Economia circular redesenha mineração em Carajás
No coração do sudeste do Pará, dentro do Complexo de Carajás, a mineração vive um momento de inflexão. Conhecido historicamente como uma das maiores províncias minerais do planeta, o território passa a abrigar uma experiência que busca conciliar produção, segurança e redução de impactos ambientais. O Vale Projeto Gelado opera com uma lógica distinta da mineração tradicional: em vez de abrir novas cavas, volta-se para o passado e transforma rejeitos acumulados em matéria-prima novamente valiosa.
A proposta se ancora na economia circular. Durante décadas, parte do minério de ferro considerado de menor valor foi depositada em barragens. Hoje, com avanço tecnológico e demanda global por produtos de maior qualidade, esse material ganha nova vida. A operação prevê a produção anual de 6 milhões de toneladas de minério de alto teor, contribuindo para a meta corporativa de que 10% da produção total venha de práticas circulares até 2030.
O processo começa com a dragagem dos rejeitos. O que antes era visto como passivo ambiental passa por reprocessamento e beneficiamento a seco, tecnologia que dispensa o uso de água e reduz riscos associados a estruturas de contenção. Ao retirar gradualmente o material depositado, o projeto também contribui para a descaracterização de barragens, diminuindo volumes armazenados e aumentando a segurança para comunidades do entorno.
O minério resultante é classificado como premium, com maior concentração de ferro e melhor desempenho na produção de aço. Em um cenário internacional pressionado por metas de descarbonização, matérias-primas de alta qualidade permitem menor consumo energético nos altos-fornos e reduzem emissões por tonelada produzida. A mineração, nesse contexto, passa a dialogar com a agenda climática global.
Savana metalófila: ecossistema raro sob pressão
Se o subsolo de Carajás concentra riqueza mineral, a superfície abriga um dos ecossistemas mais singulares do país. A savana metalófila, também chamada de vegetação de canga, ocupa apenas 2% a 3% da cobertura vegetal da região. Desenvolve-se sobre formações ferríferas, em solos rasos e pedregosos, nos platôs que funcionam como divisores de água ao redor da Floresta Nacional de Carajás.
A raridade dessa paisagem não está apenas na aparência. Espécies de flora e fauna adaptadas às condições extremas de solo e exposição solar compõem um mosaico ecológico de alta especialização. O paradoxo é evidente: os corpos de minério de maior qualidade costumam coincidir justamente com as áreas de canga.

Durante o licenciamento do Ibama para o Projeto S11D, a preservação da savana metalófila tornou-se um dos pontos centrais do debate. Técnicos ambientais exigiram reformulações para garantir que trechos de maior relevância ecológica fossem mantidos intactos. A solução adotada restringiu a lavra a áreas específicas, preservando porções mais sensíveis.
A proteção da canga revela o grau de complexidade da mineração em territórios biodiversos. Cada decisão envolve equações delicadas entre interesse econômico e responsabilidade ambiental. Em Carajás, a existência de um ecossistema que pode desaparecer caso seja removido impõe limites claros à expansão indiscriminada.
Garimpo ilegal e a face predatória da mineração
Enquanto a mineração industrial busca adaptar-se a padrões mais rígidos de controle e sustentabilidade, o garimpo ilegal avança por outra trilha. Espalhado por áreas remotas da Amazônia, ele opera à margem da lei e produz um rastro de devastação.
O desmatamento figura entre os primeiros impactos. A retirada da cobertura vegetal abre clareiras que fragmentam habitats e isolam espécies. Estradas clandestinas ampliam o alcance da degradação, facilitando a entrada de novos agentes ilegais. O solo, revirado e exposto, perde fertilidade e torna-se vulnerável à erosão, provocando assoreamento de rios.
O uso de mercúrio na extração de ouro é um dos danos mais severos. Ao atingir os cursos d’água, o metal transforma-se em metilmercúrio, composto altamente tóxico que se acumula em peixes e, por consequência, na alimentação humana. Os efeitos incluem danos neurológicos, perda de memória e prejuízos ao desenvolvimento infantil.
Nas áreas de garimpo, condições precárias favorecem a disseminação de malária e outras doenças. Conflitos territoriais se intensificam com a invasão de Terras Indígenas e Unidades de Conservação. Casos de trabalho infantil, violência e exploração sexual reforçam o caráter socialmente destrutivo da atividade.
Além do impacto ambiental e humano, há perdas econômicas significativas. A comercialização clandestina de ouro impede o recolhimento de tributos como ICMS e CFEM, reduzindo receitas municipais que poderiam financiar saúde e infraestrutura. A riqueza concentra-se em redes criminosas, enquanto trabalhadores permanecem em situação de vulnerabilidade.

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Entre transição e responsabilidade
A coexistência de projetos como o Gelado e a expansão do garimpo ilegal expõe dois caminhos possíveis para a mineração na Amazônia. De um lado, a tentativa de integrar tecnologia, economia circular e metas de redução de emissões. De outro, a persistência de práticas predatórias que corroem floresta, saúde pública e instituições.
A transição não depende apenas de inovação técnica. Exige fiscalização robusta, transparência e compromisso contínuo com a preservação de ecossistemas únicos como a savana metalófila. Exige também diálogo com comunidades locais, que vivem os efeitos diretos de cada decisão.
Em Carajás, a mineração continua sendo eixo central da economia regional. A diferença está na forma como esse eixo será conduzido. Se iniciativas de reaproveitamento de rejeitos e redução de riscos avançarem, o setor pode reduzir passivos históricos e alinhar-se à agenda climática. Se o garimpo ilegal continuar a prosperar, os custos ambientais e sociais tenderão a se aprofundar.
A Amazônia, maior floresta tropical do planeta, transforma-se assim em palco de uma disputa simbólica e prática sobre o futuro da mineração. Entre a circularidade e a devastação, cada escolha molda não apenas a paisagem de hoje, mas as possibilidades de desenvolvimento das próximas décadas.


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