A voz indígena no centro do debate em Belém

As águas do rio Guamá testemunham, nesta semana, um movimento que vai além do rigor acadêmico tradicional. A capital paraense torna-se o epicentro de uma discussão vital para o futuro da democracia e da preservação ambiental. O Congresso Internacional “Negociando Espaços, Ressignificando Identidades”, promovido pela Universidade Federal do Pará, estabelece um marco ao propor que a ciência e os saberes ancestrais não apenas se encontrem, mas se traduzam mutuamente em estratégias de sobrevivência e dignidade. O evento busca romper com a lógica da observação passiva para transformar as lideranças indígenas em protagonistas das narrativas que definem suas próprias existências.

A retomada do protagonismo nas narrativas históricas

Durante séculos, a história dos povos nativos foi contada por vozes externas, muitas vezes sob a lente da tutela ou da marginalização. O que ocorre agora em Belém é um esforço de inversão desse eixo. Ao debater a ressignificação de identidades, o congresso permite que as comunidades indígenas desafiem as interpretações históricas dominantes que tentaram silenciá-las. Esse processo não é meramente teórico; ele é a base para a reivindicação de direitos básicos e para a proteção da cultura que resiste ao avanço das fronteiras predatórias.

O uso do arcabouço jurídico dos Direitos Humanos surge aqui como uma ferramenta de combate. As lideranças presentes utilizam essa linguagem universal para negociar espaços políticos e territoriais que lhes foram negados. O diálogo proposto pelo Grupo de Pesquisa História Indígena e do Indigenismo na Amazônia da UFPA foca exatamente nessa capacidade de manobra política. A identidade, portanto, deixa de ser apenas uma herança cultural para se tornar um escudo de proteção jurídica e uma lança de autonomia frente ao Estado.

Os guardiões da floresta e o silêncio das cúpulas

Existe uma contradição latente que o congresso pretende expor: embora o mundo reconheça os povos indígenas como os principais guardiões da biodiversidade, essas populações raramente possuem cadeira cativa nas mesas onde se decide o destino climático do planeta. A iniciativa da Universidade Federal do Pará busca sanar essa lacuna de escuta. A preservação do meio ambiente, vista pelos olhos indígenas, não é uma questão de gestão de recursos, mas de manutenção de um sistema de vida sagrado e interdependente.

O projeto internacional Edges – Entangling Indigenous Knowledges in Universities é um dos pilares desse encontro, reforçando que o conhecimento produzido nas aldeias possui o mesmo rigor e importância que o produzido nos laboratórios e bibliotecas. Quando intelectuais de universidades estrangeiras se sentam à mesa com pensadores indígenas, o que se vê é a democratização do saber. Não se fala mais sobre os indígenas como objetos de estudo, mas fala-se com eles como iguais, integrando a cosmologia ancestral à pragmática da justiça moderna.

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A aliança entre ciência e tradição na prática

As atividades do congresso se dividem entre a modernidade do Campus Básico da UFPA e a tradição histórica do Museu Paraense Emílio Goeldi. Essa itinerância simbólica reflete o desejo de conectar o presente acadêmico às raízes da pesquisa na Amazônia. A programação, que inclui simpósios e visitas a acervos, serve para lembrar que a luta por terra e educação é contínua e inseparável da luta pelos Direitos Humanos fundamentais. A sobrevivência física depende da preservação intelectual.

Com o apoio da Secretaria de Estado de Igualdade Racial e Direitos Humanos, o evento também lança luz sobre os desafios legislativos e os conflitos territoriais que ainda mancham o mapa brasileiro. O debate sobre justiça e reparação histórica ganha novos contornos quando lideranças locais podem expor diretamente suas dores e esperanças aos representantes do Estado. É uma oportunidade única de transformar o discurso de igualdade em políticas públicas que respeitem a autonomia dos povos originários.

Um novo horizonte para os estados e os povos

O desfecho esperado para este encontro em Belém é a construção de uma agenda comum que sobreviva ao encerramento do evento. A integração entre as universidades e as aldeias precisa ser uma via de mão dupla permanente. Ao negociar espaços dentro da academia e do Estado, os povos indígenas estão, na verdade, ensinando ao mundo uma nova forma de existir em sociedade — uma forma que não ignora a natureza em nome do lucro, nem a diversidade em nome de uma identidade nacional única e sufocante.

O legado do congresso será a consolidação de redes de apoio internacional que fortaleçam a voz dos guardiões da floresta nas próximas conferências globais, como a COP 30. O conhecimento acadêmico sai fortalecido ao reconhecer suas limitações e ao se abrir para a riqueza dos saberes tradicionais. Em última análise, o que está em jogo nas salas de aula e nos auditórios da UFPA é a possibilidade de um futuro onde os Direitos Humanos sejam vividos plenamente, em cada hectare de floresta preservada e em cada cultura respeitada.

Serviço:
Congresso Internacional – Negociando Espaços, Ressignificando Identidades: Lideranças Indígenas, Direitos Humanos e Estados
Data: 4 a 6 de fevereiro de 2026
Local: Campus Guamá da UFPA e Museu Paraense Emílio Goeldi
Inscrições: até 3 de fevereiro de 2026
Mais informações: https://www.even3.com.br/negociando-espacos-ressignificando-identidades-liderancas-indigenas-direitos-humanos-e-estados-646023/