O Pará vive um momento singular. Ao mesmo tempo em que carrega o peso histórico do desmatamento e da pressão sobre seus recursos naturais, o estado se transforma em laboratório de inovação ambiental. No centro dessa virada está a bioeconomia, cada vez mais associada ao uso estratégico da inteligência artificial para monitorar, preservar e recuperar a floresta amazônica.

No Parque de Ciência e Tecnologia Guamá, em Belém, a startup Solved desenvolve sistemas capazes de interpretar imagens de satélite e dados geoespaciais para identificar áreas sob risco de degradação. A empresa atua com inteligência artificial aplicada ao monitoramento ambiental em larga escala, incluindo análises relacionadas ao projeto MapBiomas e à identificação de atividades de mineração ilegal. A presença da Solved no PCT Guamá simboliza um novo perfil de empreendedorismo na região: tecnológico, analítico e alinhado à agenda climática global.
Outra frente relevante vem da Quiron Digital, apoiada pelo programa Inova Amazônia, do Sebrae. A empresa combina monitoramento via satélite com algoritmos de inteligência artificial capazes de prever riscos como incêndios e desmatamento antes que eles avancem. A proposta é simples e ambiciosa: monitorar milhões de hectares remotamente, sem depender exclusivamente de equipes de campo. Ao transformar dados em alertas antecipados, a startup reforça a ideia de que a bioeconomia precisa ser sustentada por sistemas preditivos eficientes.
Drones, algoritmos e inventários florestais em escala inédita
Se a inteligência artificial permite enxergar padrões invisíveis ao olhar humano, o uso de drones amplia essa capacidade. A Bioverse, em parceria com a Natura e comunidades locais em Abaetetuba e Irituia, realizou o maior inventário florestal da região com apoio de IA treinada para reconhecer espécies amazônicas de valor econômico e ecológico.
O sistema mapeou cerca de 60 mil hectares em apenas seis meses, um trabalho que levaria décadas pelos métodos tradicionais. A tecnologia identifica ativos como açaí e tucumã, fornecendo dados que ajudam comunidades e empresas a planejar o manejo sustentável. O resultado é uma integração concreta entre inovação tecnológica e geração de renda local, um dos pilares centrais da bioeconomia amazônica.
No campo da restauração ambiental, a startup Morfo foi contratada pela Hydro Paragominas para acelerar o reflorestamento de áreas mineradas. Utilizando drones equipados com inteligência artificial, a empresa consegue dispersar até 180 cápsulas de sementes por minuto, ampliando significativamente a escala das ações de recomposição vegetal. A tecnologia transforma áreas degradadas em campos de experimentação científica e recuperação produtiva.
Já a Amazon BioFert aposta na transformação de resíduos do açaí em biofertilizantes e créditos de carbono. Originária do Amapá e em processo de implantação de fábrica no Pará, a empresa insere inovação tecnológica na cadeia de reaproveitamento de resíduos orgânicos, reforçando a lógica circular da bioeconomia regional.
Dados abertos e inteligência preditiva como política pública
A inovação ambiental no Pará não se restringe ao setor privado. O Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, o Imazon, desenvolveu a ferramenta PrevisIA em parceria com a Microsoft e o Fundo Vale. O sistema utiliza algoritmos de inteligência artificial para detectar estradas abertas ilegalmente em imagens de satélite e cruzar essas informações com dados de topografia e cobertura vegetal.
A partir desse cruzamento, a plataforma identifica áreas com maior risco de desmatamento e queimadas antes que a degradação se consolide. Os dados são públicos, permitindo que órgãos governamentais e a sociedade civil planejem ações preventivas. A lógica da bioeconomia, nesse caso, se articula com transparência e governança, pilares fundamentais para atrair investimentos e consolidar credibilidade institucional.
Outra iniciativa relevante é a M A Kalif Cavalcante LTDA, listada no portfólio de Startups GovTech do Pará. A empresa oferece monitoramento florestal em três dimensões, permitindo o acompanhamento detalhado de áreas nativas e projetos de reflorestamento. O sistema gera indicadores ambientais, sociais e econômicos que auxiliam na gestão e na avaliação da rentabilidade das áreas monitoradas. A visualização tridimensional amplia a precisão das análises e facilita o controle da evolução da cobertura vegetal.
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Marcos regulatórios e ambiente de inovação
O avanço dessas soluções tecnológicas ocorre em um ambiente institucional que vem sendo moldado para favorecer negócios de impacto. O governo do Pará promulgou o Decreto nº 4.746, que institui o Comitê Estadual para o Desenvolvimento da Economia de Impacto Socioambiental, o CEDISA. A medida organiza instrumentos de fomento e consolida princípios voltados ao fortalecimento de empreendimentos alinhados à sustentabilidade.
O Plano Estadual Amazônia Agora estabelece metas para uma economia de baixa emissão de carbono, combinando fiscalização ambiental com incentivos a alternativas produtivas sustentáveis. Nesse contexto, a bioeconomia deixa de ser apenas discurso e passa a integrar políticas estruturantes.
A Companhia de Desenvolvimento Econômico do Pará, a Codec, atua oferecendo incentivos fiscais e apoio técnico especializado, aproximando investidores e auxiliando em processos como licenciamento ambiental. Já o Parque de Ciência e Tecnologia Guamá consolida-se como o primeiro parque tecnológico da região Norte, estimulando o empreendedorismo inovador com foco na Amazônia.
O estado também regulamentou sua integração ao Sistema Nacional de Economia de Impacto, o Simpacto, alinhando-se às diretrizes federais e ampliando o acesso de startups locais a redes nacionais de investimento. Programas como o Startup Pará e ferramentas digitais voltadas à desburocratização reforçam o objetivo de tornar o ambiente de negócios mais ágil e competitivo.
Nesse cenário, a bioeconomia no Pará assume contornos estratégicos. Não se trata apenas de explorar recursos naturais com menor impacto, mas de construir um modelo econômico ancorado em ciência de dados, inteligência artificial e governança ambiental. A floresta deixa de ser vista apenas como território de disputa e passa a ser interpretada como infraestrutura viva, monitorada por algoritmos e protegida por políticas públicas integradas.
O desafio permanece imenso. A pressão por expansão agropecuária, mineração e infraestrutura continua presente. No entanto, a combinação entre tecnologia, regulação e empreendedorismo de impacto indica que o Pará tenta trilhar um caminho distinto: transformar a Amazônia em protagonista da inovação sustentável global.

