No Baixo Amazonas, saúde não se mede em quilômetros, mas em horas de motor roncando sobre a água. A geografia impõe um ritmo próprio ao cuidado. Ali, o rio não é obstáculo: é estrada. Pesquisadores chamam esse cenário de território líquido, expressão que traduz uma realidade onde a vida depende do fluxo das águas e onde políticas públicas precisam aprender a navegar.

Em comunidades ribeirinhas isoladas, o deslocamento até um hospital pode variar de três a dezoito horas. Tudo depende da embarcação, da potência do motor e do humor do rio. Durante a cheia, igarapés e furos encurtam caminhos, permitindo que barcos se aproximem das casas. Na seca, surgem bancos de areia, as chamadas coroas, que obrigam moradores a caminhar longas distâncias até encontrar um ponto navegável.
A rabeta, pequena canoa motorizada, é o transporte mais comum. Lenta e vulnerável a tempestades, ela simboliza tanto a autonomia quanto a precariedade. Em emergências, entram em cena as ambulanchas, quando disponíveis. Nem sempre conseguem navegar na estiagem severa. A saúde, portanto, precisa se moldar ao calendário das águas.
Estratégias do SUS sobre as águas
Para enfrentar essa geografia extrema, o Sistema Único de Saúde desenvolveu arranjos específicos. As Unidades Básicas de Saúde Fluvial tornaram-se símbolo dessa adaptação. São barcos equipados como postos de atendimento itinerantes, capazes de oferecer consultas médicas, odontológicas, vacinação, exames laboratoriais e pequenos procedimentos.
O caso mais emblemático é o Navio Hospital-Escola Abaré, vinculado à Universidade Federal do Oeste do Pará. O nome, de origem tupi, significa o amigo que cuida. O Abaré atende cerca de 15 mil pessoas em mais de 70 comunidades nos municípios de Santarém, Belterra e Aveiro. Durante pelo menos vinte dias por mês, percorre os rios Tapajós e Arapiuns levando equipe multiprofissional composta por médicos, enfermeiros, dentistas, farmacêuticos e técnicos.
A embarcação dispõe de consultórios, laboratório de análises clínicas, farmácia e sala de vacinas. Em períodos de seca, quando não consegue atracar, utiliza pequenas voadeiras para transportar pacientes e profissionais. A gestão é compartilhada: a Universidade Federal do Oeste do Pará responde pela manutenção do navio, enquanto a Secretaria Municipal de Saúde de Santarém coordena as ações assistenciais.
Além do Abaré, equipes de Saúde da Família Ribeirinha e Fluvial atuam de forma regular nas comunidades, garantindo presença contínua do Estado onde unidades fixas seriam inviáveis. Ainda assim, municípios como Parintins, Maués e Coari enfrentam desafios persistentes. Em Coari, estudos apontam que a maioria dos ribeirinhos procura diretamente o hospital urbano, muitas vezes por ausência de profissionais nas unidades básicas locais.
Telemedicina aproxima margens distantes
Nos últimos anos, a tecnologia passou a encurtar o que antes parecia intransponível. Projetos de telemedicina vêm sendo implementados em comunidades da Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns e no distrito de Arapixuna. Com internet via satélite e sistemas de energia solar instalados em unidades básicas, pacientes conseguem realizar consultas por videoconferência com especialistas localizados em centros urbanos.
Durante a pandemia de COVID-19, essa estratégia foi decisiva. Permitiu triagem precoce, monitoramento domiciliar e suporte clínico remoto. Em Santarém, equipes médicas ofereceram orientação a profissionais que estavam nas comunidades, evitando deslocamentos desnecessários e reduzindo riscos.

O projeto Rios de Esperança ampliou esse alcance ao oferecer telerreabilitação para pacientes com sequelas da doença. Psicólogos, fisioterapeutas e médicos acompanharam casos de ansiedade, fadiga e tosse persistente à distância. A saúde mental, frequentemente invisibilizada em áreas remotas, ganhou espaço na tela do computador.
Ainda há limitações. A conectividade nas residências ribeirinhas é escassa, obrigando moradores a se deslocarem até a unidade básica para a teleconsulta. Equipamentos exigem manutenção constante. Mesmo assim, a telemedicina transforma o longe muito longe em cuidado quase imediato.
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Saberes tradicionais e redes vivas de cuidado
Se a tecnologia avança, ela não substitui práticas ancestrais. Nas comunidades do Baixo Amazonas, parteiras, benzedores e puxadores de ossos continuam sendo primeira referência de saúde. Em muitos casos, são a única assistência disponível nas primeiras horas de uma emergência.
Parteiras tradicionais acompanham gestantes e realizam partos em localidades onde o hospital está a meio dia de viagem. Seu conhecimento combina experiência empírica e sensibilidade tátil. Puxadores tratam torções e desmintiduras com massagens firmes, enquanto benzedores recorrem a orações e ervas para enfrentar males espirituais.
O cuidado, ali, é integral. O hospital trata a fratura; o curador complementa com folhas, banhas e rezas para acelerar a cicatrização. Agentes Comunitários de Saúde atuam como ponte entre esses mundos. Conhecem as trilhas, sabem quem está doente e, muitas vezes, reconhecem a eficácia de remédios caseiros como a folha de corama.
Mesmo quando migram para áreas urbanas, ribeirinhos mantêm essas práticas. Elas representam identidade e resistência cultural. Não são apenas alternativa à ausência do Estado, mas forma própria de compreender o corpo, a natureza e o equilíbrio da vida.
A saúde no território líquido é, portanto, rede viva. Envolve barcos-hospital, satélites, ambulanchas e também rezas à beira do rio. Exige logística complexa, mas também sensibilidade cultural. Enquanto o SUS aprende a navegar, comunidades seguem cuidando umas das outras com o que têm à mão.
No Baixo Amazonas, garantir saúde significa aceitar que o rio decide o tempo das políticas públicas. E que, para alcançar cada casa sobre palafitas, é preciso remar entre ciência, tradição e persistência.


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