Mulheres lideram revolução da bioeconomia amazônica

Bioeconomia da floresta viva como ativo econômico

A lógica que orienta essa transformação parte de um princípio simples e poderoso: manter a floresta em pé é mais rentável e estratégico do que convertê-la em pasto ou área degradada. Territórios coletivos, como terras indígenas e assentamentos agroextrativistas, apresentam estoques de carbono superiores aos de propriedades privadas convencionais. No arquipélago do Marajó, estudos indicam que assentamentos de uso comum conservam até 1,8 vez mais carbono por hectare do que imóveis rurais particulares.

Neste artigo
  1. Bioeconomia da floresta viva como ativo econômico
  2. Sistemas agroflorestais e restauração produtiva
  3. Mulheres, cooperativismo e retenção de renda
  4. PlanBio, metas climáticas e desafios estruturais

Esse dado não é apenas ambiental; ele é econômico. A conservação garante serviços ecossistêmicos como regulação climática, manutenção do regime de chuvas e estabilidade hídrica — fatores que impactam diretamente cadeias produtivas e o abastecimento urbano. Em um contexto de mercado de carbono e pressão internacional por cadeias livres de desmatamento, a floresta preservada se converte em ativo estratégico.

O avanço da bioeconomia no Pará se apoia justamente nesse diferencial competitivo. Em vez de extrair madeira ou expandir monoculturas, comunidades tradicionais desenvolvem cadeias produtivas baseadas em frutos, sementes, óleos e fibras, agregando valor localmente e mantendo a integridade dos ecossistemas.

Sistemas agroflorestais e restauração produtiva

Grande parte dessa dinâmica ocorre por meio dos sistemas agroflorestais. Ao integrar diferentes espécies em arranjos que reproduzem a diversidade da floresta, os SAFs combinam produção e regeneração ambiental. Açaí e cacau se tornaram símbolos desse modelo.

Em regiões como o Marajó e áreas ao longo do rio Tocantins, os sistemas agroflorestais respondem por quase a totalidade do valor gerado em determinadas cadeias produtivas. O cacau, em especial, ganhou protagonismo como ferramenta de recuperação de áreas degradadas. Ao recompor cobertura vegetal e estimular a formação de biomassa, ele melhora a qualidade do solo, retém umidade e cria microclimas favoráveis a outras culturas.

Mais do que técnica agrícola, os SAFs representam um reencontro com práticas tradicionais. O plantio diversificado fortalece a soberania alimentar das famílias, reduz a dependência de alimentos industrializados e mantém viva a identidade ribeirinha. Produzir para o mercado e, ao mesmo tempo, garantir o alimento na mesa tornou-se parte central da narrativa da bioeconomia paraense.

Mulheres, cooperativismo e retenção de renda

Se a floresta é o cenário, as mulheres são protagonistas dessa mudança. Ribeirinhas, indígenas e quilombolas vêm assumindo posições estratégicas na organização produtiva e na transformação de matéria-prima em produtos de maior valor agregado. Sementes e frutos deixam de ser vendidos in natura para se converterem em sabonetes, óleos finos, cosméticos, chocolates e insumos farmacêuticos.

O cooperativismo tem sido decisivo nesse processo. Organizações como a CEMEM, no Marajó, e a CODAEMJ, no Médio Juruá, estruturam cadeias produtivas mais equilibradas, eliminando atravessadores e negociando diretamente com compradores nacionais e internacionais. A diferença é expressiva: enquanto cadeias desorganizadas permitem que extrativistas retenham menos de 3% do valor final do produto, cooperativas estruturadas conseguem manter entre 19% e 32% da renda na base produtiva.

Além da verticalização da produção, as cooperativas funcionam como espaços de formação. Cursos de gestão, contabilidade e marketing ampliam a capacidade de negociação e inserem as produtoras no mercado formal. Essa profissionalização reduz assimetrias históricas de poder entre comunidades tradicionais e grandes compradores.

O impacto ultrapassa o campo econômico. A autonomia financeira tem repercussões sociais concretas: aumento da participação feminina em conselhos municipais, maior independência nas decisões familiares e redução de situações de violência doméstica. A renda gerada permite reformas em moradias, aquisição de equipamentos e maior estabilidade para as famílias. A bioeconomia, nesse sentido, se traduz em transformação cotidiana.

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PlanBio, metas climáticas e desafios estruturais

Para dar escala a esse movimento, o governo estadual estruturou o Plano Estadual de Bioeconomia, conhecido como PlanBio. O plano integra a estratégia climática do estado e dialoga com o Plano Estadual Amazônia Agora. A meta é ambiciosa: tornar o Pará carbono neutro até 2030, antecipando compromissos anteriores, além de reduzir as emissões de gases de efeito estufa em pelo menos 37% até o fim da década e 43% até 2035.

O PlanBio está organizado em três eixos. O primeiro concentra esforços em pesquisa, desenvolvimento e inovação. A proposta é ampliar investimentos em prospecção de bioprodutos, estimular startups voltadas a bionegócios e fortalecer tecnologias sociais de baixo impacto ambiental. O segundo eixo trata da proteção do patrimônio cultural e genético, com previsão de regulamentação específica para acesso a recursos genéticos e repartição justa de benefícios com povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. O terceiro eixo foca cadeias produtivas e negócios sustentáveis, com estratégias de marketing, incentivos fiscais, verticalização da produção e criação de ambiente favorável a novos investimentos.

Iniciativas complementares reforçam essa agenda. O Parque de Bioeconomia e Inovação da Amazônia, inaugurado em Belém, reúne laboratórios e estrutura para desenvolvimento de produtos processados na própria região, aproximando ciência e saber tradicional. Parcerias com o Banco do Brasil preveem a oferta de R$ 500 milhões em crédito sustentável, priorizando comunidades tradicionais e empreendimentos de impacto socioambiental.

Apesar dos avanços, os desafios permanecem. A informalidade ainda marca cadeias importantes, como a da mandioca, cuja produção estimada chega a bilhões de reais, mas com registro formal muito inferior. A distribuição de renda segue concentrada na indústria, e a crise climática já afeta a produtividade de castanheiras e açaizais, exigindo políticas de adaptação mais robustas.

A bioeconomia no Pará, portanto, não é apenas uma agenda ambiental. Ela se configura como projeto de desenvolvimento que articula clima, renda, cultura e inovação. Ao reconhecer as comunidades tradicionais como agentes econômicos centrais e não como beneficiárias passivas, o estado ensaia uma mudança de paradigma. A floresta deixa de ser fronteira a conquistar e passa a ser território a cuidar. Nesse novo arranjo, prosperar não significa destruir, mas manejar com inteligência, distribuir renda com justiça e construir futuro com base naquilo que a Amazônia tem de mais valioso: sua diversidade.

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