
Curso nos Estados Unidos ensina estudantes a reconhecer como conversas breves e convivência repetida criam vínculos.
Neste artigo
Durante quase duas décadas, o professor de Ciência Política Justin Vaughn aprendeu a interromper conversas paralelas para conseguir iniciar suas aulas. Mais recentemente, o problema mudou de forma: as salas ficaram silenciosas, estudantes passaram a olhar para os celulares e muitos sequer cumprimentavam quem estava sentado ao lado. A cena levou o docente da Coastal Carolina University, nos Estados Unidos, a criar uma disciplina sobre amizade para enfrentar uma dificuldade que aparece em pesquisas e também no cotidiano universitário: a solidão entre estudantes.
Em 2026, quase seis em cada dez universitários disseram sentir solidão às vezes ou sempre em uma pesquisa nacional com mais de 40 mil participantes. Segundo o levantamento nacional com estudantes universitários, quase 60% relataram solidão ocasional ou frequente em 2026. O dado ajuda a dimensionar por que a dificuldade de fazer amigos não deve ser tratada apenas como uma questão de personalidade ou de adaptação individual.
Do choro ao universo dentro de um buraco negro, perguntas sem resposta revelam o quanto a ciência desconhece
Documentário "Memórias da Administração" exibido no Pará percorreu 11 estados e reúne estudantes para resgatar a história da Administração
Círio 2026 abre concurso para estudantes do Pará, limita vagas por escola e marca prova em Belém
Quando estar cercado de pessoas não basta
O isolamento pode aparecer mesmo em lugares cheios. No campus observado por Vaughn, novos alunos demonstravam interesse em construir relações próximas, mas hesitavam em iniciar uma conversa. Alguns também pareciam ter pouca experiência em manter contatos ao longo do tempo, uma habilidade que não se resume a encontrar alguém pela primeira vez.
O cenário acompanha uma mudança mais ampla nos hábitos sociais dos Estados Unidos. Dados federais de uso do tempo mostram que a parcela de americanos que conviviam presencialmente com familiares, amigos ou outras pessoas em um dia comum caiu de 38% em 2015 para 30% em 2025. A redução não explica sozinha a experiência de cada universitário, mas indica que a oportunidade de praticar a convivência presencial vem diminuindo.
Para leitores do Pará e da Grande Belém, a discussão interessa especialmente a quem vive a transição para a universidade, muda de cidade ou passa a frequentar um campus sem conhecer ninguém. A experiência descrita nos Estados Unidos não permite medir a solidão dos estudantes paraenses, mas oferece uma forma concreta de pensar sobre acolhimento, espaços de convivência e rotina acadêmica.
A amizade como processo, não como acontecimento
A disciplina criada por Vaughn se chama “Friendship & Society”, ou “Amizade e Sociedade”. O curso combina leituras acadêmicas com atividades práticas. Em vez de tratar a amizade como algo que simplesmente acontece quando duas pessoas têm afinidade, as aulas analisam o percurso entre o primeiro contato e a construção de confiança.
Uma conversa rápida, uma refeição compartilhada ou dez minutos de companhia podem parecer irrelevantes quando acontecem. Repetidos ao longo das semanas, porém, esses momentos criam uma história comum. É esse acúmulo de experiências que o professor chama de capital relacional, uma reserva de confiança e memória que pode ser acionada quando surgem dificuldades, divergências ou necessidade de apoio.
A ideia também muda a forma de observar os espaços universitários. Um café, um lounge, uma biblioteca ou uma área de circulação não são apenas locais de passagem. O modo como as pessoas se sentam, esperam, caminham e permanecem nesses ambientes pode facilitar ou dificultar o início de uma conversa.
De refeições a um “safári da amizade”
Os alunos realizam dez práticas de amizade ao longo do semestre. Entre as propostas estão compartilhar uma refeição com colegas e visitar um espaço público para observar como o ambiente favorece ou bloqueia a aproximação entre pessoas.

Em uma das atividades, pequenos grupos fazem um “safári da amizade” pelo campus. Durante a caminhada, os estudantes registram onde as conversas começam e em quais pontos as pessoas apenas passam umas pelas outras sem trocar palavras. O exercício transforma uma situação cotidiana, atravessar um corredor ou esperar em um espaço comum, em objeto de observação.
As experiências são acompanhadas por diários e reflexões individuais. Os estudantes escrevem o que esperavam encontrar, descrevem o que ocorreu e analisam a própria reação ao tentar iniciar uma conexão. Também produzem um curta-metragem sobre uma amizade no campus e encerram o curso com uma memória escrita sobre como suas relações e expectativas mudaram no primeiro semestre.
O que a ciência ajuda a enxergar
As atividades não ficam restritas a conselhos sobre comportamento. Os estudantes leem memórias, pesquisas de ciências sociais, textos de filosofia política, reportagens longas e relatórios de saúde pública. Também estudam a biologia da conexão: interações positivas ativam o sistema de recompensa do cérebro, enquanto o isolamento está associado a uma resposta de estresse.
O tema, portanto, atravessa saúde mental, saúde física e participação comunitária. Amizades podem contribuir para o sentimento de pertencimento e para a confiança entre pessoas. Em escala maior, vínculos cotidianos ajudam a formar comunidades nas quais os moradores se reconhecem, cooperam e continuam presentes mesmo quando não existe uma obrigação formal de convivência.
O professor apresenta a amizade como uma questão de saúde pública ainda pouco valorizada. Isso não significa transformar qualquer dificuldade social em diagnóstico, nem afirmar que uma disciplina possa resolver a solidão. O curso oferece ferramentas para que os alunos percebam oportunidades de contato e entendam que a proximidade costuma depender de repetição, tempo e disponibilidade.
O que muda quando o aluno percebe os pequenos momentos
Ao final do semestre, os estudantes conseguem comparar diferentes evidências sobre a formação, o desenvolvimento e o fim das amizades. Também passam a identificar ambientes mais propícios para conhecer pessoas, iniciar conversas e reconhecer hábitos que permitem aprofundar uma relação.
A consequência mais prática está na mudança de escala. Em vez de esperar uma amizade imediata, o aluno aprende a valorizar encontros que ainda não parecem importantes. Saber o nome de um colega, sentar perto de outras pessoas, dividir uma refeição ou retomar uma conversa podem ser passos modestos, mas repetidos formam uma trajetória.
Esse princípio pode ser aproveitado em universidades de Belém e de outras cidades paraenses sem copiar exatamente o modelo. Centros acadêmicos, bibliotecas, projetos de extensão e áreas de convivência podem criar mais ocasiões para a permanência e o contato entre estudantes. A estrutura, porém, não substitui a participação: a oportunidade precisa ser acompanhada de disposição para voltar e reconhecer quem esteve ali antes.
A experiência de Vaughn foi publicada em 24 de setembro de 2026 na série “Uncommon Courses”, do The Conversation, que reúne relatos sobre métodos pouco convencionais de ensino. O próximo passo, para estudantes e instituições, é transformar a atenção dada à solidão em práticas regulares de convivência durante o semestre, e não apenas em ações pontuais de recepção aos calouros.
Com informações de Coastal Carolina University.
Mais Lidas
- Revista Pará+ 292: Agropec 2026, Parque 25 e os peixes que sustentam a floresta
- Bela Portugal reinventa clássicos paraenses em versões acústicas e românticas e conquista o público nas redes sociais
- Exportações do Pará ao Canadá somam US$ 322 milhões e evento busca abrir espaço para alimentos e bioeconomia
- Como fazer peixe moqueado e por que a fumaça vem da brasa
- Lívia Mattos leva sanfona, voz, tuba e bateria ao Grammy Latino 2026 com álbum fora dos rótulos
O Google lançou as Fontes Preferenciais: você escolhe os veículos que aparecem com prioridade. Adicione o Pará+ e garanta a nossa cobertura sempre em destaque.
⭐ Adicionar Pará+ como Fonte PreferencialComo funciona em 3 passos:
- Pesquise qualquer assunto no Google
- Toque no ⭐ ao lado de “Principais Notícias”
- Busque Pará+ e marque a caixa — pronto!





Você precisa fazer login para comentar.