Como se faz o brinquedo de miriti de Abaetetuba

Como se faz o brinquedo de miriti de Abaetetuba
Ilustração: IA

O talo seco é cortado, montado e pintado em uma produção familiar ligada ao Círio

Neste artigo
  1. Por que o talo seco do miriti serve para esculpir
  2. Como o brinquedo de miriti ganha forma
  3. O que acontece na etapa de pintura
  4. Como funciona a produção familiar

Quem visita Abaetetuba e passa pela Feira do Miriti encontra barcos, pássaros, casinhas, bonecos e outros brinquedos com cores fortes e formas simples. Antes da pintura, porém, existe um material leve, seco e fácil de esculpir: o talo do miriti.

A transformação começa quando esse talo deixa de ser apenas uma parte da palmeira e passa a funcionar como matéria-prima. O artesão observa o formato, corta os trechos necessários, retira excessos, encaixa as peças e só depois aplica a pintura. Em muitas famílias, o conhecimento passa entre gerações e a produção se relaciona com o ciclo do Círio.

Por que o talo seco do miriti serve para esculpir

O talo do miriti é usado depois de seco porque fica leve e permite o corte manual. Essa característica facilita a criação de peças pequenas, que podem ser manuseadas, penduradas ou levadas para casa sem o peso de uma escultura feita com madeira compacta.

A secagem também muda a condição do material para o trabalho. O talo deixa de ser recém-retirado e passa a oferecer uma superfície mais adequada ao corte e à montagem. O ponto importante é controlar o preparo antes de começar a esculpir: se o material ainda não estiver pronto, o corte tende a dificultar o acabamento; se estiver disponível em boas condições, o artesão consegue definir melhor cada parte.

Como o brinquedo de miriti ganha forma

O primeiro passo é separar o talo seco e escolher os trechos que combinam com o modelo desejado. Um brinquedo com corpo mais largo pede uma parte diferente de uma peça estreita ou alongada. Essa escolha evita retirar material sem necessidade e ajuda a aproveitar melhor cada pedaço.

Depois, o talo é cortado em partes. O corte define o corpo, as asas, as pernas, o casco, o telhado ou outros elementos do brinquedo. Como cada modelo tem uma estrutura própria, não existe um único molde para todas as peças. O desenho nasce da combinação entre o formato do talo e a habilidade de quem trabalha com ele.

Na etapa seguinte, as partes são ajustadas e montadas. O encaixe precisa deixar o brinquedo reconhecível e equilibrado, principalmente quando a peça representa um animal, um barco ou uma figura com partes móveis. O artesão confere a posição de cada elemento antes de seguir para o acabamento.

O que acontece na etapa de pintura

A pintura entra depois do corte e da montagem porque cobre a superfície já definida. Se a cor fosse aplicada antes, o manuseio e os novos cortes poderiam marcar ou retirar a tinta. Ao deixar essa etapa para o fim, o artesão consegue trabalhar primeiro a forma e depois destacar os detalhes.

As cores ajudam a diferenciar as partes do brinquedo e dão identidade à peça. O acabamento pode ser mais simples ou mais detalhado, conforme o modelo e a maneira de produzir de cada família. O importante é não confundir pintura com estrutura: a cor não corrige uma montagem desalinhada nem substitui o corte bem feito.

Também é nessa fase que o brinquedo ganha o aspecto visto nas bancas da Feira do Miriti. As peças podem sair do mesmo tipo de talo, mas apresentar resultados diferentes por causa do desenho, da montagem e da combinação de cores escolhida por cada artesão.

Como funciona a produção familiar

Na produção familiar, as tarefas podem ser distribuídas entre pessoas da mesma casa. Uma parte do trabalho fica ligada à preparação do talo, outra ao corte, outra à montagem e outra à pintura. Essa divisão permite produzir várias peças sem transformar todos os modelos em cópias iguais.

O ciclo ligado ao Círio também ajuda a explicar por que o brinquedo de miriti aparece com tanta força em determinados períodos de circulação e venda. A produção é feita antes da chegada à feira, onde os brinquedos encontram moradores e visitantes interessados em levar uma peça de Abaetetuba.

O resultado não começa na banca. Começa no material seco, passa pela leitura que o artesão faz de cada pedaço e termina em uma peça que carrega o trabalho de uma família. Na Feira do Miriti, esse caminho fica visível: cada brinquedo mostra, ao mesmo tempo, a leveza do talo e a marca de quem soube transformá-lo.

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