O Rio Tapajós, em Santarém (PA), tornou-se o epicentro de uma mudança histórica na infraestrutura brasileira. Após 33 dias de mobilização de 1.200 indígenas de 14 etnias, que culminou na ocupação do terminal da Cargill, o Governo Federal revogou o Decreto 12.600/2025. A decisão marca o fim da era dos “atalhos administrativos” e impõe um novo desafio: é possível conciliar uma hidrovia de classe mundial com a sobrevivência de um ecossistema único?

Para o morador da região e para o investidor internacional, a mensagem é a mesma: o custo da instabilidade social superou o lucro da pressa. O modelo anterior, focado em privatizações aceleradas, colapsou diante da resistência local e de barreiras judiciais. Agora, a bacia do Tapajós entra em uma fase de “governança profunda”, onde a licença ambiental não é apenas um papel, mas um acordo de convivência.
A ciência por trás das águas claras
Diferente do barrento Rio Madeira, o Tapajós é um rio de “águas claras”, extremamente sensível a intervenções humanas. Projetos de engenharia que prevêem a dragagem e o derrocamento (explosão de rochas submersas) enfrentam um dilema físico. Ao remover esses “freios” naturais do rio, a velocidade da água aumenta drasticamente.
O resultado? Um fenômeno conhecido como “terras caídas”. A água mais rápida devora as margens, destruindo plantações de subsistência e casas de comunidades ribeirinhas. Além disso, o fundo do rio esconde um inimigo silencioso: o mercúrio acumulado de décadas de garimpo. Remexer esse solo pode desencadear uma crise de saúde pública, contaminando os peixes que são a base da dieta amazônica.
O peso da eficiência: Barcaças vs. Caminhões
Apesar dos riscos, a lógica econômica da hidrovia permanece poderosa. Em termos de custos e emissões, o rio é imbatível frente ao asfalto.
| Modal de Transporte | Capacidade (ton) | Consumo de Combustível* |
| Rodoviário (Bitrem) | 40 – 50 | 15,0 Litros |
| Hidroviário (Comboio) | 35.000 | 4,2 Litros |
| *Consumo estimado por 1.000 TKU. |
Um único comboio de barcaças substitui quase 900 caminhões na BR-163. O desafio da nova gestão é implementar a “Hidrovia de Baixo Impacto”: usar sensores de satélite para navegar nos canais naturais em vez de tentar moldar o rio à força bruta da engenharia.
Consulta prévia: De obstáculo a garantia jurídica
A soberania dos povos Munduruku e de outras etnias da região deixou de ser uma pauta ativista para se tornar uma métrica de risco financeiro (ESG). Sem o consentimento das comunidades, os projetos tornam-se “ativos tóxicos”, incapazes de captar recursos no mercado europeu ou na OCDE.
O novo plano de governança propõe que o lucro do escoamento de grãos financie diretamente as cidades impactadas. A ideia é criar um fundo abastecido por taxas de uso da hidrovia para pagar por saneamento básico em Itaituba e programas de saúde em Santarém.
O Caminho à frente
A transição para o modelo de licenciamento comum (EIA/RIMA) é mais lenta, mas oferece a segurança que o modelo simplificado não deu. O Tapajós agora é o laboratório global para uma pergunta urgente: pode a Amazônia ser um corredor logístico de alta performance sem perder sua integridade física e cultural? A resposta definirá o futuro das exportações brasileiras na próxima década.


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