
Experiência com governos, empresas e comunidades defende que Pará e outras regiões adotem soluções alinhadas às próprias vocações.
Neste artigo
O desafio da economia circular no Brasil deixou de ser apenas convencer empresas e governos sobre a importância do tema. A nova etapa é fazer a agenda funcionar na prática, com orçamento, responsáveis, indicadores e soluções ajustadas a cada região. Essa mudança de foco ganhou força após os Fóruns Regionais de Economia Circular mobilizarem cerca de 11 mil pessoas no Nordeste e ampliarem a discussão para outros territórios, incluindo o Pará.
A iniciativa é liderada por Liu Berman, responsável pela construção dos fóruns e à frente do Instituto Reinventando Futuros. A proposta reúne governos, empresas, universidades, organizações locais e comunidades para transformar diretrizes nacionais em ações permanentes, considerando as diferenças econômicas, sociais e produtivas de cada lugar.
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Do debate nacional para a realidade de cada território
Segundo a pesquisa “A economia circular está no DNA das indústrias brasileiras”, da Confederação Nacional da Indústria, 57% das empresas do país adotam pelo menos uma prática relacionada à economia circular em 2026. O dado mostra que o conceito já aparece no cotidiano de parte do setor produtivo, mas também revela que a expansão ainda depende de condições que muitas empresas não conseguem resolver sozinhas.
Entre os obstáculos citados estão a baixa demanda por produtos circulares, as dificuldades de financiamento e a necessidade de incorporar novas tecnologias. A transição também exige infraestrutura, políticas públicas e articulação entre diferentes setores. Sem esses elementos, iniciativas pontuais podem existir, mas têm dificuldade para se transformar em cadeias econômicas duradouras.
Segundo a Confederação Nacional da Indústria, 57% das empresas brasileiras adotavam ao menos uma prática de economia circular em 2026, enquanto a falta de demanda, o financiamento e a tecnologia apareciam entre os principais entraves à ampliação desse modelo.

Por que o mesmo modelo não serve para todo o país
Para Liu Berman, uma política nacional pode estabelecer uma direção comum, mas não deve impor uma fórmula única. A estrutura industrial, a logística, a infraestrutura e a capacidade de articulação variam entre estados e municípios. Por isso, o ponto de partida precisa ser o levantamento dos ativos já existentes, das cadeias econômicas e dos gargalos locais.
“O Brasil avançou bastante na construção de uma direção para a economia circular, o desafio agora é transformar essa direção em capacidade real de implementação. E isso exige algumas coisas muito concretas: governança, orçamento, responsáveis, indicadores e articulação entre os diferentes atores. Mas tem um ponto que, para mim, é central: essa implementação precisa considerar as diferenças territoriais. Uma política nacional pode orientar o país, mas ela não pode chegar da mesma forma a todos os lugares”, explica Liu.
Na prática, o caminho pode ser diferente em cada região. Em alguns territórios, a prioridade tende a estar na indústria, na logística reversa e na gestão de resíduos. Em outros, a circularidade pode se relacionar mais diretamente à bioeconomia, ao turismo comunitário, ao artesanato, à economia popular e solidária ou aos conhecimentos tradicionais.
O Pará aparece nesse debate ao lado de Ceará, Alagoas e São Paulo como exemplo de estado com estrutura econômica, cadeias produtivas e capacidades instaladas próprias. A conexão com a economia circular, portanto, precisa considerar as vocações paraenses e não apenas reproduzir soluções criadas para centros industriais ou regiões com infraestrutura diferente.
O que os fóruns já conseguiram reunir
Nas duas últimas edições do FNEC, foram reunidos mais de 350 painelistas, entre gestores públicos, lideranças comunitárias e representantes internacionais. A programação ultrapassou 300 horas e ajudou a aproximar setores que normalmente participam da agenda ambiental e econômica em espaços separados.
A mobilização de aproximadamente 11 mil pessoas no Nordeste é apresentada como uma base para a próxima fase da iniciativa. A intenção agora é evitar que os encontros terminem quando a programação acaba. Para isso, os fóruns devem avançar como espaços de articulação, com prioridades definidas, divisão de responsabilidades e continuidade entre as reuniões.

“Governo, empresas, academia, organizações locais e comunidades têm papéis, interesses e capacidades diferentes. O desafio é construir um espaço em que essas diferenças consigam se transformar em complementaridade. E isso exige governança. Exige clareza sobre quem pode contribuir com o quê, quais são as prioridades comuns e como aquela articulação continua depois do encontro”, destaca a especialista.
Resíduos, bioeconomia e inovação entram na mesma conversa
Uma das características da experiência regional é aproximar a economia circular de outras agendas. O tema pode se conectar ao desenvolvimento econômico, à bioeconomia, à economia criativa, ao turismo, à inovação e à gestão de resíduos. Essa integração amplia o número de atores envolvidos e permite que soluções sejam construídas a partir de atividades já existentes.
No caso do Pará, essa abordagem é especialmente relevante porque evita reduzir a economia circular ao tratamento de resíduos industriais. A discussão pode incluir cadeias baseadas em recursos naturais, produção comunitária, reaproveitamento de materiais, valorização de saberes locais e novos modelos de negócio, desde que cada iniciativa seja adequada às condições do território.
A tecnologia também faz parte dessa transição. Inteligência artificial, dados, plataformas digitais e sistemas de rastreabilidade podem melhorar a eficiência, acompanhar cadeias produtivas e facilitar a criação de mercados. Mas a avaliação dos fóruns indica que a inovação não começa necessariamente por uma ferramenta.
“Talvez o maior desafio seja parar de perguntar apenas qual tecnologia precisamos criar e começar a perguntar que problema queremos resolver e quais capacidades já existem no território para isso”, afirma Liu Berman.
O que ainda precisa sair do papel
A principal dificuldade está em transformar adesão e boas ideias em resultados mensuráveis. Isso exige instrumentos financeiros, infraestrutura, políticas públicas coordenadas e mecanismos para acompanhar metas. Também será necessário definir quem conduz cada etapa e como empresas, governos, universidades e organizações comunitárias participam das decisões.
O risco apontado pela especialista é a criação de muitos espaços de conversa sem mecanismos de continuidade. A economia circular depende de cooperação prolongada, porque mudanças em produção, consumo, reaproveitamento e logística não se consolidam em um único evento.
Com a expansão da experiência para outras regiões, a próxima etapa será identificar capacidades, gargalos e prioridades de cada território antes de definir as ações. É esse processo que deve orientar a implementação da agenda no Pará e nos demais estados envolvidos.
Com informações de Instituto Reinventando Futuros.
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