
Entrevista com o apresentador Noam Hassenfeld mostra por que mistérios insolúveis também ajudam a avançar o conhecimento.
Neste artigo
Uma bicicleta parece um dos objetos mais simples da vida cotidiana, mas ainda serve de exemplo para uma pergunta que a ciência não consegue explicar de forma completa e simples: por que ela permanece em equilíbrio enquanto se move? A dúvida aparece ao lado de questões muito maiores, como a origem do universo, o começo da vida e a natureza da consciência, em uma reflexão publicada pela Scientific American em 15 de setembro de 2026.
O ponto central não é dizer que a ciência fracassou. É mostrar que o conhecimento avança justamente quando identifica com precisão o que ainda não consegue explicar. Essa perspectiva está no centro do podcast Unexplainable, produzido pela Vox e apresentado por Noam Hassenfeld, que investiga mistérios científicos sem transformar a falta de respostas definitivas em espetáculo.
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O desconhecido também está nas coisas comuns
O programa começou no início de 2021, durante a pandemia, período marcado por discussões públicas sobre como a ciência funciona e sobre o que se pode esperar dela. Hassenfeld afirma que a proposta foi tratar cientistas como pessoas sujeitas a erros, dúvidas e limitações, sem esconder as incertezas do processo.
Essa abordagem desloca o mistério do espaço profundo para situações próximas. Entre os episódios citados estão investigações sobre o motivo pelo qual seres humanos choram, se as plantas conseguem enxergar, como seria o som do silêncio e por que algumas pessoas não conseguem arrotar. A pergunta sobre bicicletas também aparece como exemplo de um problema técnico que parece resolvido apenas porque o objeto faz parte da rotina.
“It’s very easy to go throughout your day and not confront that basic fact that almost everything everywhere is unknown”, disse Noam Hassenfeld à Scientific American. Em tradução livre, a frase resume a ideia de que a familiaridade com o cotidiano pode esconder a dimensão real das lacunas científicas.
Quando a resposta pode estar fora do alcance
Alguns mistérios podem ser resolvidos com novos instrumentos, observações mais precisas ou teorias capazes de reorganizar informações já conhecidas. Outros talvez dependam de condições que a humanidade nunca consiga reproduzir.
Um dos exemplos discutidos pelo apresentador é a hipótese de que todo o universo observável esteja dentro de um buraco negro. Para investigar uma possibilidade desse tipo, seria necessário observar o exterior da estrutura, algo incompatível com a própria definição de um buraco negro. Um cientista ouvido pelo podcast chegou a mencionar, de maneira hipotética, um acelerador de partículas que desse a volta na Lua como uma possibilidade extrema de testar certas ideias.
Segundo a Scientific American, a conversa com Hassenfeld foi publicada em 15 de setembro de 2026 como parte do pacote especial “Impossible Questions”, dedicado a problemas científicos que podem nunca receber uma resposta definitiva.

O tamanho daquilo que ainda não sabemos
A sensação de que a humanidade conhece bastante pode mudar quando a escala é ampliada. O material destaca que menos de um terço do fundo dos oceanos foi mapeado e que os pesquisadores ainda não compreendem completamente como funciona o olfato. Também permanece aberta a possibilidade de ter existido uma espécie tecnológica antes dos seres humanos, milhões de anos atrás, sem que seus vestígios tenham sido identificados.
Na cosmologia, a distância entre o conhecido e o desconhecido é ainda maior. Cerca de 95% do universo é associado à matéria escura e à energia escura, componentes cuja natureza continua sem explicação completa. A matéria comum, formada por estrelas, planetas, seres vivos e tudo o que pode ser observado diretamente, representa apenas uma parcela do conteúdo cósmico.
Esses números não significam que as teorias atuais sejam inúteis. Eles indicam que os modelos científicos descrevem bem determinadas partes da realidade, mas ainda não explicam todos os fenômenos. A ciência constrói conhecimento por aproximações, testes e revisões, não por uma resposta única capaz de encerrar todas as dúvidas.
O limite ético também faz parte da pesquisa
Nem toda pergunta deve ser perseguida sem restrições. A entrevista cita o desenvolvimento da bomba atômica como exemplo de uma descoberta com consequências destrutivas, embora o mesmo conhecimento relacionado à energia nuclear também tenha permitido aplicações civis e produção de energia sem emissão direta de carbono durante a geração.
Outro limite aparece nas pesquisas sobre reprodução assistida e seleção de embriões. A busca por reduzir o risco de doenças pode se transformar em uma tentativa de escolher características como altura, sexo ou cor dos olhos. O problema, nesse caso, não é apenas técnico. A vontade de eliminar toda incerteza pode produzir decisões discriminatórias e ultrapassar fronteiras éticas importantes.
Essa discussão também interessa ao Pará. Em um estado marcado pela presença da Amazônia, de rios extensos e de áreas costeiras, perguntas sobre biodiversidade, clima, oceanos e funcionamento dos ecossistemas têm impacto direto sobre pesquisa, saúde, produção e vida urbana na Grande Belém. Reconhecer o que ainda não foi explicado ajuda a separar evidência científica de opinião, especialmente em temas ambientais que afetam o cotidiano regional.
O que a dúvida ensina
Para Hassenfeld, admitir a ignorância não reduz o valor da ciência. Ao contrário, torna mais visível o esforço acumulado por pesquisadores ao longo de gerações. Cada resposta abre novos problemas, e muitas perguntas consideradas impossíveis no passado foram reformuladas ou resolvidas depois do surgimento de novas ferramentas.
O podcast transformou essa ideia em episódios sobre temas que vão da origem da vida à estrutura das células humanas. O leitor pode ouvir, por exemplo, o episódio sobre a natureza da matéria escura ou a discussão sobre o tamanho do universo.
A próxima etapa desse debate está menos em encontrar uma resposta final para todas as questões e mais em ampliar os instrumentos, os dados e a responsabilidade usados para investigar cada uma delas. Enquanto isso, novos estudos e futuras gerações de pesquisadores devem continuar deslocando os limites do que hoje parece impossível de explicar.
Com informações de Scientific American.
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