O açaí, fruto símbolo da Amazônia e parte essencial da identidade alimentar do Pará, ultrapassou fronteiras e se consolidou como um superalimento de alcance global. Os dados mais recentes da Secretaria de Desenvolvimento Agropecuário e da Pesca (Sedap) revelam que, embora os Estados Unidos ainda sejam o principal destino da exportação (58%), a fruta paraense conquistou mercados emergentes e em franca expansão, como os Países Baixos (12,7%), a Austrália (15,6%) e o Japão, além de despertar o interesse de nações do Oriente Médio, como os Emirados Árabes Unidos.
O movimento não é apenas econômico. Ele traduz uma mudança cultural no modo como diferentes povos incorporam o açaí em sua rotina alimentar. Em Melbourne, na Austrália, por exemplo, a paraense Jéssica Alves conta que a fruta já faz parte do cotidiano de cafés e bares locais, especialmente na forma de sorvetes e combinações com chocolate, frutas e mel. Para sua filha, Vicky, o vínculo é ainda mais especial: o primeiro emprego dela foi justamente em uma loja chamada Açaí Heaven, onde a fruta amazônica é celebrada diariamente. Ainda que o consumo seja diferente do tradicional modo paraense, acompanhado de farinha e tapioca, o entusiasmo dos jovens australianos mostra a força da adaptação cultural.
Na Holanda, o cenário é de forte demanda e oferta limitada. O paraense Antônio Queiroz, morador do país há dois anos, relata que o açaí chega a desaparecer das prateleiras de supermercados em apenas dois dias. Fora do varejo convencional, empreendedores locais conseguem importar a fruta e revendê-la a preços elevados, chegando a 20 euros por litro, mas mesmo assim os estoques se esgotam rapidamente. Essa procura intensa reforça a percepção de que o açaí ainda tem um vasto campo para crescer nos mercados europeus.
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As estatísticas confirmam esse apetite global. Segundo o Núcleo de Planejamento e Estatísticas (Nuplan) da Sedap, apenas a Austrália aumentou em 41% suas importações entre janeiro e agosto de 2025, totalizando 2.111 toneladas contra 1.493 toneladas no mesmo período do ano anterior. A Holanda registrou uma variação ainda mais impressionante, de 565%, passando de 260 para 1.726 toneladas. O Japão também se destacou com um salto de 563%, chegando a 1.515 toneladas importadas.

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Para o engenheiro agrônomo Geraldo Tavares, gerente de fruticultura da Sedap, essa expansão se explica tanto pelo sabor quanto pelas propriedades nutricionais. O açaí é reconhecido mundialmente por sua alta concentração de antioxidantes, superando inclusive frutas tradicionais como a uva. No Japão, o interesse cresce também por motivos medicinais, com consumidores atentos aos benefícios para a saúde.
Mesmo com números impressionantes no exterior, 90% da produção paraense ainda permanece no mercado interno, abastecendo tanto o consumo regional quanto o nacional. Em 2024, as exportações renderam cerca de 49 milhões de dólares, mas o mercado brasileiro segue como principal destino. O estatístico Ulisses Silva, do Nuplan, ressalta que o Pará detém 55,2% da participação nacional nas exportações, mantendo-se na liderança à frente de estados como São Paulo.
A popularização internacional também impulsiona transformações na forma de consumo. Fora da Amazônia, o açaí é tratado como sobremesa, seja em tigelas com granola e guaraná, seja em versões em pó para facilitar o transporte e reduzir custos. Essa tendência deve se intensificar nos próximos anos, com a expansão do açaí em pó e dos mixes prontos para consumo, como avalia Tavares.
O Governo do Pará investe em iniciativas para fortalecer a cadeia produtiva. Entre elas estão o Festival Açaí Pará, programas de capacitação para batedores, incentivo ao plantio, além do processo de Indicação Geográfica do Açaí do Pará conduzido pela Sedap em parceria com o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi). Também avançam projetos de inovação, como o desenvolvimento de um robô coletor automatizado e a produção de açaí em pó, que deverá impulsionar ainda mais as exportações.
A criação do Fundo Estadual de Apoio ao Desenvolvimento da Cadeia Produtiva do Açaí, o Fundo Açaí, é outra iniciativa que promete ampliar a eficiência da produção e atender à crescente demanda interna e externa. Para o titular da Sedap, Giovanni Queiroz, a valorização da fruta é também um vetor de transformação social, gerando independência econômica para agricultores familiares e consolidando o açaí como um ativo estratégico da bioeconomia amazônica.
Se no passado o açaí foi visto como subproduto descartado durante a exploração do palmito, hoje ele ocupa o centro das atenções globais. Sua ascensão ganhou força desde os anos 1980, com destaque em novelas brasileiras e menções na mídia internacional. Hoje, chega até às telas de produções estrangeiras, como uma novela turca em que protagonistas experimentam a fruta amazônica no café da manhã.
Do Pará para o mundo, o açaí carrega consigo não apenas nutrientes, mas também identidade cultural, memória afetiva e o sabor de uma Amazônia que se reinventa. Em cada tigela consumida em Melbourne, Amsterdã ou Tóquio, há mais do que um alimento: há o elo de um povo com sua floresta e a projeção de um futuro em que tradição e inovação caminham lado a lado.
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