
Ficar alguns minutos sem produzir, sem telas e sem metas pode ajudar na criatividade, na memória e na recuperação mental.
Neste artigo
O celular está na mão, o podcast toca ao fundo e uma tarefa de trabalho aparece no meio do descanso. Quando a pessoa percebe, também está pensando em uma consulta médica, respondendo mensagens e tentando aproveitar o fim de semana ao mesmo tempo. Essa dificuldade de simplesmente parar está no centro da chamada arte de não fazer nada, uma prática que propõe recuperar alguns minutos sem metas, telas ou obrigação de produzir.
A ideia não é abandonar responsabilidades nem transformar a inatividade em uma nova tarefa de desempenho. É escolher, de maneira consciente, um intervalo de quietude. Para quem vive na Grande Belém e precisa alternar trabalho, estudo, deslocamentos e compromissos familiares, essa pausa pode começar em espaços pequenos da rotina, como uma espera, uma janela ou alguns minutos antes de dormir.
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O descanso que não precisa ser merecido
O conceito ganhou visibilidade internacional com o termo holandês “niksen”, usado para descrever o ato de não fazer nada ou de fazer algo sem uma finalidade específica. A jornalista Olga Mecking levou o assunto ao debate global em um artigo publicado pelo New York Times em 2019 e, depois, no livro “Niksen: Embracing the Dutch Art of Doing Nothing”.
Na prática, a proposta é diferente de meditar, assistir a vídeos, organizar mentalmente a lista de compras ou navegar pelas redes sociais. Também não se trata de trocar uma tarefa por outra. O objetivo é permitir que a mente fique sem uma direção determinada, seja olhando pela janela, sentado em um banco ou observando o ambiente sem tentar extrair uma conclusão.
Essa distinção importa porque muitas pessoas chamam de descanso atividades que continuam exigindo atenção. Uma sequência de vídeos, por exemplo, pode distrair, mas não necessariamente oferece o mesmo tipo de pausa que um período sem estímulos e sem cobrança.
Por que o cérebro pode se beneficiar do vazio
Quando a mente deixa de se concentrar em uma tarefa específica, uma rede cerebral conhecida como default mode network, ou rede de modo padrão, tende a participar desse estado de repouso. Ela está associada a momentos de divagação, imaginação e atenção voltada para os próprios pensamentos.
Segundo o material da Calm, períodos de descanso não estruturado podem apoiar a consolidação da memória, o processamento emocional, a autorreflexão e a solução criativa de problemas. Estudos sobre a chamada rede de modo padrão também ajudam a explicar por que uma ideia pode aparecer durante um banho, uma caminhada sem destino ou uma pausa diante da janela.
Segundo a Calm, a divagação mental durante momentos de descanso pode favorecer memória, processamento emocional, autorreflexão e solução criativa de problemas. A literatura reunida sobre o tema também relaciona o descanso não estruturado a menor estresse e melhor percepção de bem-estar.
Uma pesquisa da Universidade da Virgínia, citada no conteúdo original, observou que parte dos participantes preferiu receber choques elétricos leves a permanecer em silêncio por seis a 15 minutos. O resultado é apresentado como um retrato do desconforto que o silêncio pode provocar, não como recomendação ou regra para todas as pessoas. O estudo pode ser consultado na página da Universidade da Virgínia.
Por que ficar parado parece tão difícil
A resistência à pausa não nasce apenas do tédio. Existe uma pressão cultural para associar valor pessoal à quantidade de tarefas concluídas. Quando alguém interrompe o ritmo, pode surgir culpa, como se o descanso precisasse ser compensado depois com mais trabalho.
Outro obstáculo é a estimulação constante. Esperar em uma fila, caminhar até o carro ou aguardar o elevador costumava criar intervalos naturais. Hoje, esses momentos frequentemente são preenchidos por notificações, vídeos e listas de tarefas. Ao desaparecerem, as pausas podem parecer estranhas em vez de tranquilas.
Por isso, tentar passar horas em silêncio logo no início pode aumentar a frustração. A prática tende a ser mais acessível quando começa com poucos minutos e sem a expectativa de alcançar uma sensação específica.

Nove maneiras de criar espaço na rotina
Use os pequenos intervalos do dia. Na fila, enquanto a comida aquece ou quando o elevador fecha, deixe o telefone de lado e faça dez respirações conscientes.
Programe uma pausa curta. Um temporizador de dois a cinco minutos cria um limite e reduz a sensação de que o descanso ficará sem fim.
Sente-se diante de uma janela. Observe a mudança da luz, o movimento de uma árvore ou as sombras na parede, sem transformar a observação em exercício obrigatório.
Faça uma atividade sem otimizá-la. Tome café sem consultar mensagens, caminhe sem monitorar passos ou sente-se sem ligar a televisão para preencher o silêncio.
Deixe os pensamentos vagarem. Uma lembrança, uma imagem ou uma ideia podem aparecer sem que seja necessário analisá-las ou levá-las adiante.
Nomeie o desconforto. Se vier tédio, inquietação ou culpa, reconheça a sensação e permaneça mais alguns instantes antes de buscar uma distração.
Transforme o descanso em ritual. Reserve cerca de dez minutos ao acordar, depois do trabalho ou antes de dormir, sem tratá-los como prêmio por ter produzido.
Reserve períodos mais longos quando necessário. Um fim de semana com menos compromissos pode ajudar a interromper um ritmo mantido por muito tempo.
Treine a tolerância ao tédio. A vontade de pegar o celular pode ser observada como um impulso passageiro, sem precisar ser atendida imediatamente.
Como adaptar a prática à vida real
Na Grande Belém, como em qualquer rotina urbana, o silêncio absoluto nem sempre está disponível. A arte de não fazer nada não exige isolamento completo, ambiente perfeito ou equipamento específico. Pode acontecer em casa, durante uma espera ou em um espaço aberto, desde que a pessoa reduza a intenção de preencher cada minuto.
Também não existe uma única forma correta de descansar. Para algumas pessoas, dois minutos de pausa já representam uma mudança possível. Para outras, será necessário começar observando o desconforto antes de encontrar algum benefício. A proposta não substitui acompanhamento profissional quando há sofrimento persistente, ansiedade intensa ou prejuízo na vida diária.
O ponto central é retirar o descanso da lógica de recompensa. Parar não precisa acontecer somente depois que todas as tarefas terminarem, algo que raramente ocorre. A pausa pode fazer parte da organização do dia, assim como uma refeição, uma reunião ou um compromisso de saúde.
O próximo passo é escolher um intervalo realista nesta semana, protegê-lo de notificações e repetir a experiência até que alguns minutos de quietude deixem de parecer uma interrupção e passem a integrar a rotina.
Com informações de Calm.
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