Cinco estudos mostram que buscar muitos amigos não elimina a solidão e explica por que a proximidade importa

Cinco estudos mostram que buscar muitos amigos não elimina a solidão e explica por que a proximidade importa
Foto: Rachel Feltman, Fonda Mwangi, Alex Sugiura, Alli Rodgers

Pesquisa indica que uma rede ampla e amizades emocionalmente próximas podem existir ao mesmo tempo.

Neste artigo
  1. A solidão não cabe na contagem de contatos
  2. O que os cinco estudos mediram
  3. Quando muitos amigos ainda parecem poucos
  4. Por que isso interessa à saúde
  5. O efeito das amizades mantidas pela internet
  6. O que a descoberta significa para quem vive no Pará
  7. O que ainda precisa ser investigado

Ter muitos contatos não garante que alguém tenha uma pessoa para chamar em uma emergência. Ao mesmo tempo, desejar amizades profundas não significa querer uma rede pequena. Essa aparente contradição está no centro de uma pesquisa conduzida por psicólogos que analisou como as pessoas constroem suas relações e por que algumas se sentem sozinhas mesmo cercadas de conhecidos.

O trabalho foi apresentado pela professora assistente de psicologia Jessica Ayers, da Boise State University, em entrevista publicada pela Scientific American em 9 de setembro de 2026. A equipe realizou cinco estudos para medir duas preferências que costumam ser tratadas como opostas: o desejo por uma rede ampla e a busca por intimidade emocional nas amizades.

A solidão não cabe na contagem de contatos

Durante muito tempo, pesquisas sobre relacionamentos sociais foram influenciadas pela ideia de que haveria uma troca inevitável entre quantidade e qualidade. Nesse modelo, quem investe em muitos amigos teria menos tempo ou energia para manter laços próximos. Já quem prioriza vínculos profundos precisaria aceitar uma rede mais restrita.

O estudo liderado por Ayers sugere que essa divisão é simplificada demais. Uma pessoa pode gostar de circular por uma rede extensa e, dentro dela, procurar alguns amigos com quem compartilha confiança, apoio e maior abertura emocional.

A proposta também ajuda a separar duas experiências que muitas vezes são confundidas. O número de amizades descreve o tamanho da rede. A solidão, por outro lado, está relacionada à percepção de que os vínculos existentes não atendem às necessidades emocionais da pessoa. Por isso, aumentar a lista de contatos não resolve automaticamente a sensação de isolamento.

O que os cinco estudos mediram

Os pesquisadores desenvolveram uma escala para identificar se alguém prefere uma rede social mais larga, relações mais íntimas ou uma combinação das duas características. Para isso, testaram perguntas e padrões de resposta em diferentes grupos, verificando se os conceitos apareciam de maneira consistente.

A maior parte dos estudos foi realizada nos Estados Unidos. A quinta etapa também reuniu participantes das Filipinas, do Egito e do Brasil, além de buscar verificar se o comportamento observado não estaria restrito a sociedades ocidentais. Segundo a Scientific American, a pesquisa apresentada em 9 de setembro de 2026 apontou que a preferência por amplitude da rede e a necessidade de proximidade emocional podem aparecer simultaneamente em diferentes contextos culturais.

Os resultados associaram o desejo por uma rede mais ampla a características como maior extroversão e a um número maior de pessoas disponíveis para oferecer ajuda. Já a necessidade de vínculos emocionalmente próximos apareceu relacionada à percepção de menor qualidade nas amizades atuais.

Quando muitos amigos ainda parecem poucos

Na prática, a descoberta descreve uma situação comum: alguém pode participar de grupos, conversar com dezenas de pessoas e manter contato frequente pelas redes sociais, mas continuar sem sentir que possui relações nas quais pode confiar. A rede existe, porém não entrega o tipo de suporte que a pessoa procura.

O inverso também pode ocorrer. Uma pessoa com poucos amigos pode se sentir amparada quando esses vínculos correspondem ao que ela considera importante. O tamanho da rede, portanto, não funciona sozinho como indicador de bem-estar social.

Essa distinção é relevante porque a solidão costuma ser tratada apenas como ausência de companhia. A pesquisa apresenta outra possibilidade de leitura: o desconforto pode surgir de um desajuste entre o tipo de amizade desejado e o tipo de relação que está disponível no cotidiano.

Por que isso interessa à saúde

A discussão não é apenas comportamental. Estudos anteriores já relacionaram relações sociais mais fortes a melhores resultados para a saúde. Uma meta-análise publicada em 2010 concluiu que pessoas com vínculos sociais mais robustos apresentavam menor risco de morrer em determinado período. O trabalho pode ser consultado no estudo publicado na revista PLOS Medicine.

Na entrevista, Ayers também citou pesquisas que associam amizades a uma recuperação mais rápida depois de cirurgias. Do outro lado, a solidão é apresentada como uma experiência capaz de produzir impactos físicos relevantes. A comparação com o tabagismo aparece como referência à intensidade potencial do problema, não como equivalência simples entre os dois fenômenos.

Os dados disponíveis reforçam a dimensão da questão. Em 2023, uma pesquisa do Pew Research Center registrou que 8% dos adultos norte-americanos afirmaram não ter nenhum amigo próximo. O levantamento completo está disponível no relatório sobre amizade entre adultos.

O efeito das amizades mantidas pela internet

A pesquisa também se conecta a uma mudança na forma de convivência. Parte das relações atuais é mantida por mensagens, plataformas digitais e redes sociais, o que facilita a continuidade do contato, mas não necessariamente produz a mesma satisfação de encontros presenciais.

Isso não significa que uma amizade virtual seja automaticamente fraca ou falsa. A questão é entender se aquele formato corresponde às necessidades de cada pessoa. Para alguém que procura apoio emocional e presença, a comunicação exclusivamente on-line pode parecer insuficiente. Para outra pessoa, ela pode ser uma maneira importante de preservar um vínculo distante.

A escala criada pelos pesquisadores pode ajudar estudos futuros a medir essa diferença com mais precisão. Em vez de perguntar apenas quantos amigos alguém tem, os pesquisadores poderão investigar que tipo de relação a pessoa procura, quais vínculos considera satisfatórios e onde percebe uma falta.

O que a descoberta significa para quem vive no Pará

Para leitores do Pará e da Grande Belém, a principal aplicação é prática: participar de muitos grupos de bairro, trabalho, escola ou internet não elimina a necessidade de relações de confiança. Da mesma forma, uma rotina com poucos amigos não deve ser interpretada automaticamente como problema, se esses vínculos oferecem acolhimento e apoio.

A realidade regional também inclui deslocamentos longos, mudanças de cidade, jornadas de trabalho extensas e famílias espalhadas por diferentes municípios. Sem atribuir esses fatores diretamente aos resultados da pesquisa, eles ajudam a entender por que manter contato e construir intimidade podem exigir esforços diferentes. Uma mensagem mantém a conexão; a confiança costuma depender de continuidade, disponibilidade e reciprocidade.

O que ainda precisa ser investigado

Os estudos não estabelecem que ter uma rede grande cause maior bem-estar, nem que a falta de intimidade seja provocada por um único fator. A pesquisa mede preferências e associações entre características pessoais, quantidade de amizades e percepção sobre a qualidade desses vínculos.

Também permanece aberta a questão de como essas preferências mudam ao longo da vida. Mudanças de cidade, entrada na universidade, nascimento de filhos, aposentadoria e envelhecimento podem alterar tanto o tamanho da rede quanto o valor atribuído à proximidade emocional.

Os próximos trabalhos deverão testar a escala em novos grupos e observar como diferentes formas de amizade se relacionam com solidão, apoio social e satisfação no cotidiano.

Com informações de Scientific American.

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