Imagine um cofre gigante que abre e fecha de acordo com os humores da China e das bolsas de valores de Londres. Para os municípios de Canaã dos Carajás e Parauapebas, no sudeste do Pará, esse cofre é a CFEM (Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais). Em 2025, esse cofre viveu uma verdadeira montanha-russa, oscilando entre US$ 93 e US$ 107 por tonelada de minério de ferro.

Mas aqui está a reviravolta: em vez de apenas lamentar a volatilidade, o Pará começou a usar esse “dinheiro do ferro” para construir uma economia que não dependa mais dele. Estamos presenciando o nascimento de um estado que vende minério, mas investe em inteligência.

O Efeito Dominó: Quando o Preço Cai, a Cidade Sente

A CFEM não é um imposto fixo; ela é uma fatia do faturamento líquido das mineradoras. Se o preço do ferro cai no mundo, o dinheiro que entra nas prefeituras paraenses diminui na mesma hora.

No segundo trimestre de 2025, o “vale” de US$ 93/tonelada forçou gestores públicos a apertarem os cintos. Escolas, hospitais e obras de infraestrutura nas cidades mineradoras sentiram o impacto direto dessa retração. Foi um lembrete amargo de que viver de uma única commodity é como caminhar na corda bamba sem rede de proteção.

O Escudo de Carajás: Por que o Ferro do Pará é Diferente?

Se o Pará não quebrou em 2025, foi por causa de um detalhe químico: a pureza. Enquanto o minério comum sofre com grandes descontos de preço, o ferro de Carajás possui um teor acima de 65%.

Na prática, isso significa que o aço produzido com o minério paraense gasta menos energia e polui menos. Com a China e a Europa correndo para adotar o “aço verde”, o minério do Pará virou o queridinho do mercado. Mesmo com a crise, as exportações para a União Europeia cresceram 10,84%, garantindo que o fluxo de dinheiro não parasse totalmente.

Além do Ferro: A Nova Estratégia do Pará

O governo e as entidades industriais (como a FIEPA) entenderam o recado: é preciso diversificar. Veja as três frentes que estão mudando o rosto do estado:

  • Petróleo na Margem Equatorial: O Pará está de olho nas reservas de petróleo no mar, buscando uma nova fonte de riqueza que possa equilibrar as contas quando o ferro estiver em baixa.
  • Educação de Elite: Em outubro de 2025, Canaã dos Carajás inaugurou o maior complexo SESI/SENAI do estado. O objetivo é claro: transformar filhos de mineradores em engenheiros e técnicos de alta performance que possam trabalhar em qualquer setor da economia.
  • Sustentabilidade como Moeda: Com a redução de 21% no desmatamento, o Pará está provando que é possível minerar com responsabilidade. Isso abriu portas para o Acordo Mercosul-União Europeia, que deve facilitar as vendas de outros minérios, como o ferro-níquel, a partir de 2026.

O Legado da COP30: Um Estado Pronto para o Amanhã

O ano de 2025 não foi apenas sobre números; foi sobre posicionamento. Ao usar a visibilidade da COP30 em Belém, o Pará parou de ser visto apenas como uma “grande mina” e passou a ser visto como um líder da descarbonização global.

A síntese dessa jornada é simples: a CFEM, embora instável, está deixando de ser usada apenas para “tapar buracos” e passando a ser o combustível de uma transição histórica. O Pará está aprendendo a minerar hoje para ser sustentável amanhã, garantindo que o desenvolvimento sobreviva mesmo quando a última tonelada de ferro for retirada do solo.