispersores, e botos, ariranhas e aves perdem alimento.
Em algumas comunidades ribeirinhas remotas, o consumo de pescado ultrapassa 600 gramas por pessoa por dia. O peixe está entre as fontes de proteína animal mais acessíveis para famílias de baixa renda. Pelo menos 200 espécies são capturadas comercialmente, e cerca de 30 delas concentram aproximadamente 90% do volume desembarcado.
Os alertas também são concretos. A Lista Vermelha da IUCN registra 144 espécies ameaçadas na região, e outras 334 aparecem como Dados Insuficientes, o que significa que ninguém sabe em que situação elas estão. Até 2020, 7,4 milhões de hectares de áreas úmidas já haviam sido desmatados na bacia. O garimpo responde por 83% das emissões de mercúrio de origem humana na América do Sul, e o consumo de pescado é apontado como a principal via de exposição humana ao metal na Amazônia.
Há uma janela aberta, e é esse o argumento central do estudo. “Para os povos indígenas, os peixes não são simplesmente um recurso. Eles fazem parte da nossa identidade, dos nossos sistemas alimentares, das nossas histórias e da nossa relação com os rios vivos”, afirma Fany Kuiru Castro, coordenadora-geral da COICA. O relatório identificou pelo menos 155 iniciativas de manejo comunitário no Brasil, no Peru, na Bolívia e na Colômbia, que abrangem quase 13 milhões de hectares e envolvem mais de 1,2 mil comunidades e 21 mil pescadores.
Agropec 2026 fecha nove dias depois de uma crise em maio
A 59ª Feira Agropecuária de Paragominas encerrou sua programação em 16 de agosto. A realização foi confirmada depois de um período de incertezas que mobilizou o setor produtivo do município, e a edição acabou fechando nove dias de programação, de 8 a 16 de agosto, no Parque de Exposições Amílcar Tocantins.
Segundo o Sindicato dos Produtores Rurais de Paragominas, a feira reúne mais de 200 empresas, órgãos públicos, entidades, artesãos e escolas. A localização às margens da Rodovia Belém-Brasília é apontada como um dos fatores que favorecem a presença de visitantes de outras regiões.
O balanço do Sebrae no Pará, divulgado em 18 de agosto, contabilizou mais de 800 atendimentos durante a feira, entre capacitações, ações de empreendedorismo feminino e conteúdos técnicos. Dez empreendedores comercializaram produtos em um espaço colaborativo desenvolvido em parceria com o Senar e o Sindicato. A programação de 2026 incorporou piscicultura, mecanização, conectividade, gestão e transformação digital, e o espaço I AGRO recebeu em 14 de agosto uma palestra sobre a Reforma Tributária e seus impactos no setor.
Rural Delas e a nova geração chamada a puxar o agro do Pará
Dentro da Agropec, o 5º Encontro Rural Delas reuniu em 14 de agosto mulheres ligadas ao agronegócio para discutir liderança, inovação, sustentabilidade, gestão e participação feminina. Mais de 200 mulheres participaram das ações ligadas ao encontro. A iniciativa é conduzida por Maxiely Scaramussa Bergamin, presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Paragominas, e teve a participação do professor e escritor José Luiz Tejon e da pesquisadora Caroline Corrêa, da Embrapa Maranhão.
Um dado apresentado no encontro ajuda a medir o peso do campo na região: em São Domingos do Capim, de uma população de 30.399 pessoas, 69,6% moram na área rural, e o setor agropecuário responde por 47,6% das atividades.
A edição traz ainda o Conexão Agro Jovem Pará, realizado em 12 de agosto na sede da FAEPA, em Belém, das 8h às 18h. Na abertura, o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Pará, Carlos Xavier, fez um diagnóstico direto. “Nós estamos em um estado que tem tudo para ser o primeiro em desenvolvimento, e nós somos o último. Lógico que precisamos contar com a juventude no sentido dessa transformação, que passa necessariamente pela produção”, afirmou, diante de um auditório de jovens produtores, estudantes, técnicos e lideranças sindicais. O encontro foi promovido pela Comissão dos Jovens do Agro do Pará, dirigida por Quésia Sá Pavão e Kézia Gonçalves.
Dezenas de espécies possivelmente novas no topo da Amazônia
Durante 19 dias encerrados em 12 de setembro, 16 pesquisadores subiram duas montanhas isoladas no norte do Amazonas e voltaram com nove espécies de lagartos, cinco de cobras e 18 de anfíbios. Desse conjunto, cinco lagartos, uma cobra e cerca de dez anfíbios são provavelmente novos para a ciência. Entre os lagartos há ainda a possibilidade de um gênero inédito.
O trabalho faz parte do projeto A biodiversidade desconhecida das montanhas da Amazônia, financiado pela FAPESP e realizado com apoio do Exército Brasileiro, responsável pela logística. As duas primeiras etapas, no Pico da Neblina em 2017 e na Serra do Imeri em 2022, já haviam revelado duas famílias novas de sapos e lagartos.
Desta vez o destino foi a Serra do Aracá, a 1.260 metros de altitude e a 220 quilômetros de Barcelos, dentro do Parque Estadual Serra do Aracá, criado em 1990 e com 1,8 milhão de hectares. São montanhas de topo plano, chamadas tepuis, que se erguem sobre a planície amazônica como ilhas de pedra. O isolamento pela altitude faz delas laboratórios naturais de evolução.
Chegar ao topo exigiu três tentativas. O arenito pedregoso dificultava abrir picadas até a mata nebular, e a solução veio de um drone operado pelo fotógrafo André Dib, que mapeou o relevo e identificou uma rota. O inventário reuniu cerca de 80 espécies de pequenos mamíferos, cerca de 200 aves de aproximadamente 80 espécies, mais de 300 amostras de invertebrados e 400 números de plantas, que geraram cerca de 2 mil exsicatas.
Ondas de calor no mar também cobram da saúde de quem vive na costa
Pesquisadores da Universidade de Adelaide e da Universidade de Hong Kong estão pedindo que as ondas de calor marinhas sejam reconhecidas como um problema de saúde pública, e não apenas ambiental. O argumento, publicado na Nature Sustainability, é que os impactos sobre as pessoas vêm sendo negligenciados apesar das evidências.
A lista de efeitos passa pela intensificação de tempestades, pela contaminação de frutos do mar por algas nocivas, pela redução dos estoques pesqueiros e pelo abalo na renda e na identidade cultural de comunidades que vivem do mar. “As ondas de calor marinhas não são reconhecidas apenas como um problema ambiental; elas são cada vez mais percebidas também como um problema de saúde humana”, disse a autora principal, Laura Falkenberg. Para quem vive no litoral paraense, a conexão é direta: o que acontece na água chega ao prato e à renda.
Não existe dieta perfeita, mas comer bem desacelera o relógio do corpo
Um estudo publicado em 29 de agosto na Nature Communications acompanhou 6.470 moradores de Bonn, na Alemanha, e avaliou a alimentação de cada um por dez critérios diferentes. Apenas 18 pessoas ficaram entre os 25% mais bem colocados em todos eles.
O número parece uma curiosidade estatística, mas é o centro do achado: dez padrões diferentes de alimentação saudável estão ligados a um envelhecimento biológico mais lento, medido diretamente no DNA. Ou seja, não há uma única receita. “Uma mesma pessoa pode tirar nota alta em um índice de dieta e baixa em outro”, explica a pesquisadora Juliana Tavares, primeira autora do trabalho. A conclusão abre espaço para que cada região, inclusive a Amazônia, monte o seu próprio prato saudável com o que tem à mão.
Onde ler a edição completa
A Revista Pará+ é publicada pela Editora Cirios, em Belém, e pode ser lida na íntegra de graça. A edição 292 está disponível no leitor digital do portal e em PDF para download, sem cadastro. Todas as edições anteriores ficam na banca digital.
Perguntas Frequentes
Como ler a edição 292 da Revista Pará+?
A edição está disponível de graça no leitor digital do portal e também em PDF para download, sem cadastro. Todas as edições ficam reunidas na banca digital em paramais.com.br/revistas.
O que é o Plano Municipal de Enfrentamento ao Super El Niño?
É um plano da Prefeitura de Belém construído com 35 órgãos municipais, estaduais e federais para preparar a cidade para chuvas abaixo da média, temperaturas mais altas e maior risco de queimadas entre 2026 e 2027. Inclui a meta de plantar um milhão de árvores e um Protocolo de Alerta e Enfrentamento ao Calor Extremo.
Quando fica pronto o Parque 25, na avenida Rômulo Maiorana?
O primeiro trecho, de 500 metros, foi entregue em 5 de setembro. A segunda etapa está prevista para 30 de novembro e levará o parque a cerca de 1,5 quilômetro.
Quantas espécies de peixes existem na bacia amazônica?
O relatório Peixes Esquecidos da Amazônia, da The Nature Conservancy, contabiliza mais de 2,7 mil espécies de peixes de água doce na bacia, cerca de 15% de todas as espécies de água doce conhecidas no mundo. Dois terços delas não ocorrem em nenhum outro lugar.
A Revista Pará+ é gratuita?
Sim. A revista pode ser lida no navegador e baixada em PDF pelo portal, sem custo e sem cadastro.
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