
Nas estradas que ligam cidades do interior do Pará à capital, uma tradição reúne fé, preparo físico, amizade e solidariedade. Todos os anos, promesseiros percorrem quilômetros a pé em uma jornada marcada pela devoção a Nossa Senhora de Nazaré. Essa história, construída ao longo de mais de três décadas, ganhou registro no livro Caminhadas de Fé: Caminhando com Maria, dos autores José Maria Melo da Silva e Carumairá Corrêa Gabriel.
Neste artigo
A obra foi lançada durante o I Congresso de Educação Física da Unama e apresenta a trajetória de um movimento que começou com uma promessa pessoal e, ao longo dos anos, transformou-se em uma experiência coletiva de espiritualidade, resistência física e participação comunitária.
Uma promessa que deu origem a uma tradição
A história começou em 1988, quando José Maria Melo da Silva, farmacêutico, fez uma promessa religiosa após a recuperação da mobilidade de um primo. O compromisso foi cumprido no ano seguinte, quando ele realizou a primeira caminhada a pé pela rodovia.
Mosqueiro: Prefeito entrega 10 km de estrada na Baía do Sol
Terra Firme recebe obras do 'Viva Bairro' e Viela Santo Antônio será urbanizada
Durante o percurso, José Maria reencontrou o amigo Gil Corrêa e o parceiro Carumairá, que também carregava uma promessa relacionada à devoção mariana. O encontro entre essas histórias pessoais ajudou a formar o grupo Caminhada de Fé, criado em 1989.
Naquele primeiro momento, eram apenas cinco participantes dispostos a enfrentar a estrada entre Castanhal e Belém. O que parecia uma experiência restrita a poucos promesseiros ganhou força com o passar dos anos e passou a reunir pessoas de diferentes comunidades.
Hoje, a caminhada já chegou a reunir cerca de cem promesseiros ativos, consolidando-se como uma manifestação de fé presente no calendário devocional paraense.
Quando caminhar exigia ainda mais resistência
Os primeiros anos foram marcados por dificuldades que hoje podem parecer distantes da realidade de quem participa da peregrinação. Não havia celulares para comunicação imediata, aplicativos de localização ou os recursos tecnológicos disponíveis atualmente.
A segurança dos participantes dependia principalmente da atenção dos familiares e apoiadores. Eles percorriam trechos das estradas para localizar os caminhantes, oferecer água, alimentação e auxílio diante de situações provocadas pelo calor intenso, pelas chuvas e pelo desgaste físico.
A experiência também exigia disposição para enfrentar longas distâncias sobre o asfalto. O preparo físico passou, então, a ocupar um espaço importante dentro da organização da caminhada.
Mais do que simplesmente colocar os pés na estrada, era necessário compreender os limites do próprio corpo, organizar o ritmo e preparar-se para as condições climáticas características da região amazônica.
Fé, corpo e mente no mesmo caminho
Um dos aspectos abordados pela obra é justamente a relação entre atividade física, equilíbrio emocional, convivência social e espiritualidade.
A caminhada coloca o corpo diante de um esforço prolongado, mas também exige concentração e resistência psicológica. Quando o cansaço aparece, manter o ritmo pode depender tanto da preparação física quanto da motivação individual e do apoio oferecido pelos companheiros.
Nesse contexto, a fé aparece como uma dimensão importante da experiência dos participantes. Para os autores, a espiritualidade ajuda a compreender a caminhada para além de uma atividade física, especialmente porque muitos participantes carregam histórias pessoais, agradecimentos e promessas.
A proposta do livro é aproximar essa vivência dos estudos relacionados ao movimento humano, mostrando que uma peregrinação pode envolver diferentes dimensões da experiência humana.
Solidariedade que ultrapassa a estrada
Outro elemento que ganhou espaço na trajetória do grupo foi a solidariedade. A rede formada para apoiar os caminhantes também passou a produzir ações em benefício das comunidades encontradas pelo caminho.
Entre os exemplos citados estão iniciativas assistenciais voltadas para crianças na localidade de Inhangapi. Dessa forma, a caminhada deixou de representar apenas um percurso entre duas cidades e passou a estabelecer vínculos com as comunidades do entorno.
O apoio aos promesseiros também fortaleceu relações de amizade e colaboração entre famílias, moradores e participantes.
Memória de uma manifestação paraense
Ao registrar essa trajetória, Caminhadas de Fé: Caminhando com Maria preserva histórias que poderiam se perder com o passar das gerações. São relatos de pessoas que transformaram promessas individuais em uma experiência compartilhada.
A caminhada entre Castanhal e Belém, nesse sentido, representa mais do que quilômetros percorridos. Ela reúne devoção, esforço físico, resiliência, amizade e solidariedade em uma manifestação ligada à cultura e à religiosidade paraense.
Para quem participa, cada passo carrega um significado próprio. Para a comunidade, a permanência dessa tradição revela como a fé pode também criar redes de convivência e ações coletivas.
Ao chegar às estradas amazônicas todos os anos, os promesseiros renovam uma história iniciada no fim dos anos 1980. Uma história que continua sendo construída passo a passo, mantendo viva a devoção a Nossa Senhora de Nazaré e uma tradição que já faz parte da memória cultural do Pará.
Fotos/Vídeos: Flavio Contente/Pará+
SAIBA MAIS, ASSISTA AS INTREVISTAS.
https://youtube.com/shorts/ggVrDBK4KLM?feature=share
Mais Lidas
- Círio 2026 terá 27 pontos de apoio para romeiros e cadastro inclui grupo que pedalará 2.300 km
- Peixe frito recebe posta gelada, derruba a temperatura do óleo e fica encharcado antes da crosta firmar
- Duas pimentas da feira parecem iguais, mas murupi e pimenta de cheiro mudam a ardência do molho e da conserva
- Mingau de tapioca engrossa por 10 minutos após o fogo e retirar mais líquido evita uma tigela pesada
- Maré percorre centenas de quilômetros pelos rios de Belém, sobe duas vezes ao dia e altera alagamentos e navegação
O Google lançou as Fontes Preferenciais: você escolhe os veículos que aparecem com prioridade. Adicione o Pará+ e garanta a nossa cobertura sempre em destaque.
⭐ Adicionar Pará+ como Fonte PreferencialComo funciona em 3 passos:
- Pesquise qualquer assunto no Google
- Toque no ⭐ ao lado de “Principais Notícias”
- Busque Pará+ e marque a caixa — pronto!




