Cerâmica de Icoaraci como a peça é queimada antes da pintura

Cerâmica de Icoaraci como a peça é queimada antes da pintura
Ilustração: IA

A argila é modelada, seca à sombra e levada ao fogo antes de receber grafismos de inspiração marajoara

Neste artigo
  1. Por que a argila precisa secar à sombra
  2. O que acontece antes da peça ir ao fogo
  3. Como a queima prepara a cerâmica para a pintura
  4. O que não funciona na preparação

Antes de receber pintura, uma peça de cerâmica de Icoaraci passa por uma etapa que quase não aparece no produto pronto. Ela é levada ao fogo depois de ser modelada e seca à sombra. Esse intervalo entre a argila úmida e o desenho final define se o objeto vai manter a forma ou apresentar rachaduras, deformações e partes quebradas.

Nas oficinas do distrito de Icoaraci, em Belém, o trabalho começa com a argila local. O artesão prepara a massa, dá forma à peça e observa a umidade antes de pensar na queima. O fogo não é usado para acelerar uma peça ainda molhada. Ele entra somente quando a água que estava presa na argila já saiu de maneira gradual.

Por que a argila precisa secar à sombra

A argila úmida contém água entre suas partículas. Quando a peça fica exposta a uma fonte intensa de calor ou ao sol direto, a superfície perde água antes do interior. A camada de fora encolhe enquanto o centro continua mais úmido e volumoso. Esse movimento desigual cria tensão no material e pode abrir rachaduras.

O problema aparece com mais facilidade em peças grossas, em áreas com paredes de espessura diferente e nos pontos em que uma alça, uma borda ou outro elemento foi acrescentado ao corpo principal. Cada parte perde umidade em velocidade própria. Se uma região endurece antes das outras, a peça começa a trabalhar de forma desigual.

Por isso, a secagem à sombra não significa deixar a cerâmica parada sem cuidado. A peça precisa ficar em local protegido da chuva, do sol direto e de correntes de ar muito fortes. O objetivo é permitir que a umidade saia aos poucos por toda a superfície. Em um ambiente quente e úmido como o de Belém, o tempo de secagem pode variar conforme o tamanho, a espessura e a circulação de ar da oficina.

O que acontece antes da peça ir ao fogo

Depois da modelagem, o artesão confere a superfície e as junções. Pequenas irregularidades ainda podem ser corrigidas enquanto a argila conserva alguma umidade, mas uma peça já muito endurecida não deve ser forçada. Mexer em uma parte seca ou acrescentar massa úmida sobre ela pode criar uma diferença de contração que aparece durante a queima.

A peça segue para o fogo somente quando está seca por dentro e por fora. A aparência ajuda nessa avaliação, mas não é o único critério. Uma superfície firme pode esconder um núcleo úmido, sobretudo em objetos mais espessos. Se a água restante virar vapor de maneira rápida dentro da peça, a pressão pode provocar estalos, trincas ou rompimentos.

A queima transforma a argila seca em um material mais rígido e resistente ao manuseio. Essa etapa também prepara a superfície para o acabamento posterior. O modo de organizar as peças, controlar o aquecimento e retirar os objetos depois varia conforme a estrutura usada por cada oficina. O princípio permanece o mesmo, que é evitar uma mudança brusca em uma peça que ainda tenha umidade concentrada.

Como a queima prepara a cerâmica para a pintura

Depois de queimada, a peça deixa de ser apenas uma forma moldada em argila. Ela passa a ter uma base firme para receber a pintura. É nessa etapa posterior que entram os grafismos de inspiração marajoara, aplicados de acordo com o desenho e o acabamento escolhidos pelo artesão.

A ordem das etapas faz diferença. Pintar antes da queima colocaria o grafismo sobre uma superfície ainda sujeita a encolhimento e rachaduras. O calor também alteraria o acabamento aplicado. Ao deixar a decoração para depois do fogo, o desenho é feito sobre uma peça que já passou pela transformação principal da argila.

Os grafismos podem ocupar a borda, o corpo ou áreas específicas do objeto. O resultado depende da forma modelada, da regularidade da superfície e da firmeza alcançada na queima. A inspiração marajoara aparece como referência visual, mas o acabamento final acompanha a linguagem e a prática de cada oficina de Icoaraci.

O que não funciona na preparação

Colocar uma peça recém-modelada diretamente ao sol para reduzir o tempo de espera é uma das escolhas que mais aumenta o risco de rachadura. O calor concentrado seca primeiro a camada externa e deixa o interior atrasado. Cobrir a peça de forma totalmente fechada também não resolve, porque pode prender umidade em vez de permitir uma saída gradual.

Outro erro é levar ao fogo uma cerâmica que parece seca apenas na superfície. A parte interna pode continuar úmida, e o aquecimento rápido transforma essa água em vapor dentro do objeto. Também não é seguro empilhar peças sem considerar o espaço entre elas. O calor precisa alcançar os objetos de maneira uniforme, e cada oficina define a disposição conforme o forno e o formato das peças.

O detalhe que ajuda a entender a cerâmica de Icoaraci está justamente no tempo entre uma etapa e outra. A peça não nasce pronta do fogo nem recebe o grafismo assim que sai da modelagem. Ela atravessa argila, forma, sombra e calor antes de ganhar cor. Nas oficinas do distrito de Belém, essa sequência transforma um material úmido e moldável em uma superfície capaz de carregar desenhos sem perder a marca do trabalho manual.

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