Cartunista contratado em 1978 por jornal que apoiava o regime publica 2.500 charges críticas sobre Belém até 1985, e tese da UFPA as lê como fontes históricas

Cartunista contratado em 1978 por jornal que apoiava o regime publica 2.500 charges críticas sobre Belém até 1985, e tese da UFPA as lê como fontes históricas
Foto: Divulgação

Pesquisa do PPGHist/UFPA usa o humor gráfico de Biratan Porto para reconstituir como a abertura política foi vivida em Belém.

Neste artigo
  1. Um vazio de quase uma década no humor gráfico paraense
  2. De colaborador a profissional
  3. Salões de humor para organizar uma categoria dispersa
  4. Um cronista gráfico da abertura política
  5. A charge como fonte histórica, com ressalvas
  6. O que isso diz sobre Belém de hoje

Custo de vida em alta, ruas mal conservadas, insegurança nas esquinas, hospitais precários e bairros de baixada cada vez mais adensados. Esse retrato de Belém, entre 1978 e 1985, ganhou forma nas charges diárias de Biratan Porto, publicadas em A Província do Pará, jornal alinhado ao regime militar. Cerca de 2.500 desses desenhos são agora o objeto de uma tese defendida na Universidade Federal do Pará (UFPA).

O trabalho, intitulado Correndo o risco: Belém do Pará na charge de Biratan Porto no ocaso da ditadura (1978-1985), é do jornalista e cartunista Walter Pinto de Oliveira. Foi defendido no Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia (PPGHist/IFCH), com orientação do professor Aldrin Moura de Figueiredo.

Um vazio de quase uma década no humor gráfico paraense

Para Walter Pinto, o ponto de partida está em 1964. Segundo ele, o golpe de 31 de março causou o fechamento do único jornal de oposição do estado, o Jornal do Dia, e, com ele, o fim da atividade do humor gráfico no Pará durante a década de 1960.

Esse silêncio durou até 1973. Naquele ano, uma nova geração de cartunistas apareceu nas páginas de A Província do Pará, sobretudo no encarte Bandeira 3. O grupo reunia Hamilton Bandeira, Osmar Pinheiro, Emmanuel Nassar e Luiz Pinto, inspirados pelo semanário alternativo O Pasquim, fundado no Rio de Janeiro em 1969.

O pesquisador avalia, porém, que o cartum feito no Pará naquele momento ainda era uma atividade amadora, o que contribuiu para que aquela geração seguisse outros rumos.

De colaborador a profissional

Dois anos depois, Walter e Biratan, ambos leitores do Pasquim, começaram a publicar em A Província, que foi o único jornal a abrir espaço para a charge, na coluna Jornaleco, de Raymundo Mário Sobral. Logo surgiram outros nomes.

A virada veio em 1978, no último ano do governo do general Ernesto Geisel. O jornal, em busca de modernizar a edição, contratou Biratan Porto como cartunista diário. Nas palavras de Walter, “o humor gráfico contemporâneo paraense se tornou profissional”. Na tese, ele define Biratan como “o primeiro cartunista contemporâneo a atuar profissionalmente na imprensa do Pará”.

A contratação não foi um gesto isolado. Em 1973, o jornal havia passado por uma grande reforma gráfica, que abriu espaço para a charge. Segundo o pesquisador, esse espaço só foi ocupado de fato quando o diretor-superintendente, Roberto Jares Martins, percebeu a qualidade do trabalho de Biratan, que já havia publicado em O Pasquim, no Correio Braziliense e na própria Província.

Salões de humor para organizar uma categoria dispersa

As pesquisas da tese identificaram dois grupos de artistas atuando no Pará nos anos 1970. Todos eram autodidatas e não se conheciam. A primeira iniciativa de organização foi o I Salão Paraense de Desenho de Humor, idealizado por Biratan a partir da experiência no Salão Internacional de Humor de Piracicaba. Ao todo, foram realizados quatro salões paraenses entre 1970 e 1980.

Um cronista gráfico da abertura política

Segundo a tese de Walter Pinto de Oliveira, Biratan Porto publicou cerca de 2.500 charges em A Província do Pará nos sete anos entre o início de seu trabalho e o fim da ditadura. “Biratan atuou como um cronista gráfico daquele período que seria chamado de abertura política”, afirma o pesquisador.

Os temas incluem o adensamento das áreas de baixada provocado pela migração ligada aos grandes projetos desenvolvimentistas, os problemas sociais e econômicos que vieram desse fluxo, o mau atendimento da saúde, a má conservação das ruas, a insegurança e a alta do custo de vida.

O período é apontado como de abrandamento do regime, mas Walter lembra que o autoritarismo deixou resquícios. “Bombas explodiram em bancas de jornais contra a venda de jornais alternativos, assim como não cessaram as políticas públicas de exclusão dos segmentos mais vulneráveis”, diz. As charges acompanharam esses episódios no momento em que aconteceram.

A charge como fonte histórica, com ressalvas

Para a historiografia, as charges são fontes primárias, mas também representações do que o artista via, e por isso sujeitas à crítica por conta da subjetividade. O pesquisador faz questão de marcar essa fronteira: “Mas elas não são criações descosidas da realidade; pelo contrário, partem sempre do fato, do acontecimento, da notícia publicada no jornal. Biratan, porém, fez a sua leitura desse noticiário sempre de forma crítica, muitas vezes contrariamente à linha editorial do jornal”.

Na tese, a charge funciona como uma chave de acesso ao acontecido, por meio de uma leitura a contrapelo do jornal. “A charge ressignifica o fato. É uma chave que exige o diálogo com outras ciências para que o assunto de que trata possa ser efetivamente entendido pelo leitor de hoje”, afirma Walter.

O que isso diz sobre Belém de hoje

Boa parte dos temas das charges de 1978 a 1985 segue familiar ao leitor da região: a pressão sobre as baixadas, o custo de vida, a segurança e a conservação das ruas. A pesquisa mostra que essas questões já estavam no centro do debate urbano de Belém quando os grandes projetos chegaram à Amazônia, e que o humor gráfico as registrou em tempo real.

A tese foi destaque na edição 177 do Jornal Beira do Rio, da UFPA, referente a janeiro a junho, e a reportagem completa está disponível no site do jornal. Com o trabalho de Walter Pinto de Oliveira concluído, o acervo de Biratan Porto passa a ter uma leitura acadêmica disponível para novos estudos sobre a imprensa e a redemocratização no Pará.

Com informações da Universidade Federal do Pará (UFPA).

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