Estudo em 34 países testa seis formas de praticar gratidão e revela o peso das conexões sociais

Estudo em 34 países testa seis formas de praticar gratidão e revela o peso das conexões sociais
Foto: agencia.fapesp.br

Pesquisa com mais de 10 mil voluntários aponta ganhos no otimismo, mas mostra que o efeito muda conforme a cultura.

Neste artigo
  1. Mensagem enviada foi a estratégia mais eficaz
  2. O que mudou entre os voluntários
  3. Por que a cultura fez diferença
  4. Gratidão como comportamento social
  5. O que a pesquisa ainda não responde
  6. Perguntas frequentes

Uma mensagem simples pode fazer mais pela sensação de bem-estar do que uma lista inteira de coisas boas. Essa foi a principal descoberta de um megaestudo internacional que testou seis práticas de gratidão com mais de 10 mil voluntários em 34 países, incluindo 598 participantes do Brasil. Publicada em maio de 2026 na revista científica PNAS, a pesquisa identificou aumento do otimismo, melhora do humor e redução da inveja, mas também mostrou que a resposta depende da cultura de cada lugar.

Mensagem enviada foi a estratégia mais eficaz

Entre as seis atividades analisadas, a que apresentou o maior efeito foi escrever e enviar uma mensagem para alguém por quem a pessoa sentia gratidão. A proposta combinava a reflexão sobre o que foi recebido com uma ação concreta de reconhecimento, aproximando duas pessoas.

Já a prática que teve o menor impacto foi justamente uma das mais populares no dia a dia: anotar cinco coisas pelas quais se é grato. O resultado não significa que a atividade seja inútil, mas indica que pensar em algo positivo de forma isolada pode ser menos impactante do que transformar esse sentimento em uma interação social.

As outras intervenções incluíram escrever uma carta de agradecimento sem enviá-la, fazer uma reflexão conhecida como Naikan, imaginar como seria a vida sem algo positivo, registrar acontecimentos do dia anterior e escrever uma carta de gratidão a Deus, a uma força superior ou a uma entidade espiritual.

Entenda o caso

Os participantes foram distribuídos entre seis exercícios de gratidão e três atividades de controle. No grupo de controle, as pessoas apenas responderam a questionários, escreveram genericamente sobre um acontecimento passado ou relataram eventos recentes considerados interessantes.

Depois das atividades, os pesquisadores avaliaram indicadores ligados ao bem-estar subjetivo, como emoções positivas e negativas, satisfação com a vida, otimismo, inveja e percepção de reciprocidade social. As seis práticas de gratidão tiveram resultados melhores do que as atividades de comparação.

O que mudou entre os voluntários

De acordo com os autores, os efeitos positivos apareceram de maneira imediata e mensurável. Os participantes relataram mais emoções agradáveis, maior satisfação com a vida e uma percepção mais forte de reciprocidade. Também houve redução de sentimentos negativos e da inveja.

Segundo a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, o estudo publicado em 2026 analisou os efeitos de seis intervenções de gratidão em mais de 10 mil pessoas de 34 países, com participação de 598 voluntários brasileiros.

O psicólogo Paulo Sérgio Boggio, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Neurociência Social e Afetiva, é um dos coautores brasileiros do artigo. Beatriz Bezerra de Souza, que recebeu apoio da FAPESP durante o mestrado, também participou do trabalho.

“Um dos principais resultados a que chegamos é que, no geral, todas as intervenções propostas funcionaram”, afirmou Paulo Sérgio Boggio.

Para o pesquisador, a atividade mais eficaz foi aquela em que a conexão social aparecia de forma explícita. “A questão da conexão social é central”, disse Boggio, ao explicar por que uma mensagem enviada a outra pessoa teve desempenho superior ao de uma lista feita apenas para si mesmo.

Por que a cultura fez diferença

Embora as intervenções tenham produzido efeitos positivos em diferentes locais, a intensidade dos resultados variou bastante entre os países. O México apresentou uma das respostas mais fortes, enquanto na Noruega o impacto foi quase nulo. O Brasil ficou no meio da escala analisada pelos pesquisadores.

Os autores observaram que fatores como rigidez ou flexibilidade cultural, religiosidade e distância do poder podem interferir na forma como as pessoas recebem e expressam a gratidão. Distância do poder é o conceito usado para descrever o quanto uma sociedade aceita diferenças hierárquicas e desigualdades sociais como algo natural.

Alguns resultados, porém, foram mais consistentes entre os países. O aumento das emoções positivas apareceu como um dos efeitos mais universais. Já outras respostas, como a sensação de reciprocidade, pareceram depender mais das normas sociais e dos costumes locais.

Gratidão como comportamento social

A pesquisa faz parte de uma discussão maior da psicologia e da neurociência social: por que os seres humanos desenvolveram a capacidade de sentir gratidão? A hipótese apresentada pelos pesquisadores é que esse sentimento pode ajudar a fortalecer redes de cooperação.

Quando alguém se sente grato, pode aumentar a disposição para ajudar outras pessoas, mesmo que elas não sejam responsáveis pelo benefício recebido. Esse mecanismo criaria uma espécie de cadeia de colaboração, sem depender necessariamente de uma recompensa direta.

“A gratidão é uma emoção com componente social muito forte. Sentir-se grato aumenta a probabilidade de você ajudar outras pessoas, e não necessariamente a pessoa que te ajudou”, explicou Boggio.

O próprio agradecimento também pode carregar uma sensação de obrigação. Ao receber um favor, algumas pessoas vivenciam ao mesmo tempo a alegria pelo gesto e a impressão de que precisam retribuir. É nesse ponto que a gratidão pode aproximar indivíduos, mas também gerar uma percepção de dívida, dependendo da situação.

O que a pesquisa ainda não responde

Os resultados não permitem afirmar que uma única prática funcionará da mesma maneira para todo mundo. O estudo mediu efeitos imediatos, e os pesquisadores ainda precisam investigar por quanto tempo as mudanças permanecem e se a repetição das atividades aumenta ou reduz os benefícios.

Outra questão é entender se as diferenças entre os países estão ligadas diretamente às normas sociais de cada cultura ou se será necessário criar exercícios específicos para determinados públicos. Uma prática eficaz no Brasil pode não produzir a mesma resposta no Japão, na Noruega ou em outros países com costumes diferentes.

O trabalho também busca ampliar a diversidade geográfica das pesquisas sobre gratidão. Segundo os autores, cerca de metade dos estudos anteriores sobre o tema tem origem nos Estados Unidos. A participação de 34 países permite comparar sociedades com diferentes níveis de religiosidade, hierarquia e formas de relacionamento.

O artigo completo, intitulado “A multinational megastudy of the effects of gratitude practices on subjective well-being”, está disponível na revista PNAS. Os dados brutos da pesquisa também podem ser consultados no repositório Open Science Foundation. Os próximos passos devem avaliar como adaptar as intervenções às características sociais de cada país.

Perguntas frequentes

Qual prática de gratidão teve mais efeito?

Escrever e enviar uma mensagem de agradecimento para alguém foi a estratégia mais eficaz entre as seis testadas.

Fazer uma lista de gratidão funciona?

Sim. A prática produziu efeitos positivos, mas teve o menor impacto entre as seis intervenções avaliadas.

O Brasil participou do estudo?

Sim. A pesquisa contou com 598 voluntários brasileiros, que participaram das atividades por meio de uma ferramenta on-line.

Com informações de FAPESP.

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