O Pará tem um território maior do que muitos países, e é justamente esse tamanho que transforma cada decisão sobre o campo em um desafio de proporções continentais. Foi para discutir esse paradoxo que centenas de produtores rurais cruzaram rios, estradas e o céu da Amazônia até chegar a Belém.
O destino era a sede da Federação da Agricultura e Pecuária do Pará (FAEPA), palco do 65º Encontro Ruralista em junho. Mais do que uma reunião de calendário, o evento virou um termômetro de como o estado pretende crescer economicamente enquanto carrega, sobre os ombros, a responsabilidade de preservar a maior floresta tropical do planeta.
Um estado do tamanho de um continente
Para entender a dificuldade de juntar o agro paraense em uma sala, basta olhar o mapa. O estado tem 124,7 milhões de hectares, uma extensão difícil de imaginar. Para efeito de comparação, é como espalhar mais de 170 milhões de campos de futebol entre a floresta, os rios e as fazendas.
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Reunir lideranças desse território vindas de todos os cantos é uma operação logística quase heroica. Quem descreve o esforço é o presidente da FAEPA, Carlos Xavier, uma das vozes mais tradicionais do setor produtivo da região.
“Na realidade, um evento como esse é um dos mais difíceis de ser realizado no estado do Pará”, ponderou Xavier.
O peso da distância aparece em cada deslocamento. Muitos representantes não pegam apenas um carro até a capital. Eles dependem de barcos que levam dias e de pequenos aviões para vencer a geografia amazônica.
“Trazer a liderança dos 144 municípios para discutir aqui não é fácil. Tem pessoas que vêm de região de barco, de avião, enfim… Não é fácil”, destacou o presidente.
Essa capilaridade tem um propósito claro. Sem ela, as decisões tomadas em Belém refletiriam apenas a realidade das regiões mais ricas, deixando de fora os municípios isolados, onde tecnologia e informação ainda chegam devagar.
A legalidade virou condição de sobrevivência
Se a distância é o primeiro obstáculo, o segundo está nas regras. O recado que ecoou no encontro é que a informalidade no campo ficou no passado. Hoje, vender significa estar dentro da lei.
Quem traçou esse perfil foi o vice-presidente da federação, Vilson Schuber, que articula a entidade junto aos 136 sindicatos espalhados pelo estado. Para ele, a sobrevivência econômica do produtor passa por um tripé inegociável.
“Para nós, no Pará, é extremamente importante que o nosso produtor esteja rigorosamente legalizado, rigorosamente licenciado, tanto ambientalmente como fundiariamente, e sobretudo cumprindo as regras de sanidade necessárias para que a sua produção seja possível ser enviada para outros países sem restrições”, alertou Schuber.
No centro desse nó está a terra. Sem o título da propriedade, o produtor não consegue o licenciamento ambiental. Sem o licenciamento, fica travado o acesso ao crédito que moderniza pastagens e lavouras.
A sanidade animal entra como questão de soberania econômica. O Pará investe para manter o status de zona livre de febre aftosa sem vacinação, a chave que abre os mercados mais lucrativos da Europa e da Ásia. Nesse jogo, a rastreabilidade do rebanho deixou de ser diferencial e virou ingresso obrigatório.
Quando uma notícia de Belém chega ao Acre em meia hora
Um dos pontos mais comemorados no evento foi a velocidade com que o debate paraense rompe as fronteiras da Amazônia. Em tempos de mensagens instantâneas, o isolamento geográfico histórico da região encontrou um atalho digital.
Schuber narrou o fenômeno com entusiasmo, ao descrever como compartilha as informações em redes que alcançam o Brasil inteiro.
“Quando caiu na minha rede aqui, meia hora depois, que é o tempo de eu abrir, o Acre já sabe, o Amazonas já sabe, o Rio Grande do Sul já sabe”, contou o vice-presidente.
Esse intercâmbio cria um ecossistema de apoio mútuo. Uma solução jurídica conquistada em uma região do Pará vira modelo imediato para produtores de estados vizinhos, encurtando distâncias que os mapas insistem em manter.
O paradoxo que tira o sono dos líderes do campo
Apesar das dificuldades, o tom no encerramento não foi de lamento. Foi de propósito. Para Carlos Xavier, o agro não deve ser medido apenas por exportação e PIB, mas pela capacidade de mudar a vida das pessoas.
E há uma ferida nesse discurso. O presidente expôs o contraste entre a riqueza natural exuberante e os indicadores sociais que envergonham o estado.
“A grande angústia que eu tenho é que nós somos os últimos, os piores IDHs estão aqui. E o objetivo dessa reunião é trazer o Pará inteiro para cá para discutir uma saída”, desabafou Xavier.
A aposta da FAEPA não é o assistencialismo. É a interiorização do desenvolvimento. A lógica é simples na intenção e difícil na prática. O campo forte fixa a pessoa em sua terra, gera emprego no comércio local e puxa investimento em escola, estrada e saúde para o interior.
“A transformação da sociedade necessariamente passa pela produção”, defendeu o presidente, sintetizando o espírito do encontro.
A terra travada e o medo do futuro
Entre os debates técnicos, a questão fundiária reapareceu como a mais espinhosa. Um dos palestrantes convidados levou ao público uma posição dura sobre a ampliação de áreas protegidas e demarcações, argumentando que parte expressiva do território estaria fechada para a atividade produtiva.
Segundo a avaliação apresentada por ele, restrições sobrepostas comprometeriam o espaço para produzir no estado caso se expandam sem critério técnico. É uma leitura do setor produtivo, e não um dado oficial consolidado, mas reflete a tensão real que move boa parte das reivindicações da categoria.
Esse é o ponto onde o agro paraense colide com o debate global sobre a Amazônia. De um lado, a pressão por bioeconomia, preservação e respeito aos saberes ancestrais dos povos da floresta. De outro, a cobrança do produtor por segurança jurídica para investir.
Um campo no centro das atenções do mundo
A escolha de junho para o encontro não foi por acaso. O evento funciona como ensaio para os grandes debates internacionais que se aproximam da região, com os olhos do planeta voltados para a crise climática e para o futuro da floresta.
As lideranças saíram da FAEPA com uma agenda clara. O recado é que o caminho para consolidar o Pará como potência agropecuária moderna passa, obrigatoriamente, por um pacto com a legalidade, a eficiência técnica e a sustentabilidade.
O produtor rural paraense sabe que carrega uma das legislações ambientais mais rígidas do mundo nas costas. A pergunta que fica suspensa sobre a Amazônia é se o estado conseguirá provar, diante do Brasil e do mundo, que é possível alimentar nações e manter a floresta de pé ao mesmo tempo.
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