Amazônia no centro da ciência e do futuro

Em 11 de fevereiro, o mundo volta seus olhos para o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, criado pela Organização das Nações Unidas e pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. A data nasceu com a missão de ampliar a participação feminina na produção científica e reconhecer trajetórias que, por muito tempo, foram invisibilizadas. Na Amazônia brasileira, esse chamado ganha contornos ainda mais urgentes: preservar a floresta é preservar o equilíbrio climático, a biodiversidade e as comunidades que dela dependem.

Divulgação - UFPA

Na Universidade Federal do Pará, a celebração se traduz em histórias concretas. A instituição promove uma série especial dedicada às mulheres que fazem da ciência uma ferramenta de transformação nos diferentes campi. Entre essas trajetórias está a de Ayla Yanne Gomes Pinheiro, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Conservação do Campus Altamira. Formada em Engenharia Florestal, ela escolheu a Amazônia não apenas como objeto de estudo, mas como território de compromisso.

Camu-camu e restauração: ciência aplicada à floresta

A pesquisa de Ayla se concentra na propagação do camu-camu, espécie frutífera nativa conhecida pelo alto teor de vitamina C e pelo potencial econômico e ecológico. Utilizando técnicas de aplicação de hormônios de crescimento, a pesquisadora busca acelerar o desenvolvimento de mudas capazes de fortalecer projetos de restauração florestal. Em regiões marcadas por degradação e pressão sobre os recursos naturais, cada muda cultivada representa a possibilidade de recompor paisagens e revitalizar ecossistemas.

O trabalho dialoga com um dos maiores desafios da Amazônia contemporânea: recuperar áreas afetadas pelo desmatamento e por atividades econômicas predatórias. Ao investir em espécies nativas, a pesquisa reforça a importância de soluções que respeitem as dinâmicas naturais da floresta. Não se trata apenas de plantar árvores, mas de reconstituir redes ecológicas complexas, capazes de sustentar fauna, flora e comunidades humanas.

Ayla também transita por áreas como Redes Neurais Artificiais, Inventário Florestal e Conservação de Quirópteros, ampliando o alcance de sua formação. Essa combinação entre tecnologia e ecologia revela um perfil de pesquisadora conectada às demandas contemporâneas da ciência: integrar dados, compreender padrões e propor estratégias baseadas em evidências. Na prática, significa utilizar ferramentas inovadoras para fortalecer a proteção da Amazônia.

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Desafios e protagonismo feminino na ciência ambiental

Os dados do Observatório de Ciência, Tecnologia e Inovação, coordenado pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, indicam que a pesquisa ambiental figura entre as áreas que mais produzem conhecimento no país. Ainda assim, a presença feminina enfrenta obstáculos persistentes. Barreiras estruturais, subvalorização do trabalho e desigualdade de oportunidades continuam a marcar o cotidiano de muitas cientistas.

Ayla reconhece esse cenário. Para ela, ser mulher na ciência implica lidar com a necessidade constante de comprovar competência e ocupar espaços historicamente dominados por homens. No entanto, a pesquisadora defende que a transformação passa pelo fortalecimento de políticas institucionais de equidade, pelo incentivo à participação feminina desde a formação acadêmica e pela criação de redes de apoio e mentoria. Ambientes inclusivos, livres de assédio e discriminação, são condições essenciais para que a ciência avance de forma plural e democrática.

Na Amazônia, onde a pesquisa ambiental tem impacto direto sobre a qualidade de vida e o desenvolvimento regional, ampliar a presença feminina significa também ampliar perspectivas. A diversidade de olhares contribui para soluções mais abrangentes e socialmente responsáveis, alinhadas às necessidades de populações tradicionais e comunidades locais.

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Amazônia como horizonte de esperança e responsabilidade

Ao falar sobre o futuro, Ayla destaca o desejo de continuar produzindo conhecimento que dialogue com a conservação dos recursos naturais e com o uso sustentável das florestas. Seu percurso revela uma geração de cientistas que compreende a Amazônia como espaço estratégico para o planeta. A floresta não é apenas cenário de pesquisa, mas protagonista de uma agenda que envolve clima, economia e justiça social.

A série especial promovida pela Universidade Federal do Pará seguirá até 8 de março, reforçando que o protagonismo feminino na ciência não é exceção, mas força em expansão. Cada história apresentada ajuda a redesenhar o imaginário sobre quem faz ciência e para quem ela é feita.

Em um contexto global de mudanças climáticas e pressão sobre biomas estratégicos, a Amazônia permanece no centro das discussões. E é na interseção entre conhecimento científico, compromisso social e equidade de gênero que surgem caminhos mais sólidos para sua preservação. A trajetória de jovens pesquisadoras demonstra que ciência e sensibilidade podem caminhar juntas. Ao cultivar mudas, dados e ideias, essas mulheres cultivam também um projeto de futuro no qual a Amazônia continue viva, diversa e essencial para o equilíbrio do planeta.