
Estudo com flores robóticas indica que colônias podem ajustar o forrageamento para proteger as larvas.
Neste artigo
Uma colônia de abelhas pode mudar o cardápio quando o problema está dentro do ninho. Foi isso que pesquisadores observaram ao oferecer, durante cinco dias, duas opções de néctar a mamangavas da espécie Bombus terrestris: uma comum e outra misturada com quercetina, composto natural encontrado em flores. Depois da exposição a um fungo que mata larvas, as abelhas passaram a visitar mais as flores com a substância e a permanecer mais tempo nelas.
O resultado, publicado em 27 de agosto de 2026 na revista Royal Society Open Science, não prova de forma definitiva que os insetos estejam se medicando. Mas fornece evidências de um comportamento compatível com a chamada automedicação social, quando indivíduos buscam uma substância que pode ajudar outros membros do grupo, neste caso, a cria.
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A escolha mudou quando o fungo ameaçou as larvas
O experimento foi conduzido com colônias saudáveis e com grupos expostos a dois agentes diferentes. Um deles foi o fungo Ascosphaera apis, associado à doença conhecida como chalkbrood, que atinge principalmente as larvas de abelhas. O outro foi a bactéria Serratia marcescens, capaz de infectar o intestino de abelhas adultas.
Em vez de depender apenas da observação em um jardim, a equipe utilizou flores robóticas. Os dispositivos permitiram controlar a oferta de néctar, registrar as visitas e medir quanto tempo cada abelha permanecia se alimentando. Assim, os cientistas conseguiram separar uma preferência espontânea de uma possível resposta ao contato com patógenos.
Segundo o estudo publicado na Royal Society Open Science, colônias de Bombus terrestris expostas ao fungo Ascosphaera apis aumentaram progressivamente a procura por néctar com quercetina ao longo dos cinco dias de observação.
Por que a quercetina entrou no centro do teste
A quercetina é um flavanol, uma substância produzida naturalmente por plantas e presente em diferentes tipos de néctar. Pesquisas anteriores já haviam associado o composto a uma atividade antimicrobiana contra bactérias Gram-positivas e Gram-negativas, fungos e vírus.
Para um animal saudável, porém, consumir uma substância com possível efeito medicinal pode ter um custo. Compostos desse tipo podem ser tóxicos em excesso ou oferecer menos valor nutricional do que uma fonte comum de alimento. Por isso, a hipótese dos pesquisadores era que as abelhas só aumentariam o consumo quando houvesse uma pressão causada por doença.
Foi exatamente essa diferença que apareceu no grupo atingido pelo fungo. As colônias saudáveis não mudaram de maneira semelhante a preferência pelo néctar enriquecido. O comportamento também não se repetiu entre as colônias expostas à bactéria.
O fungo e a bactéria produziram respostas diferentes
A ausência de mudança no grupo com Serratia marcescens é uma das pistas mais importantes do estudo. Como essa bactéria afeta diretamente o sistema digestivo das abelhas adultas, qualquer benefício obtido com a quercetina poderia depender do consumo pelo próprio indivíduo infectado, e não de uma coleta feita por toda a colônia.
Já o fungo Ascosphaera apis ataca as larvas, que não deixam o ninho para buscar alimento. As operárias adultas, responsáveis pelo forrageamento, podem ter aumentado a coleta do néctar com quercetina para levá-lo à colônia. Essa hipótese é chamada pelos pesquisadores de medicação social.
Em outras palavras, a abelha que visita a flor talvez não esteja tentando tratar o próprio corpo. Ela pode estar alterando o abastecimento do ninho diante de uma ameaça que atinge a próxima geração. A diferença entre os dois patógenos sugere que a identidade do agente infeccioso influencia a maneira como a colônia modifica seu comportamento.
O que a descoberta ensina sobre os insetos sociais
A zoofarmacognosia é a área que investiga como animais usam recursos naturais para aliviar infecções, combater parasitas ou reduzir outros problemas de saúde. O comportamento já foi estudado em diferentes espécies, mas observar uma resposta coletiva em insetos sociais ajuda a ampliar a discussão sobre como uma colônia toma decisões.
Abelhas não funcionam apenas como indivíduos isolados. A sobrevivência depende da divisão de tarefas entre operárias, da proteção das larvas e da circulação de alimento dentro do ninho. Uma mudança no forrageamento, portanto, pode revelar uma estratégia de defesa que não aparece quando se observa somente a saúde de uma abelha.
As flores robóticas também são uma contribuição metodológica. Ao controlar quantidade, composição e localização do alimento, os equipamentos tornam mais precisa a comparação entre grupos. O recurso pode ser usado em novos testes sobre doenças, mudanças ambientais e decisões alimentares de polinizadores.
Por que isso importa para o Pará
O estudo não foi realizado no Pará e não avaliou espécies de abelhas amazônicas. Ainda assim, a descoberta ajuda a explicar por que a conservação de polinizadores depende de mais do que a oferta de flores. A qualidade do néctar, a presença de compostos naturais e a exposição a fungos e bactérias também podem influenciar a saúde das colônias.
Na Amazônia e na Grande Belém, abelhas nativas participam da reprodução de plantas silvestres e de cultivos. Conhecer como diferentes espécies escolhem recursos diante de doenças pode contribuir, no futuro, para estratégias mais cuidadosas de manejo, especialmente em áreas agrícolas, quintais produtivos e espaços urbanos com jardins para polinizadores.
O artigo apresenta os resultados como indícios, não como uma confirmação final de automedicação. Ainda é necessário entender se a quercetina realmente reduz a infecção nas larvas, em que quantidade ela chega ao ninho e quais custos o consumo pode trazer para as abelhas. A continuidade de experimentos deverá testar se a mudança observada melhora de fato a sobrevivência da colônia.
Dúvidas comuns sobre o experimento
As abelhas foram treinadas para escolher a quercetina?
Não. As colônias tiveram acesso livre às flores robóticas com néctar comum e néctar contendo quercetina durante cinco dias. A mudança de preferência foi observada depois da exposição aos patógenos.
O estudo mostra que abelhas usam remédios como os humanos?
Não. A pesquisa identificou um padrão de escolha alimentar compatível com automedicação, mas os autores tratam a interpretação como uma possibilidade. O próximo passo é verificar se o composto realmente reduz os efeitos do fungo sobre a cria.
O estudo completo, intitulado “Hints of self-medication? Pathogen exposure-dependent foraging decisions of bumblebees”, pode ser consultado na publicação científica da Royal Society Open Science.
Com informações de Royal Society Open Science.
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