A Estrada da Fé e a superação do corpo na romaria paraense

A Estrada da Fé e a superação do corpo na romaria paraense

Lançamento de obra resgata mais de três décadas da Caminhada de Fé entre Castanhal e Belém, unindo devoção a Nossa Senhora de Nazaré, preparação física e solidariedade comunitária.

Nas estradas que cortam o interior do Pará rumo à capital, o asfalto testemunha anualmente o encontro entre a fé inabalável e os limites do corpo humano. Essa trajetória secular de promessas e sacrifícios ganhou novos contornos teóricos e literários com a publicação do livro Caminhadas de Fé, Caminhando com Maria, obra lançada durante o I Congresso de Educação Física da Unama pelos autores José Maria Melo da Silva e Carumairá Corrêa Gabriel. O trabalho documenta mais de três décadas de uma jornada que começou de forma intimista e floresceu como um movimento de devoção, resistência física e impacto comunitário na região amazônica.

Saída da igreja matriz de Castanhal, no Pará.
Saída da igreja matriz de Castanhal, no Pará. Foto: Flavio Contente

A gênese desse percurso remonta ao final dos anos oitenta, impulsionada por um episódio pessoal de agradecimento. No ano de 1988, a recuperação da mobilidade de um primo motivou o farmacêutico José Maria Melo da Silva a selar um voto religioso. O compromisso foi honrado no ano seguinte, quando ele iniciou a primeira caminhada a pé pela rodovia. Ao atingir o objetivo, encontrou o amigo Gil Corrêa e o parceiro Carumairá, que igualmente cultivava uma promessa mariana. Da união desses propósitos germinou, em 1989, o grupo Caminhada de Fé, reunindo inicialmente apenas cinco pioneiros decididos a vencer a distância entre Castanhal e Belém.

Autores do livro, José Maria Melo da Silva e Carumairá Corrêa Gabriel.
Autores do livro, José Maria Melo da Silva e Carumairá Corrêa Gabriel. Foto: Flavio Contente

Os primeiros passos dessa tradição foram marcados por carências materiais severas e absoluto isolamento comunicacional. Sem a facilidade das tecnologias móveis modernas, a segurança dos romeiros dependia unicamente da vigilância constante de familiares, que percorriam a estrada dia e noite em busca do grupo para prestar socorro emergencial sob sol escaldante e chuvas torrenciais. Com o transcorrer do tempo, a iniciativa que mobilizava de sete a doze participantes rompeu fronteiras familiares, estruturou redes sólidas de acolhimento e atingiu a marca de cem promesseiros ativos, integrando de modo definitivo o calendário devocional do estado.

Caminheiros às margens da BR-316.
Caminheiros às margens da BR-316. Foto: Flavio Contente

Ao transportar essa vivência para o ambiente universitário, a narrativa dialoga com os fundamentos contemporâneos da ciência do movimento humano. A Organização Mundial da Saúde define o bem-estar como o equilíbrio harmônico entre os fatores biológicos, psicológicos e sociais. A análise apresentada no livro expande essa concepção clássica ao propor a espiritualidade como o quarto pilar fundamental da integridade humana, enxergando na fé o elemento propulsor que viabiliza a superação das dores musculares e do cansaço extremo.

Caminheiros no Apeú, município de Castanhal.
Caminheiros no Apeú, município de Castanhal. Foto: Flavio Contente

A exigência física da jornada requer planejamento prévio rigoroso, tornando o condicionamento corporal uma condição determinante para que os fiéis suportem os quilômetros de solo rígido e as intempéries climáticas. Contudo, é no limiar da exaustão que a mente se revela protagonista, exigindo estabilidade emocional e resiliência psicológica para sobrepujar as adversidades e preservar a marcha.

A emoção da chegada à Basílica de Nazaré no dia seguinte.
A emoção da chegada à Basílica de Nazaré no dia seguinte. Foto: Flavio Contente

A força dessa caminhada reside igualmente em sua dimensão social e no altruísmo que mobiliza vilarejos inteiros. A rede de proteção aos peregrinos estende seus frutos para a própria sociedade por meio de iniciativas assistenciais, a exemplo dos atendimentos direcionados a crianças na localidade de Inhangapi. Para os idealizadores do projeto, registrar essas memórias transcende o relato esportivo ou de perseverança biológica. A obra preserva um patrimônio imaterial da cultura paraense em honra a Nossa Senhora de Nazaré, demonstrando que a gratidão e a comunhão fraterna formam a verdadeira energia que conduz o caminhar humano.

Texto e fotos: Flavio Contente

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