
Mostra em Belém reúne objetos sagrados, fotografias e relatos indígenas para reconstruir vínculos com territórios e memórias.
Neste artigo

Artefatos, fotografias, objetos sagrados e relatos indígenas vão ocupar o mezanino do Centro de Exposições Eduardo Galvão, em Belém, a partir de 26 de agosto de 2026. A exposição Katxar kum neero | Nossos lugares verdadeiros apresenta as histórias de retomada dos povos Katxuyana e Kahyana, marcadas por deslocamentos forçados desde a década de 1960, pela dispersão de famílias e pela retirada de objetos de seus territórios tradicionais.
Concebida e narrada pelos próprios povos, a mostra ficará aberta à visitação até 30 de abril de 2027, no Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi, no bairro de São Brás. A proposta é aproximar o público das memórias, dos conhecimentos e das relações territoriais que permaneceram vivas mesmo durante os períodos de afastamento físico.
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Uma história contada por quem viveu os deslocamentos
Os Katxuyana e os Kahyana passaram por processos de deslocamento que levaram grupos e famílias para longe de seus lugares de origem. Com as pessoas, também seguiram pertences, objetos cerimoniais e outros elementos de importância cultural, muitos deles incorporados a coleções de museus brasileiros e europeus.
A exposição parte da ideia de que o território nunca esteve vazio. Mesmo quando comunidades foram impedidas de permanecer em determinadas áreas, continuaram existindo vínculos com rios, antepassados, conhecimentos e modos próprios de habitar e cuidar do mundo. A mostra também reconhece a presença de outros yana, incluindo parentes que permanecem em isolamento e famílias que resistiram nos territórios.
Segundo o Museu Paraense Emílio Goeldi, a exposição será aberta em 26 de agosto de 2026, no Parque Zoobotânico da instituição, em Belém, como resultado de uma curadoria construída com participação direta dos povos Katxuyana e Kahyana.
Entenda o caso
As retomadas apresentadas na mostra não se limitam ao retorno físico a determinadas áreas. Elas envolvem a reconstrução de relações políticas, culturais, espirituais e familiares com os territórios tradicionais.
O processo também inclui a recuperação de memórias e o reencontro com peças preservadas em instituições científicas. Por isso, a exposição propõe uma reflexão sobre o papel dos museus e sobre a necessidade de transformar coleções etnográficas em espaços de diálogo, colaboração e reparação histórica.
O txama txama no centro da exposição
Um dos elementos centrais da mostra é o txama txama, artefato plumário de grande importância cosmológica e sociopolítica para os povos Katxuyana e Kahyana. O objeto é apresentado como um dispositivo de comunicação e diplomacia entre diferentes mundos, capaz de mediar relações entre seres humanos e outros seres da Terra.
A exposição reúne peças contemporâneas, produzidas e utilizadas atualmente pelos indígenas, além de itens pertencentes à Coleção Etnográfica do Museu Goeldi. Parte desse acervo foi coletada pelo pesquisador Protásio Frikel na década de 1960, período associado às mudanças e aos deslocamentos vividos pelos povos.

O reencontro entre os objetos e as comunidades é um dos principais eixos da iniciativa. A proposta é evidenciar que os artefatos não são apenas registros do passado, mas continuam relacionados a pessoas, lugares, conhecimentos e práticas que atravessam gerações.
Demarcação e continuidade territorial
Nas últimas décadas, os Katxuyana e Kahyana fortaleceram movimentos de retomada da presença física, política e cosmológica em seus territórios. Um dos marcos recentes desse processo foi a homologação da Terra Indígena Kaxuyana-Tunayana, ocorrida durante a COP30, em 2025.
O reconhecimento da terra indígena aparece no contexto da exposição como parte de uma trajetória mais ampla de resistência e afirmação territorial. Para os povos, a retomada está ligada à garantia de continuidade, à proteção dos modos de vida e à transmissão de conhecimentos para as novas gerações.
Saiba mais sobre a demarcação da Terra Indígena Kaxuyana-Tunayana e os 20 anos de mobilização que antecederam o reconhecimento.
Curadoria compartilhada e acessibilidade
A museóloga e pesquisadora do Museu Goeldi Lúcia van Velthem destaca que a exposição combina objetos atuais, produzidos pelos próprios povos, com peças históricas da coleção da instituição.
“Na exposição, teremos peças dos Katxuyanas e dos Kahyanas, que são contemporâneas, que eles fazem e utilizam atualmente, e vamos ter peças que pertencem à Coleção Etnográfica do Museu Goeldi, coletadas pelo pesquisador Protásio Frikel na década de 1960”, afirma Lúcia van Velthem.
Segundo a coordenadora substituta de Museologia do MPEG, Karol Gillet, o percurso foi construído a partir da concepção indígena e seguirá uma proposta de visitação cíclica. A organização busca conectar o público às histórias de perdas, lutos e retomadas, sem separar essas experiências da continuidade cultural dos povos.
O projeto também prevê recursos de acessibilidade para pessoas com deficiência. Entre as medidas estão peças táteis, fotografias acessíveis ao toque e audiodescrições, permitindo que diferentes públicos estabeleçam contato com os conteúdos da exposição.
Uma mostra sobre memória e futuro
Para Angela Kaxuyana, liderança indígena da Associação Indígena Kaxuyana, Tunayana e Kahyana, a exposição representa uma oportunidade de compartilhar histórias de resistência e resiliência diante de processos de violência e tentativa de apagamento.
“O sentimento de pertencimento e a conexão que mantemos com nossos verdadeiros lugares foram fundamentais para que permanecêssemos vivos como yana. A história contada nesta exposição busca conectar as gerações, fortalecer nossa memória e compartilhar a importância dos nossos territórios como garantia de vida, existência e continuidade dos nossos povos”, afirma Angela.
A exposição é realizada pela Associação Indígena Kaxuyana, Tunayana e Kahyana, em parceria com o Instituto Iepé, o Museu Paraense Emílio Goeldi e a Universidade Federal Fluminense. A iniciativa integra o Ano Cultural Brasil-Reino Unido 2025 e 2026, promovido pelo British Council.

Serviço
Exposição Katxar kum neero | Nossos lugares verdadeiros
Visitação: de 26 de agosto de 2026 a 30 de abril de 2027, de quarta-feira a domingo, das 9h às 16h.
Local: Centro de Exposições Eduardo Galvão, mezanino, no Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi, Avenida Magalhães Barata, 376, bairro de São Brás, Belém.
Entrada no parque: R$ 3, com meia-entrada e gratuidades previstas em lei.
O público também pode conhecer a reconexão entre comunidades indígenas e artefatos preservados em instituições brasileiras e europeias, tema relacionado à concepção da mostra.
Perguntas frequentes
Quando a exposição começa?
A visitação começa em 26 de agosto de 2026 e segue até 30 de abril de 2027.
Onde fica a exposição?
A mostra está no mezanino do Centro de Exposições Eduardo Galvão, no Parque Zoobotânico do Museu Goeldi, em São Brás, Belém.
O acesso é gratuito?
A entrada no parque custa R$ 3. Há meia-entrada e gratuidades previstas em lei.
A exposição permanecerá em cartaz até abril de 2027, ampliando o acesso do público de Belém e de visitantes do Pará às histórias e aos patrimônios dos povos Katxuyana e Kahyana.
Com informações de Museu Paraense Emílio Goeldi e Instituto Iepé.
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