A China tornou-se o principal símbolo dessa nova fase. Em 2024, o mercado de açaí em pó movimentou R$ 375 milhões, equivalente a 526 milhões de yuans. O dado revela não apenas crescimento, mas mudança no perfil de consumo. Entre jovens urbanos chineses, o fruto passou a representar saúde, energia e sofisticação alimentar.
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A preferência pelo pó não é casual. A logística internacional impõe limites severos à polpa fresca, cuja vida útil pode chegar a apenas 12 horas sem refrigeração adequada. O processo de liofilização, ao transformar a polpa em pó concentrado, amplia a durabilidade e facilita o transporte intercontinental. São necessários cerca de 10 quilos de polpa para produzir um quilo de pó, o que resulta em um produto de alto valor agregado, preservando cor, sabor e propriedades antioxidantes.
Além do setor de suplementos alimentares, a indústria cosmética chinesa observa o açaí com interesse crescente. Como segundo maior consumidor global de produtos de beleza, o país enxerga no óleo do fruto um ingrediente com apelo natural e propriedades antioxidantes valorizadas pelo público. Eventos de comércio eletrônico, como grandes festivais de compras online, já registraram picos de vendas superiores a 60%, indicando que a demanda digital pode acelerar ainda mais o crescimento.
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Entretanto, acessar esse mercado exige preparo. A entrada de alimentos na China depende do registro obrigatório junto à GACC, a Administração Geral de Alfândegas da China. O processo envolve adequação às normas de segurança alimentar, rastreabilidade, rotulagem e documentação técnica detalhada. Sem o número de registro emitido pela autoridade chinesa, a mercadoria simplesmente não desembarca.
Do lado brasileiro, empresas precisam estar habilitadas no Portal Único Siscomex e atender às exigências sanitárias do Ministério da Agricultura e Pecuária. A burocracia, somada à barreira linguística do sistema da GACC, que opera majoritariamente em mandarim, faz com que muitos exportadores recorram a consultorias especializadas. A própria GACC recomenda que o registro seja feito diretamente pelo exportador, garantindo autonomia sobre o acesso ao mercado.
Sudeste Asiático e Japão fortalecem consumo consolidado
Enquanto a China simboliza a expansão acelerada, Japão e Singapura representam mercados mais consolidados. O Japão já mantém tradição de consumo de alimentos funcionais e produtos associados ao bem-estar, o que favorece a presença do açaí em versões voltadas à saúde e nutrição.
Singapura, por sua vez, importa cerca de 95% do açaí consumido no país na forma de polpa congelada. A popularização de açaí bowls em cafeterias e bares especializados transformou o fruto em item quase obrigatório na paisagem gastronômica urbana. O comércio eletrônico também desempenha papel relevante na difusão do produto.
Esses mercados, embora menores em escala populacional, apresentam alto poder aquisitivo e capacidade de absorver produtos premium. Para o Pará, isso significa oportunidade de ampliar margens e consolidar imagem de qualidade.
A estratégia de verticalização ganha destaque nesse contexto. Em vez de exportar apenas matéria-prima, empresas paraenses investem na produção de suplementos, misturas prontas, óleos e até preparações embaladas. A agregação de valor é vista como caminho para reduzir dependência de preços internacionais e fortalecer a marca amazônica.
Coreia do Sul e Índia ampliam horizonte estratégico
A Coreia do Sul surge como mercado emergente de alto potencial. Classificada como a 13ª maior economia do mundo e quarta da Ásia, o país reúne consumidores atentos à saúde e abertos a novidades alimentares. Projeções indicam que o mercado de açaí na região Ásia-Pacífico pode crescer a uma taxa anual composta de 13,01% entre 2026 e 2034, saindo de US$ 326,09 milhões em 2025 para US$ 980,36 milhões até 2034.
A renda per capita sul-coreana deve avançar 8% até 2029, ampliando o espaço para produtos diferenciados e de maior valor agregado. Polpa, pó, cápsulas e smoothies já fazem parte do cardápio de consumidores que buscam alimentos funcionais.
A Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, a ApexBrasil, identifica o setor de alimentos e bebidas como estratégico para ampliar a presença brasileira no país. Diversificar a pauta exportadora, reduzindo a dependência de commodities tradicionais, tornou-se prioridade.
A Índia também desponta como horizonte promissor. Com população numerosa e classe média em expansão, o país pode absorver volumes significativos no médio prazo. A reorganização de fluxos comerciais globais, em meio a disputas tarifárias internacionais, abre espaço para novas parcerias.
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Logística, cultura e diplomacia comercial
Apesar do entusiasmo, a expansão do açaí para a Ásia esbarra em desafios estruturais. A cadeia de frio precisa ser rigorosa para manter qualidade da polpa congelada. O transporte marítimo exige planejamento minucioso e investimentos em infraestrutura.
Há também fatores culturais. Na China, o conceito de guanxi, que valoriza relações pessoais e confiança de longo prazo, influencia negociações. Em Singapura, pontualidade e precisão contratual são aspectos centrais. A ausência de profissionais fluentes em mandarim ou familiarizados com práticas asiáticas pode limitar acordos.
Eventos internacionais oferecem oportunidades de aproximação. A realização da COP30 em Belém deve reunir delegações de mais de 190 países, criando vitrine global para produtos amazônicos. O açaí, já reconhecido como superalimento, pode se consolidar como símbolo de economia sustentável associada à floresta.
O movimento de expansão do açaí paraense revela mais do que sucesso comercial. Ele traduz uma mudança na narrativa econômica da Amazônia. Em vez de exportar apenas matéria-prima bruta, o Pará busca posicionar um produto com identidade, valor agregado e história. Se os desafios logísticos e regulatórios forem superados com planejamento e investimento, o fruto que nasceu às margens dos rios amazônicos poderá consolidar presença permanente nas mesas e prateleiras asiáticas.
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