
Jim Al-Khalili usa o Royal Observatory Greenwich para discutir se o tempo existe por si só ou nasce da forma como percebemos o universo.
Neste artigo
Olhar para um relógio costuma dar a impressão de que o tempo é uma espécie de rio invisível, correndo no mesmo ritmo para todos. A física, porém, transformou essa certeza cotidiana em uma das perguntas mais difíceis da ciência. Em um vídeo produzido pela New Scientist no Royal Observatory Greenwich, o físico e escritor Jim Al-Khalili examina por que passado, presente e futuro ainda não têm uma explicação única.
O local escolhido para a conversa não é um detalhe decorativo. O observatório abriga o ponto associado ao Primeiro Meridiano, referência histórica usada para organizar longitudes e horários no planeta. Dali, a discussão sai do relógio e chega a perguntas muito maiores: o tempo é uma propriedade real do universo ou apenas uma forma humana de ordenar acontecimentos?
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O relógio mede o tempo, mas não resolve o enigma
Na vida diária, o tempo parece simples. Há um antes, um agora e um depois. Marcamos compromissos, calculamos distâncias e acompanhamos o envelhecimento observando essa sequência. Para a ciência, no entanto, medir a passagem das horas não significa necessariamente compreender o que o tempo é.
Essa diferença aparece quando a conversa entra na teoria da relatividade de Albert Einstein. Nesse modelo, espaço e tempo não são caixas separadas. Eles formam uma estrutura conjunta, o espaço-tempo, que pode ser afetada pelo movimento e pela gravidade. O resultado é uma mudança importante: dois observadores podem não concordar exatamente sobre a duração de um intervalo, ainda que ambos façam medições corretas.
Isso não significa que os relógios estejam simplesmente errados. Significa que a passagem do tempo depende das condições em que cada observador se encontra. A ideia contraria a experiência comum, mas é justamente por isso que se tornou central para a física moderna.
Por que existe uma direção do tempo?
Outra parte da discussão apresentada por Al-Khalili é a chamada seta do tempo. Nós nos lembramos do passado, mas não do futuro. Um copo que cai pode se quebrar em muitos pedaços, enquanto ninguém espera ver os fragmentos se juntarem sozinhos sobre a mesa. Essa assimetria parece evidente no cotidiano, mas sua origem exige uma explicação física.
O conceito de entropia costuma aparecer nesse ponto. Em linguagem simples, ela ajuda a descrever como sistemas tendem a caminhar para estados mais prováveis e desordenados. A ideia oferece uma pista para explicar por que percebemos uma direção no tempo, embora não encerre todas as dúvidas sobre a relação entre as leis fundamentais da natureza e a experiência humana.
Segundo a New Scientist, no vídeo gravado no Royal Observatory Greenwich, Jim Al-Khalili relaciona a discussão sobre o tempo à relatividade, à entropia e às origens do universo. Esses três temas aparecem conectados porque qualquer explicação completa precisaria dizer não apenas como o tempo é medido, mas também por que o cosmos apresenta uma história com começo, transformação e evolução.
Passado, presente e futuro podem coexistir?
Uma das hipóteses mais provocadoras discutidas no material é a possibilidade de que passado, presente e futuro existam de alguma maneira ao mesmo tempo. Essa interpretação costuma ser associada à ideia de um universo em bloco, no qual os eventos formam uma estrutura completa, em vez de surgirem um após o outro em um presente que se desloca.
O conceito não autoriza concluir que uma pessoa possa visitar qualquer época ou alterar livremente acontecimentos. Ele é uma maneira de interpretar o que as equações da relatividade permitem descrever. A experiência de um presente que avança continua sendo parte essencial da vida humana, mesmo quando alguns modelos matemáticos apresentam o tempo de uma forma menos intuitiva.
É nesse ponto que surge a viagem no tempo. A física especula sobre situações extremas envolvendo espaço, velocidade e gravidade, mas uma possibilidade matemática não equivale a uma tecnologia disponível. O vídeo trata o assunto como uma questão aberta dentro dos grandes problemas da física, sem transformar hipótese em promessa.
O que essa discussão tem a ver com quem vive no Pará?
Para um leitor em Belém, a discussão pode parecer distante, restrita a observatórios europeus e fórmulas de relatividade. Mas o tempo organizado em relógios está presente em decisões muito concretas: horários de aulas, funcionamento do comércio, partidas de barcos, voos, consultas e transmissões ao vivo.
O próprio observatório escolhido para a gravação ajuda a aproximar o tema da rotina. O meridiano é uma referência espacial, enquanto os relógios transformam a rotação da Terra em uma convenção compartilhada. Em outras palavras, o horário usado em Belém permite coordenar atividades locais e se conectar com pessoas em outras partes do país e do mundo, mesmo quando os relógios marcam horas diferentes.
Essa organização também mostra a diferença entre o tempo da experiência e o tempo usado como padrão. O primeiro é percebido pelo corpo, pela memória e pelas mudanças do ambiente. O segundo é uma ferramenta de coordenação. A física acrescenta uma terceira camada, na qual duração e simultaneidade podem depender do movimento e da gravidade.
Uma pergunta que permanece aberta
O interesse do conteúdo não está em oferecer uma resposta definitiva, mas em mostrar por que o problema continua vivo. A ciência já construiu maneiras extremamente precisas de medir intervalos e descrever movimentos, porém ainda debate se o tempo é um elemento fundamental da realidade ou se surge de relações mais profundas entre matéria, espaço, informação e mudança.
Jim Al-Khalili apresenta essa investigação a partir de seu livro On Time, em uma conversa que combina história da ciência, relatividade e cosmologia. A escolha do Royal Observatory Greenwich reforça a passagem entre duas escalas: a dos relógios que organizam a sociedade e a do universo, onde a noção de tempo se torna menos familiar.
Os próximos avanços dependerão de novas teorias e de observações capazes de aproximar a relatividade de outras descrições fundamentais da natureza. Até lá, cada relógio continuará respondendo à pergunta “que horas são?”, enquanto a física seguirá tentando responder algo mais difícil: o que, exatamente, significa dizer que o tempo passa?
Com informações de New Scientist.
Respostas rápidas sobre o tempo na física
O tempo é considerado uma realidade ou uma ilusão?
Não há consenso definitivo. A relatividade descreve o tempo como parte do espaço-tempo, enquanto outras interpretações investigam se ele pode surgir de relações mais básicas da natureza.
O que a entropia tem a ver com a passagem do tempo?
A entropia ajuda a explicar por que percebemos uma direção temporal, associada à tendência de sistemas caminharem para estados mais prováveis. Essa explicação é importante, mas não resolve todos os aspectos do problema.
As viagens no tempo já são possíveis?
Não existe tecnologia capaz de levar pessoas ao passado ou ao futuro como nos filmes. A física discute cenários teóricos, mas eles não devem ser confundidos com uma possibilidade prática disponível.
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