De Monte Alegre para Belém, arqueologia vira joia e arte com pesquisa sobre símbolos amazônicos

De Monte Alegre para Belém, arqueologia vira joia e arte com pesquisa sobre símbolos amazônicos
Foto: Divulgação

Roda de conversa no Museu Goeldi mostrou como ciência, design e produção cultural podem aproximar o patrimônio das comunidades.

Neste artigo
  1. Quando a pesquisa sai do livro e chega ao cotidiano
  2. O que a arqueologia de Monte Alegre revela
  3. Livros, escolas e lideranças ampliam o alcance
  4. Criação contemporânea sem apagar a origem
  5. Por que a divulgação científica importa

Uma curva de pedra de Monte Alegre, no oeste do Pará, acabou transformada em brinco. O acessório foi criado pela designer Isabela Sales a partir de referências da arqueologia amazônica e de câmaras de pneus que seriam descartadas. A história foi apresentada em uma roda de conversa realizada em 27 de agosto de 2026, no Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, como exemplo de aproximação entre pesquisa científica, design e preservação do patrimônio.

O encontro reuniu a pesquisadora emérita Edithe Pereira, a arqueóloga Cristiana Barreto, a designer Isabela Sales e a produtora cultural e ceramista Cilene Marajoara. A atividade ocorreu no auditório do Centro de Exposições Eduardo Galvão, no Parque Zoobotânico do Museu Goeldi, com apoio do Laboratório de Comunicação Pública da Ciência na Amazônia, o LabCom.

Quando a pesquisa sai do livro e chega ao cotidiano

A trajetória de Isabela ajuda a explicar o objetivo da conversa. Nascida em Monte Alegre, a designer contou que o livro Arte Rupestre de Monte Alegre, de Edithe Pereira, ampliou seu contato com os vestígios arqueológicos da cidade natal. A publicação também serviu como referência para o projeto História Gravada, marca que utiliza o upcycling para criar brincos, colares e bolsas.

Entre as imagens que influenciaram o trabalho está a Pedra do Mirante. A formação rochosa e sua curvatura foram traduzidas para o desenho de um brinco, em um processo que conecta um elemento da paisagem a uma peça contemporânea. O material escolhido também carrega uma preocupação ambiental: as câmaras de pneus são reaproveitadas em vez de destinadas ao descarte.

A relação entre ciência e criação, porém, não foi apresentada como uma simples retirada de formas e desenhos do passado. Durante o debate, Cristiana Barreto defendeu que o designer precisa compreender o contexto cultural das referências usadas. “Todo designer tem que ser um pouco antropólogo”, afirmou a pesquisadora.

O que a arqueologia de Monte Alegre revela

Edithe Pereira pesquisa o patrimônio arqueológico de Monte Alegre desde 1989. Ao longo de mais de três décadas, seu trabalho se concentrou, entre outros temas, nos vestígios rupestres encontrados no território. Para ela, tornar esse conhecimento acessível é parte do esforço de proteção dos próprios sítios.

Segundo o Museu Paraense Emílio Goeldi, a roda de conversa ocorreu em 27 de agosto de 2026, em Belém, para discutir formas de difundir pesquisas arqueológicas amazônicas e fortalecer a conservação dos sítios. A frase resume uma preocupação que ultrapassa a universidade: sem informação e vínculo com o lugar, o patrimônio pode permanecer distante das pessoas que vivem ao seu redor.

Na avaliação da pesquisadora, as comunidades precisam reconhecer a importância histórica e cultural dos locais onde estão os vestígios. Ela também chamou atenção para os conflitos e as transformações que atingem os próprios territórios. Nesse cenário, lideranças locais têm papel decisivo para estimular o cuidado com os sítios e levar o assunto aos moradores.

Livros, escolas e lideranças ampliam o alcance

Um dos exemplos citados por Edithe foi o livro Itai, a carinha pintada, escrito em trovas por Juraci Siqueira e ilustrado por Mário Barata. A obra chegou a escolas de Belém e também alcançou crianças de Monte Alegre. O caso mostra como resultados e referências da pesquisa podem circular em formatos diferentes do artigo acadêmico.

Edithe relatou que havia crianças em Monte Alegre capazes de recitar os poemas de cor. Para a pesquisadora, essa presença da ciência e da cultura no ambiente escolar e doméstico ainda precisa ser ampliada. A escola aparece, assim, como espaço estratégico para aproximar crianças e jovens do patrimônio existente em seus próprios municípios.

Essa conexão também aproxima a discussão da realidade da Grande Belém. O Museu Goeldi, localizado na capital paraense, funciona como ponto de encontro entre pesquisadores, estudantes e moradores interessados na história da Amazônia. Ao mesmo tempo, as experiências debatidas apontam para a necessidade de fazer o conhecimento retornar aos municípios onde os bens arqueológicos estão localizados, como Monte Alegre.

Criação contemporânea sem apagar a origem

Cristiana Barreto destacou que estudos sobre cerâmicas arqueológicas amazônicas e suas iconografias podem ganhar novas formas de circulação quando inspiram trabalhos artísticos. Grafismos, símbolos e formas presentes na cultura material da região passam a dialogar com produtos e linguagens atuais, mas essa passagem exige responsabilidade.

A preocupação foi reforçada por Cilene Marajoara, que apresentou sua trajetória como ceramista e defendeu a atuação em rede. Para ela, a produção dos territórios precisa alcançar mais pessoas sem perder a ligação com suas raízes. A combinação entre arte e conhecimento cultural pode contribuir tanto para a educação quanto para a geração de renda, desde que a história associada aos materiais não seja apagada pelas exigências do mercado.

A origem monte-alegrense de Isabela também criou uma ponte pessoal com Edithe. Isabela nasceu na cidade e se identifica como “pinta-cuia”, expressão usada para quem é natural de Monte Alegre. Edithe recebeu o título de cidadã montealegrense em 2013 e construiu sua relação com o município por meio das pesquisas iniciadas em 1989.

Por que a divulgação científica importa

A discussão no Museu Goeldi apresentou o design como uma das possibilidades de comunicação pública da ciência. A proposta não substitui a pesquisa arqueológica nem transforma objetos e símbolos em peças sem contexto. O objetivo é criar caminhos para que mais pessoas compreendam o valor do patrimônio e participem de sua preservação.

O coordenador de projetos do LabCom, Tarcizio Macedo, conduziu a apresentação do encontro e ressaltou a trajetória das convidadas. A atividade teve participação de estudantes, pesquisadores e interessados no tema, tanto no auditório quanto pela transmissão do Museu Goeldi no YouTube.

O debate foi realizado em Belém, mas tratou de uma questão que alcança todo o Pará: como fazer o conhecimento produzido sobre a Amazônia circular entre escolas, comunidades, artistas e consumidores sem romper sua ligação com os territórios de origem. A resposta apresentada pelas convidadas passa por educação, liderança comunitária, pesquisa contínua e criação responsável. A continuidade desse diálogo depende da ampliação de ações de difusão científica e de novas parcerias entre instituições e comunidades.

Com informações do Museu Paraense Emílio Goeldi.

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