Em um marco para a infraestrutura e o bem-estar social da capital paraense, a Prefeitura de Belém, por meio da Secretaria Municipal de Zeladoria e Conservação Urbana (Sezel), entregou oficialmente na sexta-feira, 20/03, a primeira fase da requalificação do Canal da Quintino. A intervenção, que compreende o perímetro entre as ruas Padre Eutíquio e Apinagés, marca a transição de um espaço historicamente degradado para um complexo de convivência que beneficia diretamente cerca de 90 mil cidadãos nos bairros de Batista Campos, Jurunas e Condor.
O Programa Viva Canal: Urbanismo Tático e Ressignificação
A entrega do novo Canal da Quintino é o resultado prático do programa Viva Canal, uma iniciativa estratégica que visa reintegrar os canais da cidade à malha urbana produtiva e social. Por décadas, as margens desses canais foram tratadas como “áreas de fundo”, tornando-se pontos críticos de descarte irregular de resíduos sólidos e insegurança.
A metodologia aplicada na Quintino baseia-se no Urbanismo Tático. Esta abordagem permite intervenções rápidas e de baixo custo, mas com alto impacto visual e funcional. Ao invés de apenas realizar a limpeza mecânica da calha, a prefeitura instalou infraestrutura que convida a população a ocupar o espaço, transformando o “lixão” em “praça”.
Detalhamento da intervenção estrutural
Os trabalhos realizados no trecho entregue envolveram múltiplas frentes de atuação da Sezel e parceiros da iniciativa privada:

Drenagem e Limpeza Hidráulica: Remoção de toneladas de sedimentos e lixo que impediam o fluxo das águas, reduzindo o risco de transbordamentos imediatos.
Mobilidade e Acessibilidade: Implantação de novo calçamento padronizado, permitindo que idosos e pessoas com deficiência possam circular com segurança.
Iluminação e Segurança: A reorganização visual do espaço, aliada à nova iluminação, visa desencorajar o descarte irregular noturno e aumentar a percepção de segurança dos pedestres.
Sustentabilidade e Economia Circular
Um dos diferenciais técnicos mais expressivos desta entrega é o compromisso com a sustentabilidade. O mobiliário urbano instalado — composto por bancos, lixeiras e jardineiras — não foi adquirido por meios convencionais de mercado, mas sim fabricado a partir de resíduos sólidos.

O material utilizado tem origem na ecobarreira do Canal da Tamandaré. Plásticos e outros detritos coletados nas águas foram processados e transformados em mobiliário de alta durabilidade. Essa prática de economia circular não apenas reduz os custos públicos, mas educa a população sobre o ciclo do lixo. Ao ver o resíduo do canal transformado em um banco de praça, a comunidade é incentivada a preservar o ecossistema hídrico da cidade.
O Projeto Ilha Bela: A solução para os alagamentos históricos
Durante a solenidade de entrega, o prefeito Igor Normando subiu o tom da resolutividade ao anunciar o Projeto Ilha Bela. Se o Viva Canal foca na superfície e na convivência, o Ilha Bela mira no subsolo e na engenharia hidráulica pesada.

O projeto abrangerá o entorno da Travessa Padre Eutíquio com a Rua Fernando Guilhon, uma área que sofre há décadas com o efeito combinado de chuvas intensas e o regime de marés do Rio Guamá e da Baía do Guajará.
O conceito de “praça alagável”
A grande inovação anunciada é a construção de uma praça alagável (ou bacia de detenção urbana). Trata-se de uma tecnologia de infraestrutura azul e verde que permite que o espaço público funcione como um reservatório temporário durante o pico das marés ou temporais.

Funcionamento: Em dias secos, o local é uma praça comum. Em momentos de crise hídrica, a área armazena o excedente de água, evitando que as residências e comércios do entorno sejam inundados.
Status: O projeto já recebeu o aval técnico do Ministério das Cidades. A expectativa é que o processo licitatório ocorra ainda este semestre para que as máquinas comecem a operar até o final de 2026.
Impacto social e valorização imobiliária
Para além dos números e da engenharia, a revitalização atinge o cerne da dignidade humana. O depoimento de moradores, como a doméstica Valéria Silva, que reside na área desde 1984, reforça a mudança de paradigma. A sensação de “invisibilidade” dos moradores de borda de canal está sendo substituída pelo sentimento de pertencimento.

Especialistas em urbanismo apontam que intervenções como a do Canal da Quintino geram uma valorização imobiliária em cadeia. Com a eliminação do lixo e a chegada de lazer, o comércio local se fortalece e os imóveis residenciais ganham nova valorização de mercado, combatendo a degradação urbana que costuma caracterizar áreas centrais próximas a canais abertos.
O futuro da Zeladoria Urbana em Belém
A entrega da primeira fase da Quintino não é um ponto final, mas o início de um cronograma intenso de obras para 2026. A Sezel confirmou que as equipes já estão sendo mobilizadas para o Canal da 3 de Maio, que receberá tratamento semelhante, unindo saneamento e urbanismo.

O secretário Cleiton Chaves destacou que a manutenção é o próximo desafio. “Entregar a obra é o primeiro passo. O segundo é a zeladoria contínua e a parceria com a comunidade para que o lixo não volte para o canal. O Viva Canal é um programa de mudança cultural”.
Resumo das Informações Técnicas

| Item | Descrição |
| Localização | Canal da Quintino (Trecho Padre Eutíquio – Apinagés) |
| Bairros Beneficiados | Batista Campos, Jurunas e Condor |
| População Impactada | 90.000 pessoas |
| Principais Serviços | Drenagem, limpeza, pavimentação e urbanismo tático |
| Diferencial Ambiental | Mobiliário feito de material reciclado (ecobarreiras) |
| Próximo Passo | Expansão para o Canal da 3 de Maio e início do Projeto Ilha Bela |
A revitalização do Canal da Quintino redefine a relação de Belém com suas águas, provando que é possível conciliar os desafios geográficos de uma cidade amazônica com soluções modernas de convivência urbana e respeito ao meio ambiente.


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