Muito antes de os humanos aprenderem a cultivar grãos e fixar moradia, um outro modelo de agricultura já funcionava com precisão quase industrial. Há cerca de 30 milhões de anos, formigas cortadeiras passaram a cultivar fungos como fonte exclusiva de alimento. Essa prática remonta a um período ainda mais antigo: após a extinção dos dinossauros, há 66 milhões de anos, quando a escassez de recursos levou esses insetos a incorporar fungos à dieta como estratégia de sobrevivência.
O que começou como adaptação evolutiva tornou-se um sistema agrícola sofisticado. No interior das colônias de saúva-limão existe o chamado jardim de fungo, estrutura onde folhas, flores e fragmentos vegetais coletados no ambiente são processados. As formigas não consomem diretamente o material vegetal que cortam. Elas o utilizam para alimentar o fungo cultivado, que depois será ingerido.
Esse jardim funciona como um aparelho digestivo coletivo. É ali que ocorre a decomposição do material vegetal e a transformação em nutrientes assimiláveis. O sistema depende de um conjunto complexo de microrganismos — fungos, bactérias e enzimas — que compõem a microbiota responsável por manter o equilíbrio da colônia.
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Uma pesquisa desenvolvida no Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), no câmpus de Rio Claro, revelou que a microbiota desses jardins responde às mudanças na alimentação de forma semelhante à microbiota intestinal humana. Assim como ocorre conosco, a composição microbiana se reorganiza conforme a dieta.
O estudo foi conduzido por Mariana de Oliveira Barcoto no Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas da Unesp, sob orientação do professor André Rodrigues, com apoio de uma equipe multidisciplinar. Os resultados foram publicados na revista científica NPJ Biofilms and Microbiomes, do grupo Nature.
Experimento controlado mostra transformação da microbiota
Para compreender como a microbiota reage a diferentes fontes alimentares, os pesquisadores trabalharam com 28 colônias de saúva-limão, acompanhadas ao longo de 56 dias. As colônias foram divididas em quatro grupos, cada um submetido a um regime alimentar específico.
Um grupo recebeu apenas folhas, alimento mais comum no ambiente natural, mas de digestão complexa. Outro recebeu apenas frutas e cereais, fontes ricas em açúcares e de fácil assimilação. Dois grupos intermediários passaram por dietas combinadas: um com alternância constante entre folhas, frutas e cereais; outro com períodos exclusivos dedicados a cada tipo de alimento antes da troca.
A cada vinte dias, amostras do jardim eram coletadas para análises genéticas e físico-químicas. Logo nas primeiras coletas já era possível observar alterações significativas na microbiota.
Nas colônias alimentadas apenas com folhas, houve predominância de bactérias dos gêneros Bacillus e Weissella, associadas à degradação de compostos vegetais mais resistentes. Já nas colônias alimentadas exclusivamente com frutas e cereais, as bactérias mais abundantes foram Carnimonas e Mesoplasma, que parecem prosperar em ambientes com maior disponibilidade de açúcares simples.
Nos grupos com alimentação alternada, a microbiota apresentou composição intermediária. Alguns microrganismos demonstraram resistência às mudanças, permanecendo ativos mesmo após a troca de dieta. Ainda assim, os pesquisadores constataram que o sistema não retorna exatamente ao estado inicial. Cada alteração deixa uma assinatura persistente na comunidade microbiana.
A dieta, portanto, atua como força modeladora da microbiota. O equilíbrio do jardim depende diretamente do tipo de alimento oferecido ao fungo cultivado.
Quando a dieta desestabiliza a colônia
O resultado mais inesperado surgiu no grupo alimentado exclusivamente com frutas e cereais. Nos primeiros dias, as formigas demonstraram forte interesse por esse cardápio. A coleta era rápida e intensa, impulsionada pelo alto teor de açúcar.
Com o passar do tempo, porém, o jardim começou a se deteriorar. O fungo saudável, normalmente branco, leve e organizado em camadas que indicam estágios de decomposição, assumiu coloração alaranjada, textura densa e odor semelhante ao de fermentação. O crescimento cessou.
A hipótese levantada pelos pesquisadores aponta para o crescimento excessivo de leveduras, que podem ter inibido outros microrganismos essenciais para o funcionamento adequado da digestão coletiva.
As consequências foram visíveis. As formigas reduziram a atividade de forrageamento, indivíduos morreram ou deixaram de cumprir suas funções, e a colônia entrou em declínio progressivo. O experimento, inicialmente previsto para 60 dias, foi interrompido no 56º dia para evitar o colapso total dessas colônias.
O episódio demonstrou que, embora as saúvas possam consumir frutas e cereais de forma intermitente, uma dieta exclusiva baseada nesses alimentos compromete a estabilidade da microbiota e ameaça a sobrevivência do grupo.
Esse achado tem implicações ecológicas importantes. Mudanças ambientais que alterem a disponibilidade de folhas — como desmatamento, monoculturas ou variações climáticas — podem afetar diretamente o equilíbrio microbiano do jardim e, consequentemente, a saúde das colônias.
Inovação metodológica e novas fronteiras da microbiota
Além das conclusões biológicas, o estudo também representou um avanço metodológico. Trabalhar com formigas e seus jardins microbianos exige protocolos específicos, ainda pouco consolidados na literatura científica.
Para superar esse desafio, a equipe reuniu especialistas de diferentes áreas. O professor Odair Correa Bueno, também do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (Unesp), colaborou com a manutenção das colônias. O físico Eduardo Ribeiro de Azevedo, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), aplicou técnicas de ressonância magnética para analisar a composição das amostras. O biólogo Lucas William Mendes, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA-USP), participou das análises genéticas.
A utilização da ressonância magnética para estudar o jardim das formigas foi pioneira. A técnica, conhecida por sua alta sensibilidade em análises físico-químicas de materiais orgânicos, permitiu observar com precisão como o fungo processava cada dieta. Ao final do experimento, foram obtidas 192 sequências de DNA e dezenas de registros físico-químicos detalhados.
O protocolo estabelecido abre caminho para novas pesquisas sobre microbiota em organismos não convencionais. A metodologia poderá ser aplicada para investigar como fatores como temperatura, estresse hídrico ou poluição impactam sistemas biológicos complexos.
Em um cenário de mudanças ambientais aceleradas, compreender como a microbiota responde a alterações na dieta e nas condições externas torna-se estratégico. O estudo com saúvas-limão reforça uma ideia central: a vida microscópica é um indicador sensível da saúde dos organismos e dos ecossistemas.
Alterar a alimentação é alterar o equilíbrio invisível que sustenta a colônia. E, como mostram as formigas, esse equilíbrio pode ser mais frágil do que parece.
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