No sertão central do Ceará, o tempo parece correr de um jeito diferente, preservando segredos que o asfalto das grandes metrópoles costuma esquecer. É de Quixadá que vem uma das histórias mais fascinantes da gastronomia brasileira recente: a trajetória de Kerley Freitas e sua marca, a “Traz que Eu Asso”. Mais do que um negócio de carnes premium, o empreendimento é um manifesto de amizade e um resgate das memórias afetivas de uma infância banhada pelo sol do Nordeste.
A Placa que Virou Destino
O nome curioso da marca — “Traz que Eu Asso” — não nasceu em uma sala de marketing, mas na entrada do sítio de um grande amigo de Kerley, o Sr. Vasconcelos. “Era um aviso bem-humorado para quem chegava sem nada nas mãos: ‘traga a carne que eu cuido do fogo’”, diverte-se Kerley.
Anos após o falecimento do amigo, o nome permaneceu guardado como uma relíquia na memória de Kerley, sendo usado primeiro para reunir vizinhos em churrascos de condomínio. O destino se selou quando Junior Vasconcelos, filho do antigo amigo, presenteou Kerley com a placa original de madeira que ficava no sítio. Hoje, aquela madeira envelhecida pelo tempo é o símbolo máximo da marca, representando o laço inquebrável entre o trabalho e a gratidão.
O Segredo de Seu João
Se o nome veio da amizade, o sabor veio da ancestralidade. Kerley cresceu frequentando o restaurante do lendário “Seu João da Carne Assada”, em Quixadá. O paladar da infância nunca o abandonou. Já adulto, ele buscou o herdeiro de Seu João para aprender a técnica de salga que a família guardava há mais de 100 anos.
“É uma cultura centenária de conservação de carne que nasceu no sertão, quando não existia refrigeração”, explica Kerley. Ele pegou esse segredo — uma salga equilibrada que dispensa o dessalgue e mantém a suculência — e o elevou ao nível internacional. O que era uma necessidade de sobrevivência do povo sertanejo tornou-se, nas mãos de Kerley, uma “experiência gastronômica premium”.
Do Sertão para o Mundo
A marca ganhou corpo durante a pandemia, transformando encontros informais em um sistema de delivery que rapidamente se espalhou. Mas o sonho de Kerley era maior: ele queria provar que o “saber fazer” nordestino tinha valor global. Em 2023, levou sua técnica para os Estados Unidos e, em 2024, fincou a bandeira cearense em Miami, produzindo carne de sol com certificação internacional.
Mesmo operando em solo americano e utilizando cortes nobres como Picanha e Ribeye, Kerley não deixa que a essência se perca. Cada peça embalada a vácuo carrega consigo o calor de Quixadá e a técnica de Seu João.
“Hoje, nossa carne de sol não é apenas alimento. É história. É a realização de um sonho de levar nossa cultura para além das fronteiras, mantendo viva a memória de quem me ensinou o valor da amizade e do bom churrasco”, afirma o empresário.
Para quem morde uma fatia da “Traz que Eu Asso”, o que se sente não é apenas o tempero perfeito, mas o gosto de uma tradição que se recusou a morrer e decidiu conquistar o mundo.



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