Regeneração natural ganha força em Paragominas

No sudeste do Pará, a paisagem carrega marcas profundas da mineração e da expansão agropecuária. Ao mesmo tempo, essa mesma região se tornou um dos principais laboratórios de restauração ambiental do país. O desafio é gigantesco: recompor solos, restabelecer corredores ecológicos, devolver funcionalidade à floresta e, simultaneamente, gerar renda e estabilidade econômica.

Em Paragominas, onde a extração de bauxita ocorre a céu aberto, empresas como a Hydro Paragominas incorporaram a restauração como etapa obrigatória do ciclo produtivo. O processo começa com a recomposição topográfica das áreas mineradas. Em seguida, o solo superficial, conhecido como topsoil, é redistribuído. Esse material é rico em sementes, microrganismos e matéria orgânica, funcionando como uma espécie de cápsula de memória ecológica do território.

Duas estratégias principais são aplicadas. A primeira é o plantio de mudas, que pode reunir até 140 espécies nativas diferentes. A diversidade é a chave: quanto maior o número de espécies, maior a chance de reconstruir rapidamente o sombreamento e a dinâmica natural da floresta. A segunda técnica é a condução da regeneração natural, que aproveita o banco de sementes já presente no solo e a dispersão vinda de fragmentos florestais próximos.

Estudos conduzidos na região mostram que, após sete anos, áreas conduzidas por regeneração natural podem apresentar recuperação expressiva de atributos do solo, como aumento da matéria orgânica e melhoria na infiltração de água. Em alguns casos, essa técnica se mostrou mais eficiente do que o plantio convencional, especialmente quando o entorno ainda mantém fragmentos florestais capazes de abastecer a área com sementes e fauna dispersora.

Em Carajás, no âmbito do Complexo S11D Eliezer Batista, operado pela Vale, a restauração tem outro foco: reconectar a paisagem. A criação de corredores ecológicos entre fragmentos florestais busca garantir o fluxo de espécies e o equilíbrio do ecossistema. Durante a supressão vegetal necessária à mineração, mudas são resgatadas e posteriormente transplantadas para áreas destinadas à recomposição. Cercamentos e aceiros contra incêndio completam a estratégia de proteção.

No entorno da Floresta Nacional de Carajás, projetos conduzidos em parceria com a Universidade Federal Rural da Amazônia utilizam espécies como a castanheira para fortalecer a estabilidade ecológica. O retorno de predadores de topo de cadeia, registrado em programas de monitoramento de fauna, indica que a restauração começa a reativar processos ecológicos complexos.

Pastagens degradadas e nova matriz produtiva

A restauração no sudeste paraense não se limita às áreas mineradas. A expansão da pecuária deixou um passivo ambiental significativo, com milhões de hectares de pastagens degradadas. A transformação desse cenário exige estratégias variadas e adaptadas às condições locais.

A Embrapa tem defendido três caminhos principais. O primeiro é a renovação direta da pastagem, com adubação fosfatada e reintrodução de sementes de capim mais adaptadas. Em Marabá, o uso do capim andropógon mostrou bons resultados em áreas dominadas por ervas daninhas, recuperando a produtividade sem necessidade de abertura de novas áreas.

O segundo caminho é a implantação de sistemas agroflorestais, que integram árvores, culturas agrícolas e, em alguns casos, pecuária. O terceiro é o pousio, permitindo que a vegetação secundária se estabeleça naturalmente, formando capoeira que pode evoluir para estágios mais avançados de sucessão florestal.

Projetos como o InovaFlora atuam em municípios como Novo Repartimento, Itupiranga e Nova Ipixuna, apoiando agricultores familiares na adequação ambiental de suas propriedades. A proposta é transformar a restauração em ativo econômico, combinando recomposição de margens de rios com produção de alimentos e espécies comerciais. A lógica é simples: restaurar não pode significar perda de renda, mas oportunidade de diversificação produtiva.

Planejamento estadual e impacto econômico

A restauração no Pará deixou de ser apenas prática isolada de empresas e produtores. O Governo do Pará estruturou o Plano Estadual de Recuperação da Vegetação Nativa, que estabelece a meta de restaurar 5,65 milhões de hectares até 2030. Trata-se de uma das maiores iniciativas de recomposição florestal do país.

O volume de investimento estimado varia entre 39,7 bilhões e 45,9 bilhões de reais, dependendo das técnicas adotadas, como regeneração natural assistida, semeadura direta ou plantio total. Esse montante tem efeito multiplicador expressivo na economia regional. Projeções indicam geração de até 42,2 bilhões de reais em valor adicionado, com cerca de 87 por cento desse impacto permanecendo dentro do próprio estado.

A cadeia da restauração mobiliza viveiros de mudas, coleta de sementes, transporte, assistência técnica, cercamento e manutenção. A estimativa de remuneração aos trabalhadores pode chegar a 9,4 bilhões de reais, fortalecendo economias locais. A arrecadação tributária também cresce, impulsionada pela movimentação de insumos e serviços.

Há ainda o potencial de exploração econômica direta das áreas restauradas. Sistemas agroflorestais permitem o cultivo de açaí, cacau, castanha e madeiras tropicais de manejo sustentável. Em Paragominas, estudos apontam que a recuperação intensiva de pastagens pode gerar retorno financeiro de três a dez vezes superior ao modelo extensivo tradicional.

Além disso, a restauração amplia o acesso a mercados emergentes, como o de créditos de carbono. A recomposição dos 5,65 milhões de hectares pode sequestrar cerca de 700 milhões de toneladas de carbono até 2052, volume equivalente às emissões anuais da agropecuária brasileira em 2021. Esse potencial transforma floresta em ativo climático estratégico.

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Monitoramento e critérios de eficiência

A restauração, no entanto, não se resume a plantar árvores. O sucesso depende de monitoramento rigoroso e indicadores claros. Em Paragominas, pesquisadores definiram 13 indicadores para avaliar a eficiência das técnicas empregadas.

Entre os parâmetros estruturais estão o grau de cobertura do solo, a densidade de plantas, a diversidade de espécies medida pelo índice de Shannon, a área basal, a altura média das árvores e o acúmulo de serapilheira. Esses indicadores mostram se a floresta está formando sombra suficiente para conter erosão e inibir espécies invasoras.

Outros critérios analisam a trajetória ecológica: taxa de mortalidade, incremento em diâmetro, presença de espécies exóticas, ocorrência de espécies ameaçadas e vestígios de retorno da fauna. A presença de antas, veados e outros dispersores indica que a floresta volta a funcionar como ecossistema integrado.

Cada indicador recebe peso diferente conforme sua relevância para a consolidação da restauração. A soma das pontuações aproxima a área restaurada de um projeto ideal. Em avaliações comparativas, a condução da regeneração natural alcançou desempenho superior ao plantio de mudas em determinados contextos, embora ambas as estratégias sejam complementares.

Os desafios permanecem. Práticas inadequadas, como capinas excessivas ou disposição irregular de mudas, podem deixar o solo exposto e compactado, atrasando a sucessão ecológica. O planejamento espacial é determinante: áreas próximas a fragmentos remanescentes têm maior chance de sucesso pela disponibilidade de sementes e fauna.

No sudeste do Pará, restauração deixou de ser apenas obrigação legal. Tornou-se estratégia econômica, política pública e experimento científico em larga escala. Entre escavadeiras e viveiros, drones e corredores ecológicos, a região tenta provar que é possível reconstruir a floresta sem abandonar o desenvolvimento.