Bioeconomia transforma resíduos em riqueza no Pará

A bioeconomia deixou de ser conceito acadêmico para se tornar motor real de transformação econômica no Pará. Em Belém, um conjunto de iniciativas conecta ciência, empreendedorismo e sustentabilidade com resultados concretos na construção civil e na gestão de resíduos. No centro desse movimento está o Parque de Ciência e Tecnologia Guamá, conhecido como PCT Guamá, que se consolidou como ambiente de articulação entre universidades, empresas e governo.

A lógica que sustenta esse novo ciclo econômico é simples e poderosa: transformar aquilo que antes era descartado em insumo produtivo. Em vez de enxergar plástico, vidro ou rejeitos industriais como problema, startups paraenses passaram a tratá-los como oportunidade. A bioeconomia, nesse contexto, não é apenas exploração sustentável da floresta, mas também reinvenção dos processos urbanos e industriais.

Essa virada ganha relevância num momento em que Belém se prepara para sediar a COP30, conferência global sobre clima. A cidade passa a ser observada não apenas como palco de debates ambientais, mas como laboratório de soluções concretas.

PCT Guamá como catalisador inovação sustentável

O PCT Guamá opera como infraestrutura estratégica para esse ecossistema. Instalado em área próxima à Universidade Federal do Pará, o parque reúne laboratórios, espaços de coworking, auditório e ambientes de pesquisa e desenvolvimento. Mais do que prédios, oferece conexão entre pesquisadores e empreendedores que buscam transformar protótipos em produtos viáveis no mercado.

Entre seus laboratórios está o Laboratório de Óleos da Amazônia, voltado à qualificação de extrativistas e ao fortalecimento de cadeias produtivas regionais. Empresas residentes têm acesso facilitado a serviços técnicos e científicos, o que reduz custos e encurta o caminho entre ideia e comercialização.

O parque também articula programas de aceleração e orientação empresarial. Ao facilitar o acesso ao Programa de Qualificação para Exportação, amplia as possibilidades de inserção internacional para negócios de base tecnológica e impacto socioambiental. Além disso, integra redes como a Anprotec e a Iasp, ampliando o alcance das startups paraenses em circuitos globais de inovação.

Com investimento recente na construção do Espaço Sustentável, o PCT Guamá amplia sua infraestrutura física e simbólica. A nova estrutura pretende consolidar Belém como polo de cooperação em tecnologias voltadas à sustentabilidade, especialmente no contexto da COP30.

Seixo de Plástico e reinvenção materiais construção

Entre as experiências mais emblemáticas da bioeconomia aplicada à construção civil está a startup Seixo de Plástico. A empresa desenvolveu metodologia própria para transformar resíduos urbanos e industriais em agregados para fabricação de tijolos, blocos, pisos e tubos derivados do concreto.

Plástico descartado, vidro quebrado e até rejeitos de mineração, como a lama vermelha, passam por processamento tecnológico que resulta em material de alto desempenho. A proposta dialoga com um dado contundente: a construção civil consome cerca de 75% da matéria-prima extraída da natureza. Ao substituir parte desses insumos por resíduos reaproveitados, a startup atua diretamente na redução da pressão sobre recursos naturais.

No próprio PCT Guamá, a empresa ergueu a Casa Sustentável, protótipo de 40 metros quadrados construído com cerca de 4 mil tijolos tecnológicos. O espaço funciona como vitrine e laboratório vivo. Ali, é possível testar desempenho térmico, resistência estrutural e viabilidade econômica.

Os resultados indicam vantagens competitivas. O custo dos materiais utilizados no protótipo ficou aproximadamente 30% abaixo do convencional. Além disso, os tijolos oferecem maior conforto térmico, característica especialmente relevante no clima quente e úmido da Amazônia. A iniciativa demonstra que sustentabilidade não precisa ser sinônimo de encarecimento, mas pode representar ganho financeiro e ambiental.

Composta Belém economia circular urbana

Outra peça importante desse ecossistema é a Composta Belém, startup voltada à economia circular, compostagem e logística reversa. Embora não atue diretamente na fabricação de materiais estruturais, sua contribuição para ambientes construídos é significativa.

A empresa desenvolve mobiliário sustentável a partir do reaproveitamento de pneus, pallets, vidros, ferragens e resíduos plásticos. Na Casa Sustentável do PCT Guamá, estantes, mesas, sofás e colchonetes foram produzidos com materiais que, em condições tradicionais, seguiriam para aterros.

A proposta vai além do design ecológico. Ao reinserir resíduos no ciclo produtivo como bens de uso, a Composta Belém propõe nova cultura urbana. A gestão de resíduos deixa de ser responsabilidade exclusiva do poder público e passa a integrar modelo de negócios inovador.

Essa abordagem dialoga diretamente com princípios mais amplos da bioeconomia: valorização de recursos locais, redução de impactos ambientais e geração de renda a partir de soluções sustentáveis. Ao transformar lixo em produto com identidade e função, a startup reforça narrativa de que desenvolvimento amazônico pode ocorrer sem repetir padrões predatórios.

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Belém entre ciência mercado floresta

A convergência entre iniciativas como Seixo de Plástico e Composta Belém, apoiadas pelo PCT Guamá, revela estratégia mais ampla de desenvolvimento. Não se trata apenas de apoiar empresas isoladas, mas de construir ecossistema onde ciência acadêmica, saber técnico e empreendedorismo dialogam de forma permanente.

Nesse cenário, a bioeconomia assume papel estruturante. Ela conecta floresta e cidade, laboratório e canteiro de obras, resíduo e produto final. A partir dessa lógica, Belém começa a se posicionar como referência em inovação sustentável na Amazônia.

O desafio agora é escalar essas experiências. Transformar protótipos em produção industrial, ampliar mercado consumidor e consolidar cadeias produtivas locais. A COP30 surge como oportunidade estratégica para apresentar ao mundo soluções desenvolvidas a partir da realidade amazônica.

Mais do que discurso ambiental, o que se desenha é modelo econômico que combina geração de emprego, redução de impactos e valorização de conhecimento regional. Se conseguir consolidar essa trajetória, Belém poderá demonstrar que bioeconomia não é apenas palavra de efeito, mas fundamento de novo ciclo de prosperidade para o Pará.