O miriti, madeira leve extraída da palmeira amazônica Mauritia flexuosa, atravessa séculos como símbolo cultural e espiritual do Pará. Presente desde 1793 nas procissões do Círio de Nazaré, os brinquedos feitos desse material encantam crianças, adultos e turistas, transformando-se em ícones de fé, memória afetiva e identidade regional.
Em Abaetetuba, município às margens do rio Tocantins, a tradição artesanal resiste e se reinventa. É lá que Rivaildo Peixoto, conhecido como Mestre Riva, mantém vivo o ofício herdado de gerações. Desde a infância, ele acompanha a família na produção das peças, passando de aprendiz de pintura a mestre artesão, papel que hoje divide com as netas Beatriz e Rayane, adolescentes que já se iniciam no ofício. Para Riva, a arte com miriti não é apenas trabalho, mas missão de vida: “O miriti é a extensão da minha alma”, resume.
Do tronco à obra de arte
O processo de produção do artesanato envolve desde a extração sustentável da madeira até a confecção e pintura. Facas e facões moldam o material em brinquedos que representam barcos, pássaros, bonecos, réplicas da berlinda do Círio e até imagens de Nossa Senhora. Cada peça, por mais simples que pareça, carrega a essência do cotidiano ribeirinho, da pesca às celebrações comunitárias.
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O cuidado ambiental também é central: os artesãos evitam tintas tóxicas e buscam manter a prática sustentável. Dessa forma, além de sustentar famílias locais, o artesanato contribui para valorizar a sociobiodiversidade amazônica.
O miriti como patrimônio cultural
A força cultural do miriti ganhou reconhecimento oficial. O Museu do Círio, em Belém, abriga peças em seu acervo e organiza exposições anuais que renovam o olhar sobre o artesanato. Neste ano, o tema “Museu do Círio, festa em movimento” terá os brinquedos como protagonistas, reafirmando seu papel como símbolo coletivo de fé e resistência cultural.
O historiador Márcio Figueiredo, diretor do Museu, reforça o sentido de pertencimento que o artesanato transmite: “Os objetos de miriti não são apenas brinquedos. Eles representam a vida do povo ribeirinho e sua identidade amazônica”.

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Da devoção à estética contemporânea
Se no passado os brinquedos estavam restritos ao universo infantil e às celebrações religiosas, hoje o miriti atravessa fronteiras criativas. Arquitetos passaram a incorporá-lo em projetos de decoração de casas, hotéis e espaços culturais. O arquiteto Caíque Lobo é um dos entusiastas que defende a aplicação do artesanato em ambientes sofisticados. Para ele, o miriti representa uma estética única, capaz de aliar tradição à inovação.
Moda e memória afetiva
O miriti também encontrou espaço na moda. A influenciadora paraense Dina Carmona, criadora da marca “Mulheres Fortes do Norte”, já desfilou peças feitas do material em looks ousados e sofisticados. A proposta vai além do estilo: é também uma afirmação de identidade regional e de resgate da memória. Dina recorda que seu avô confeccionava boias de miriti para os netos, tornando cada peça parte de sua própria história afetiva.
Assim, o artesanato deixa de ser apenas lembrança do Círio e se torna linguagem de afirmação cultural e social, dialogando com o contemporâneo sem perder suas raízes.

Tradição que atravessa gerações
A cada ano, novas mãos se somam a esse ofício, perpetuando a tradição. O trabalho coletivo de famílias inteiras em Abaetetuba garante que o miriti não apenas sobreviva, mas se renove com criatividade. Entre fé, memória e inovação, as peças continuam a emocionar quem as vê, reafirmando a força de um símbolo que conecta gerações e ressignifica o Círio como celebração viva da Amazônia.





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