Cortejo com máscaras, fantasias e histórias de assombração sai às ruas do Guamá, em Belém, para perguntar quem tem medo do rio Tucunduba

Cortejo com máscaras, fantasias e histórias de assombração sai às ruas do Guamá, em Belém, para perguntar quem tem medo do rio Tucunduba
Foto: Divulgação

Na 8ª edição, o Cortejo Visagento usa o folclore paraense para discutir enchentes, esgoto e a relação de Belém com seus rios.

Neste artigo
  1. A assombração que aponta o dedo para a cidade
  2. Do Halloween às visagens: como o cortejo nasceu
  3. Conversa, máscaras e figurinos antes da caminhada
  4. Livros, exposição e concurso de fantasias
  5. O que o Guamá tem a ver com o resto da Amazônia
  6. Serviço

E se as assombrações do Guamá, em Belém, não estivessem atrás de quem tem medo do escuro, mas de quem trata um rio como esgoto? É essa a provocação do Cortejo Visagento, que chega à 8ª edição no sábado, 31 de outubro de 2026, com o tema “Quem tem medo do rio Tucunduba?”. A concentração é às 18h, no Cemitério Santa Izabel, na avenida José Bonifácio, e a caminhada segue pelas ruas do bairro.

A programação, porém, começa antes: já nesta terça-feira, 27 de outubro, com atividades preparatórias.

A assombração que aponta o dedo para a cidade

A tese desta edição é direta: não é o rio que ameaça a cidade, é a cidade que ameaça o rio. O Tucunduba, hoje muitas vezes reduzido à imagem de canal ou vala, já foi caminho de barcos, pessoas e mercadorias vindas das ilhas e ajudou a marcar a formação do território.

Com o tempo, passou a receber lixo e esgoto e sofreu aterramentos e intervenções urbanas. Os organizadores querem inverter essa perspectiva e questionar um modelo de urbanização que trata rios vivos como problemas a serem eliminados.

O debate segue atual. Mesmo depois da COP30, realizada em Belém, as intervenções urbanas e as promessas de combate aos alagamentos continuam no centro da conversa. Para quem mora às margens do Tucunduba, a água que entra nas casas ainda faz parte do cotidiano.

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Do Halloween às visagens: como o cortejo nasceu

O Cortejo Visagento foi criado em 2016 pelo Espaço Cultural Nossa Biblioteca (ECNB), a partir da articulação de iniciativas do bairro, como as ruas de leitura, a valorização do patrimônio histórico e a contação de histórias.

Havia também uma reação ao Halloween, cada vez mais presente no calendário. A ideia era fortalecer as histórias de visagens e o folclore paraense entre os jovens, especialmente estudantes de escolas públicas do turno da noite.

A presidente do ECNB, Mineia Silva, resume as motivações:

“O Cortejo Visagento nasce a partir de múltiplas inspirações. Uma delas foi a vontade de fazer uma rua de leitura à noite; outra, uma reação à presença do Halloween, que estava se tornando mais importante do que a nossa própria mitologia. Queríamos fazer do evento uma forma de resistência da cultura popular amazônida e valorizar o patrimônio do bairro”, explica Mineia Silva.

Ela acrescenta que o evento ajuda a mostrar o bairro por outro ângulo. “Hoje nós estamos trabalhando isso como um instrumento para mostrar o Guamá com uma outra face, uma face diferente”, afirma.

Cortejo com máscaras, fantasias e histórias de assombração sai às ruas do Guamá, em Belém, para perguntar quem tem medo do rio Tucunduba
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Segundo o Espaço Cultural Nossa Biblioteca, o cortejo também ressignifica espaços do bairro. O Cemitério Santa Izabel, ponto de partida, é tratado como lugar de memória, história e vida.

Conversa, máscaras e figurinos antes da caminhada

A Conversa Visagenta acontece nesta terça, 27 de outubro, às 17h, com Ariane Caldas. Cientista da religião pela Universidade do Estado do Pará (UEPA), ela também é arte-educadora, mestra da cultura popular, atriz, performer e contadora de histórias.

Ariane pesquisa os palacetes assombrados de Belém, reunindo lendas urbanas, relatos sobrenaturais e o imaginário em torno das antigas edificações da capital.

Na quarta, 28 de outubro, às 15h, são as Oficinas Visagentas. Na de máscaras, com Uritã, a proposta é dar rosto, ou vários olhos, às visagens. Na de figurino, com RomaRio e Lou, os participantes vestem a assombração dos pés à cabeça, com criatividade e reaproveitamento de materiais.

Livros, exposição e concurso de fantasias

No dia 31, a Praça Benedito Monteiro recebe exposição de trabalhos artísticos, livros à venda e o tradicional concurso de fantasias. Entre as obras estão o livro de Xavier dos Passos, o Naipeado, um baralho amazônico produzido por artistas paraenses, e os livros de Preto Michel.

Cortejo com máscaras, fantasias e histórias de assombração sai às ruas do Guamá, em Belém, para perguntar quem tem medo do rio Tucunduba
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Durante o percurso, será distribuído um material de pesquisa sobre as ruas por onde o cortejo passa, com informações sobre a história local e questões ambientais.

O que o Guamá tem a ver com o resto da Amazônia

A discussão não é só de um bairro. Em boa parte das cidades amazônicas, rios e igarapés foram canalizados, aterrados ou usados como destino de esgoto, e o resultado costuma aparecer em alagamentos nas áreas mais baixas, onde vivem os moradores de menor renda.

Nos últimos anos, o cortejo passou a incluir temas como ilhas de calor, desmatamento, secas dos rios e piora da qualidade do ar, com a aproximação de professores, estudantes da Universidade Federal do Pará (UFPA) e movimentos sociais da pauta climática.

Segundo o Espaço Cultural Nossa Biblioteca, a edição de 2026 usa a memória do Tucunduba para discutir o direito à cidade e a relação das comunidades com os cursos d’água que cortam Belém.

A caminhada de sábado é o ponto alto do roteiro, e quem quiser sair fantasiado ainda pode se preparar na oficina de quarta-feira.

Serviço

  • Conversa Visagenta com Ariane Caldas: terça-feira, 27 de outubro de 2026, às 17h, no Espaço Cultural Nossa Biblioteca, Travessa 25 de Junho, 214, Guamá, Belém (PA).
  • Oficinas Visagentas (máscaras com Uritã e figurino com RomaRio e Lou): quarta-feira, 28 de outubro de 2026, às 15h, no mesmo endereço.
  • Cortejo Visagento: sábado, 31 de outubro de 2026, concentração às 18h no Cemitério Santa Izabel, avenida José Bonifácio, Guamá, Belém (PA).
  • Programação complementar: exposição, livros à venda e concurso de fantasias na Praça Benedito Monteiro.
  • Mais informações: (91) 98032-9117 e (91) 98503-9738.

Com informações de Espaço Cultural Nossa Biblioteca (ECNB).

Cartunista contratado em 1978 por jornal que apoiava o regime ... Ler →

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