
Estudo revisado por pares mostra que o abuso com imagens sexuais geradas por IA atinge gente comum, e não só celebridades.
Neste artigo
Quem tem um celular, uma foto no perfil e um desconhecido mal-intencionado já pode virar alvo de um nude falso. Um estudo com 7.230 adultos da Austrália, do Reino Unido e dos Estados Unidos indica que cerca de 7% deles, ou aproximadamente um em cada 14, afirmam que alguém criou, compartilhou ou ameaçou compartilhar imagens sexualmente explícitas deles produzidas com inteligência artificial. A pesquisa foi conduzida por Nicola Henry e colegas e publicada em 8 de setembro de 2026 no International Journal of Human-Computer Interaction.
Como a pesquisa foi feita
Os pesquisadores aplicaram um questionário a adultos das três regiões em julho e agosto de 2024. Ao todo, 15,1% relataram ao menos uma experiência de abuso com imagens íntimas alteradas digitalmente, incluindo montagens feitas por IA e por outros métodos de edição. Quando o recorte é apenas a IA, o índice fica em cerca de 7%.
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Por ser uma pesquisa baseada em relato, os números refletem o que os participantes dizem ter vivido. A própria autora lembra que a escala real pode ser maior, porque algumas pessoas nunca saberão que imagens delas foram criadas ou divulgadas.
Os números por tipo de abuso e por país
Segundo o estudo, 4,3% dos entrevistados disseram que alguém criou imagens íntimas deles com IA sem consentimento. Outros 4,4% afirmaram que esse tipo de imagem foi compartilhado, e 3,6% relataram ameaça de compartilhamento, tática comum em golpes de sextorsão.
O Reino Unido teve o maior índice (9,3%), seguido da Austrália (7,7%) e dos Estados Unidos (6,5%). A vitimização foi maior entre pessoas com menos de 35 anos, pessoas LGBTQ+, pessoas negras e de outras minorias raciais e pessoas com deficiência.
“We now have evidence of how widely AI-generated image-based abuse is affecting people across the community, not just celebrities and public figures.”
A frase é da professora Nicola Henry, pesquisadora da RMIT University, na Austrália, que acrescentou: “The true scale may be even greater because some people may never know that AI-generated images of them have been created or shared.”
Medo, tristeza e diferenças entre homens e mulheres
Entre as vítimas, 90,3% relataram ao menos um sentimento negativo e 86,7% apontaram ao menos um impacto negativo na vida. As mulheres tiveram mais chance de relatar reações exclusivamente negativas (87,6%, contra 71,2% dos homens) e mais chance de sentir medo pela própria segurança (42,4%, contra 18,1%). Elas também relataram com mais frequência tristeza, depressão e efeitos sobre a saúde mental.
Já os homens relataram com mais frequência reações neutras ou positivas, como achar as imagens engraçadas, embora esse tipo de resposta tenha sido incomum no conjunto.
Quem são os autores dos abusos
A maioria das vítimas, 55,6%, disse que o responsável era alguém que conhecia apenas on-line. Quase 30% tiveram contato presencial com a pessoa, e 14,6% não souberam quem era. Ao descrever a relação, 21,4% responderam “estranho”, 14,2% “amigo” e 9,2% “ex-parceiro”.
Os autores apontados foram homens em 47,4% dos casos, e mulheres em 36,7%. Os pesquisadores advertem que esse último dado pode refletir, em parte, golpistas que se passam por mulheres na internet.
O que isso significa para o leitor paraense
O estudo não incluiu o Brasil, e seus números não podem ser transpostos para o Pará ou a Grande Belém. Ainda assim, o perfil descrito, com agressores muitas vezes conhecidos só pela internet e ameaças típicas de sextorsão, é um alerta para qualquer usuário de redes sociais e aplicativos de mensagem na região, especialmente os mais jovens, que estão entre os mais afetados na pesquisa.
Na prática, vale restringir a visibilidade de fotos em perfis, desconfiar de contatos que pedem imagens e guardar provas, como capturas de tela e links, caso haja ameaça. Esse material é útil para registrar denúncia na polícia.
O que ainda não se sabe
Os autores destacam uma lacuna importante. “As generative AI becomes more widely available, there is greater potential for these tools to be misused to create, share or threaten to share intimate images without consent”, disse Henry. E completou: “What we don’t yet know is how quickly that is translating into increased victimization.”
Ou seja, o trabalho oferece uma fotografia de 2024 e não mostra a velocidade de crescimento do problema. Novas rodadas de pesquisa serão necessárias para medir a evolução. O artigo completo está disponível na página da revista científica.
Com informações de RMIT University e International Journal of Human-Computer Interaction.
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